Os ministros das Relações Exteriores do G7 se reúnem na próxima segunda (9) e terça (10) no Quai d’Orsay, sede da diplomacia da França. É a primeira reunião ministerial do grupo desde as eleições legislativas americanas de 3 de novembro.
O Brasil participa como convidado e será representado pelo chanceler Mauro Vieira. Um encontro bilateral com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi aventado pelo próprio Rubio em declaração recente, em Atlanta, mas não há nada agendado, segundo fontes do Itamaraty. Reuniões desse tipo costumam ser fechadas em cima da hora, e o programa do G7 reserva espaço para bilaterais ao longo dos dois dias.
Os europeus querem medir o tom de Washington em quatro frentes.
Na Ucrânia, se a pressão sobre Kiev para aceitar um acordo rápido continua no mesmo ritmo. No Oriente Médio, se há disposição de negociar com Teerã a reabertura do estreito de Hormuz. Na inteligência artificial, até onde os Estados Unidos aceitam discutir regras para armas autônomas e segurança cibernética, tema que a França vem empurrando para dentro das agendas de segurança internacional desde setembro. E na Otan, que voltou ao centro do debate nesta semana.
Na quinta (5), em Bruxelas, negociadores americanos se reuniram com representantes da Ucrânia, da Otan e de países europeus para tratar de garantias de segurança a Kiev. Jared Kushner, enviado do presidente Donald Trump, escreveu em seguida que o objetivo americano é atender às preocupações de segurança de todas as partes por meio de arranjos práticos, e que a Otan seguiria sendo central na defesa coletiva europeia.
No mesmo dia, Trump falou em um acordo “muito grande” com a Rússia, que abrangeria não apenas a guerra, mas “toda a Europa“. A frase caiu mal nas capitais do continente, onde cresce o receio de que a arquitetura de segurança europeia seja redesenhada à mesa da qual os europeus não participam.
A Ucrânia tem sessão própria na terça, último dia do encontro. Os europeus levam a Paris duas posições já conhecidas: a segurança do continente não se negocia sem eles, e os ativos russos congelados em território europeu permanecem como instrumento de pressão.
Na segunda começa também o exercício militar Koalicja 26.2, na Polônia, com 2.800 soldados de 11 países europeus, cerca de mil deles franceses, até 22 de novembro.
A discussão em Paris coincide com o reinício das negociações de paz em Abu Dhabi. Delegações dos Estados Unidos, da Rússia e da Ucrânia se reúnem na capital dos Emirados Árabes Unidos na terça (10) e na quarta (11), com mediação conduzida pelo enviado americano Steve Witkoff e por Kushner. É a quarta rodada do formato trilateral e a primeira desde fevereiro, quando as conversas foram interrompidas pela guerra no Irã.
Também na terça, os ministros discutem o Oriente Médio, com Egito e Arábia Saudita convidados. O estreito de Hormuz segue fechado ao tráfego comercial desde março.
Desde 1º de novembro, novos ataques a petroleiros no Golfo empurraram o Brent de volta ao patamar de US$ 100 o barril nesta sexta (6), depois de uma queda semanal de cerca de 12%, puxada pela aposta dos mercados de que a derrota republicana nas urnas levaria Trump a buscar uma saída para a guerra.
A posição francesa combina liberdade de navegação nos estreitos internacionais, diversificação do acesso à energia e um argumento doméstico: o preço do combustível no bolso do eleitor europeu.
As demais crises foram agrupadas num almoço de trabalho na segunda, que trata de Cuba, Haiti, Sudão, norte da África e Indo-Pacífico. A sessão sobre inteligência artificial ocorre na tarde do mesmo dia, com empresas do setor convidadas. O jantar de segunda é informal, restrito aos chefes de delegação e aos convidados.
Participam os sete membros —França, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Itália, Japão e Reino Unido— mais a União Europeia. Como convidados, Brasil, Egito, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Ucrânia.
O encontro estava marcado para Marselha e foi transferido para Paris na quarta-feira, por razões que a diplomacia francesa define como logísticas e operacionais. As forças policiais estão mobilizadas desde setembro pelo movimento de secundaristas e estudantes que se transformou em protesto contra a carestia, com milhares de detenções e toque de recolher noturno em dois bairros de Paris no fim de outubro. Marselha foi um dos focos dos confrontos de 17 de outubro.
A Presidência francesa também prepara três anúncios. Um é o financiamento do reparo do arco de contenção de Tchernóbil, atingido por um drone russo em 2025 e cujo custo passa de € 500 milhões; o G7 comprometeu € 260 milhões em outubro.
Outro é uma rede de 14 dos maiores portos do mundo, entre eles Le Havre, Hamburgo, Londres e Busan, para troca direta de informação sobre narcotráfico —segundo a Presidência francesa, 70% das apreensões de drogas na União Europeia acontecem em portos. O terceiro é um inventário comum de estoques humanitários, pensado para encurtar o tempo entre o desastre e a ajuda.
Este é o quarto ano consecutivo em que o Brasil comparece ao G7 como convidado. Em março, na reunião ministerial de Vaux-de-Cernay, Vieira defendeu a reforma das instituições multilaterais como resposta à erosão da governança global e conversou com Rubio à margem do encontro, sobre comércio e cooperação contra o crime organizado.
Em junho, Lula esteve na cúpula de Évian. Para a França, manter um integrante do Brics na sala faz parte de uma política deliberada de evitar que o mundo se organize em blocos antagônicos. Na agenda bilateral, estão a fronteira com a Guiana Francesa, a cooperação contra facções criminosas e o comércio.





