Uma comparação assustadora

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O Atlas da Violência 2026, divulgado recentemente, não traz novidades. Entre as repetições de tendências dos últimos anos, vemos o Amapá de novo como o estado mais violento do Brasil, exibindo a altíssima taxa de 45,7 homicídios por 100 mil habitantes, segundo dados obtidos pelo Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Eu estive na região recentemente, fazendo pesquisa de campo sobre a expansão de facções criminosas brasileiras, do Amapá para a Guiana Francesa. Pouca gente sabe, mas hoje as mesmas facções atuando no Brasil agem também do outro lado da fronteira, no departamento francês.

Estando ali, me dei conta de que a taxa de homicídios no Amapá é cinco vezes maior do que a da Guiana Francesa. Cinco vezes. No Amapá, a polícia é responsável por 38% dos homicídios registrados, a proporção mais alta entre as 27 unidades federativas em 2024, último dado disponível. No lado francês, essa proporção é zero.

Qual a causa dessa diferença tão gritante entre os números de violência do Amapá e da Guiana Francesa, sendo que exatamente as mesmas organizações criminais agem dos dois lados da fronteira e são o principal problema da segurança em cada lugar?

A resposta é evidente. As facções criminais enfrentam um modelo de segurança no Amapá, e outro completamente diferente na Guiana Francesa.

Para que vocês tenham uma ideia, no Amapá a polícia matou oficialmente 320 pessoas em 2023-24, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Nesses mesmíssimos anos, a polícia da França não matou nenhuma pessoa por ali. Zero.

Na minha pesquisa, entrevistei 23 presos brasileiros envolvidos com o CV (Comando Vermelho), o PCC (Primeiro Comando da Capital) e suas derivações regionais, chamadas Família Terror do Amapá (FTA) e Amigos para Sempre (APS). No presídio de Remire-Montjoly, nos arredores de Caiena (a capital da Guiana Francesa), falei também com familiares de presos, autoridades da Justiça e da alfândega, além de diversos operadores do sistema penitenciário.

Os presos preferem o Brasil. “A polícia toca o terror, nós toca também”. No lado francês, eles me relatam que é muito mais difícil. O Estado investiga, vários foram presos meses depois de crimes cometidos, quando estavam dormindo em casa. Isso, segundo eles, cria uma “tortura psicológica”. Você teme o Estado, sabe que ele vai te capturar daqui a pouco.

No lado francês da fronteira, 100% dos homicídios foram investigados, nesses anos. A média de esclarecimento de homicídios na França gira em torno de 83%, segundo dados da Polícia Judiciária. Enquanto isso, do lado brasileiro, não sabemos quantos homicídios são investigados. Os últimos dados públicos sobre o Amapá, compilados pelo Instituto Sou da Paz em 2019, falam em 19%. Ou seja, pode-se matar, sem problema.

Em suma, no lado francês há um modelo de segurança pública baseado em dados, análises, uma política pública. Do lado brasileiro, há uma guerra sangrenta entre policiais e “vagabundos”, como eles dizem. Os criminosos preferem o Brasil. A segurança é muito melhor na Guiana Francesa.


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noticia por : UOL