O osso do ombro de um neandertal que morreu há 75 mil anos, no atual Iraque, exibe um buraco quase perfeitamente circular, medindo cerca de 1,5 cm de diâmetro. A posição e as características da abertura deixam pouca margem para dúvida: é muito provável que ela tenha sido provocada por um golpe de lança, desferido de cima e de frente para o indivíduo.
A arma, feita de madeira, deve ter perfurado um dos pulmões e algumas artérias da vítima antes de sair pelo lado de trás do osso, matando-a rapidamente. Não se pode descartar que o golpe tenha sido um acidente de caça, mas os responsáveis pela descoberta consideram que provavelmente ele é resultado de um confronto entre ancestrais da humanidade.
Se estiverem corretos, portanto, esse seria um dos mais antigos exemplos de morte causada por “violência interpessoal” –brigas, chacinas ou mesmo guerras de pequena escala– entre membros do gênero Homo, ao qual pertencemos. Pistas claras desse tipo de evento ainda são muito raras no registro arqueológico do Paleolítico (popularmente, a “Idade da Pedra Lascada”), só aparecendo com mais frequência quando começam a surgir as sociedades agrícolas e pastoris.
A análise do osso –uma escápula ou omoplata, como também é chamado– e de seu entorno arqueológico saiu no periódico especializado Scientific Reports na última quinta-feira (15). Os achados são ainda mais intrigantes por virem da célebre caverna de Shanidar.
Nessa gruta do Curdistão iraquiano, no extremo norte do país, outros esqueletos de neandertais já tinham sido encontrados. Primeiro foram dez indivíduos, nos anos 1950; desde 2015, um total de cinco. E, nesse caso, em camadas diferentes de sedimentos, um em cima do outro, na mesma área relativamente pequena (1,5 m de comprimento por 1 m de largura e 1 m de profundidade, atrás da uma grande pedra).
Tudo indica que estamos diante de sepultamentos intencionais, talvez espaçados por décadas, o que sugere fortemente uma conexão simbólica e/ou ritual dos neandertais com a morte de seus semelhantes ao longo do tempo.
Entre os neandertais de Shanidar havia um indivíduo que provavelmente sofria de cegueira parcial, surdez, artrite e paralisia num dos braços, mas ainda assim chegou a uma idade considerada avançada (até 45 anos). Acredita-se que só teria sobrevivido tanto graças aos cuidados que recebeu de outros membros de seu grupo.
E há indícios de que a mesma coisa se deu com o indivíduo analisado na nova pesquisa, apelidado de Shanidar A. Boa parte de seu esqueleto se perdeu, mas os pesquisadores do Departamento de Arqueologia da Universidade de Cambridge que estudaram o que sobrou verificaram, por exemplo, lesões graves na região da boca, com dentes que mudaram totalmente de posição e outro que foi rachado ao meio.
Só que esse dente rachado acumulou tártaro, chegando até o canal da raiz, o que sugere que, depois de receber uma forte pancada no rosto, o indivíduo (cujo sexo não foi possível determinar) continuou vivo por cerca de um ano, também provavelmente recebendo cuidados de seus companheiros, como alimentos amolecidos por eles.
Contra o golpe de lança, porém, não houve remédio. De todo modo, é impressionante que os arqueólogos tenham conseguido reconstruir o que aconteceu, porque a omoplata é uma parte relativamente frágil do esqueleto, conta a coordenadora do estudo, Emma Pomeroy.
“É extraordinário achar uma escápula perfeitamente preservada com 75 mil anos. Esses ossos são tão finos que, muitas vezes, não se encontram escápulas completas mesmo em sepulturas modernas”, afirmou ela em comunicado oficial.
Portanto, trespassar a parte óssea do ombro era a parte fácil, que ficou registrada inclusive pelo acúmulo de pequenos fragmentos da escápula na própria cova onde estava o corpo. O difícil era fazer com que a lança entrasse pela frente e perfurasse todo o corpo da vítima, o que indica um golpe dado com bastante ímpeto.
É por isso que Pomeroy considera mais provável a hipótese de um ataque deliberado. “A posição do ferimento e a força necessária para empurrar a arma, fazendo-a atravessar o corpo do neandertal, tem as características de um ataque para matar, voltado contra o coração”, resume ela.
Já o formato circular do buraco no osso sugere que se tratava de uma lança ou um dardo composto inteiramente de madeira porque a presença de pontas feitas com pedra (tecnologia bastante comum entre os neandertais) abriria um rombo diferente, mais anguloso, por exemplo.
Considerando a posterior extinção dos neandertais (que só aconteceria dezenas de milhares de anos mais tarde) e a miscigenação de parte deles com os Homo sapiens, é tentador imaginar que o conflito que vitimou o pobre Shanidar A teria envolvido oponentes de ambas as espécies.
No entanto, não há nenhum indício direto dessa suposta guerra entre espécies de hominínios (o grupo dos seres humanos e seus parentes extintos). E a tecnologia das lanças simples de madeira já era dominada pelos membros do gênero Homo antes que os próprios neandertais surgissem como linhagem separada. Para os pesquisadores, portanto, o mais provável é que se trate de um conflito entre neandertais, por motivos que são difíceis de investigar no momento.
noticia por : UOL


