Mostra aproxima a arte de Fellini da de Joaquim Pedro de Andrade

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A Cinemateca Brasileira promove, a partir desta quarta (15), a “Retrospectiva Joaquim Pedro de Andrade e Federico Fellini“, com um diretor incontornável do cinema novo brasileiro e o diretor italiano mais famoso de todos. O que suas obras teriam em comum, além da admiração do brasileiro pelo italiano?

O Padre e a Moça” tem algo do primeiro Fellini, aquele mais ligado ao neorrealismo, período que se encerra com “Noites de Cabiria“. “Macunaíma” tem elementos fellinianos, como a loucura introduzida em sua estrutura, o onirismo e o aspecto circense de alguns trechos.

Podemos dizer que o caráter episódico de “Guerra Conjugal” tem parentesco com as estruturas em blocos narrativos independentes que Fellini burilou a partir de “A Doce Vida“. E que “Os Inconfidentes” parte de uma visão da história semelhante à que observamos em “Satyricon” —crítica e banhada em poesia da melhor estirpe, com apurado senso estético.

Independentemente das semelhanças, qualquer pretexto é válido para a exibição de filmes desses dois grandes cineastas, ainda mais que as novas gerações tendem a subestimar a força do cinema novo e a desprezar a capacidade de invenção de Fellini, tratando-o como excessivamente autoindulgente.

Analisando a programação e os percursos individuais, notamos que o primeiro dia coloca, já na primeira sessão, o filme mais famoso de Andrade, “Macunaíma”, de 1969. Importantíssimo por exacerbar o pendor para a alegoria típico da época e abrir um caminho de maior equilíbrio nos dois longas seguintes do diretor, “Os Inconfidentes”, 1972, e “Guerra Conjugal”, 1975, suas obras incontornáveis.

Na segunda sessão, “A Doce Vida”, de 1960, inaugura a fase seguinte de Fellini. Sem amarras com o neorrealismo, o cineasta pode se exercitar num tipo de estrutura que já estava insinuado em “Noites de Cabíria”, de 1957, e que será a assinatura do diretor até o fim de sua carreira.

A quinta-feira é toda dedicada a Fellini. Temos “A Trapaça”, 1955, um filme mais clássico da primeira fase, “Os Palhaços“, de 1970, feito originalmente para a televisão, mas exibido em 35 mm, e “Roma de Fellini“, 1972, da fase em que o nome do autor vinha junto do título, como uma grife.

“Roma” é o espelho de “Satyricon”, de 1969. São dois painéis históricos de Roma, um da antiguidade, outro no começo dos anos 1970. Em um dos momentos mais tocantes do primeiro, vemos pinturas descobertas numa escavação para o metrô. Essas pinturas o conectam ao final de “Satyricon”, que mostra os personagens de Petrônio, tal como Fellini os mostrou, eternizados em pedra.

O terceiro dia promove um sanduíche de Joaquim Pedro, com seu filme mais problemático, “O Homem do Pau-Brasil“, de 1983, espécie de tropicalismo tardio que perdeu o bonde do final dos anos 1960, entre o primeiro de Fellini, “Abismo de um Sonho“, de 1950, e seu filme mais confessional, “Amarcord“, de 1974.

A obra-prima muitas vezes incompreendida, “Satyricon”, passa no dia mais forte da mostra, 22 de julho, uma quarta-feira magnífica para o espectador que tem a obra desses diretores em alta conta. “Satyricon” é felliniano por excelência. Quem ama o cinema do diretor, ama este filme, que tem na fotografia de Giuseppe Rotunno um marco estético do cinema da época.

O outro filme do dia é nada menos que “Guerra Conjugal”, um dos mais belos do cinema brasileiro, na época incompreendido e muitas vezes acusado de machista, quando, na verdade, é um retrato duro e poético do machismo da classe média brasileira, com adaptações de contos de Dalton Trevisan.

Joaquim Pedro confiou na capacidade do espectador de compreender a crítica sem a necessidade de deixá-la evidente. Os grandes cineastas retratam o problema com agudeza de observação: cabe ao espectador o julgamento.

A carreira de Fellini é bem maior que a do cineasta brasileiro, e vários de seus filmes em exibição foram restaurados. Evidentemente, há mais sessões dedicadas ao cineasta italiano, como a de “Os Boas Vidas“, 1953, um de seus filmes mais amados, e “A Estrada da Vida”, de 1954, um dos mais sentimentais. Além, claro, dos excelentes “Oito e Meio“, 1963, e seu contraponto feminino, “Julieta dos Espíritos“, de 1965. Este último é importante por ser o primeiro colorido de Fellini.

Além da magia presente em “Ensaio de Orquestra”, de 1978, talvez seja importante destacar dois outros longas magníficos da penúltima fase de sua carreira, ambos presentes na programação e geralmente subvalorizados em sua filmografia.

Primeiramente, “A Cidade das Mulheres“, de 1980, continua a derrocada do “macho” latino iniciada no essencial e muitas vezes incompreendido “Casanova“, de 1976. Se este último é a grande ausência da retrospectiva, o primeiro nos mostra Fellini no auge de seu poder de imaginação, num momento em que o cinema italiano começava a entrar em crise.

Pouco depois de “A Cidade das Mulheres”, Fellini realizou o incrível “E la Nave Va“, de 1983, com o desnudamento de seu mundo artificial e uma tocante homenagem tanto à ópera quanto ao cinema silencioso. É outro trabalho de gala do mestre Rotunno.

O brasileiro, contudo, é muito bem representado. Além de todos os seus longas, a retrospectiva dedica duas sessões a seus curtas, incluindo episódios de filmes coletivos. Não se compreende o percurso desse importante cineasta sem conhecer obras como “Couro de Gato”, “Cinema Novo”, “Aleijadinho”, “Brasília – Contradições de uma Cidade” ou “Garrincha – Alegria do Povo”.

noticia por : UOL