90% dos médicos recém-formados dizem não estar preparados para dar más notícias

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Um estudo brasileiro publicado nesta sexta-feira (17) na Revista Bioética mostra que 90% dos médicos recém-formados não se sentem capacitados para dar más notícias às famílias dos pacientes e avaliam que o treinamento recebido na graduação foi insuficiente.

O estudo mostrou que cerca de 40% dos médicos nunca receberam treinamento formal sobre o tema. Embora 61,2% tenham tido aulas na graduação, a maioria considera a formação insuficiente.

O autor do estudo, Daniel Alveno, fisioterapeuta do Hospital São Paulo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que a pesquisa, desenvolvida em sua tese de doutorado, buscou avaliar como médicos recém-formados, antes da especialização, se sentiam logo após a graduação.

“Se é exigida essa habilidade quando ele vai trabalhar e atender esses pacientes com perfil de doença grave, ameaçadora da vida, mas ele nunca recebeu treinamento para isso, a chance de errar nessa comunicação é muito grande”, afirma.

A pesquisa ouviu 2.418 médicos que responderam a um questionário enquanto aguardavam a prova de residência médica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em 2016, e foi concluída em 2022.

Para Sandro Schreiber, presidente da Abem (Associação Brasileira de Educação Médica), o resultado da pesquisa não surpreende. “Há muitos anos a gente vem lutando na educação médica brasileira para investir na formação humanística do médico, que inclui essa questão da comunicação de más notícias e da comunicação de um modo em geral”, afirma.

Alveno, que atua há mais de 15 anos com cuidados paliativos, diz que o paciente deve ser informado com clareza sobre sua condição, para poder planejar a vida e não viver apenas para o tratamento.

“Eu tenho um câncer, mas que doença é essa? Ela pode me matar em dois meses ou em dez anos? Tenho chances de cura? Se não tem cura, por que estou fazendo quimioterapia, cirurgia e radioterapia? Todas essas explicações precisam ser feitas com cuidado, mas nós percebemos que, na prática, não acontecem em muitos casos”, diz.

Se a equipe médica sabe como a doença vai progredir, quais são as complicações e os possíveis desfechos, essas informações são essenciais para que pacientes e familiares decidam, com os médicos, a melhor conduta, defende Alveno.

Segundo ele, a falta de informações interfere até na adesão ao tratamento, porque, sem compreender a importância de cada etapa, o paciente não sabe como ela pode impactar sua recuperação, as chances de cura e a qualidade de vida.

“A comunicação é importante se o paciente vai perder funcionalidade, ficar acamado ou perder a cognição, por exemplo, para que possam planejar a vida também, porque não é só tratar uma doença, é a vida de alguém que está acontecendo enquanto ela está se tratando.”

O estudo também aponta para uma falta de conhecimento dos médicos sobre os protocolos de comunicação. Do total de participantes, cerca de 65% afirmaram conhecer o protocolo Spikes, enquanto aproximadamente 29% a 35% desconheciam a existência de protocolos estruturados para essa tarefa.

O protocolo Spikes, um acrônimo em inglês, é amplamente utilizado para estruturar a comunicação de más notícias. Ele reúne seis etapas:

  • Preparação: escolher um ambiente privado e planejar a conversa.

  • Percepção: entender o que paciente e família já sabem.

  • Convite: identificar quanto desejam saber sobre diagnóstico e prognóstico.

  • Conhecimento: comunicar a notícia com clareza e cuidado.

  • Emoções: acolher as reações com empatia.

  • Estratégia e resumo: revisar o que foi dito e apresentar as opções de tratamento.

Alveno afirma que o protocolo oferece um roteiro para que os profissionais não se percam durante a conversa. “Tudo isso exige preparo, treino, um pensamento antecipado de como essa conversa vai acontecer para que possam realmente ter êxito, que no caso é a família entender tudo o que foi dito, ficar relativamente tranquila e confiar na equipe, apesar da notícia ser ruim.”

Conforme a pesquisa, a etapa de emoções foi apontada como a mais complexa pelos médicos (29,2%), seguida pela etapa de conhecimento (22,86%).

O óbito foi considerado o assunto mais difícil de comunicar (57,8%), e os pais foram apontados como os familiares mais difíceis de receber uma notícia de morte súbita (87,38%).

Embora 95,8% acreditem que o paciente tem o direito de saber sobre sua condição, 32,89% dos médicos concordam em compactuar com a família para omitir informações do paciente, prática conhecida como “conspiração do silêncio”, para evitar conflitos.

Alveno afirma que a conspiração do silêncio é uma prática antiética. O Código de Ética Médica estabelece que “é vedado ao médico deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta possa lhe provocar dano, devendo, nesse caso, fazer a comunicação a seu representante legal”.

O estudo aponta para a necessidade de reformular os currículos médicos para incluir treinamentos estruturados que abordem os aspectos técnicos e emocionais da comunicação de notícias difíceis.

Schreiber, que também é professor da Universidade Federal do Rio Grande e da Universidade Católica de Pelotas, diz que as novas Diretrizes Curriculares Nacionais de Medicina, publicadas em 2025, reforçaram a obrigatoriedade do ensino de habilidades de comunicação, incluindo a comunicação de más notícias.

“A gente conseguiu incluir e reforçar a obrigatoriedade de trabalhar habilidades de comunicação, incluindo de más notícias, nos currículos médicos. Isso é uma luta antiga”, afirma.

O professor ressalta, porém, que apenas incluir o tema no currículo não é suficiente. Para ele, é preciso ampliar o uso de situações simuladas e criar entre professores e estudantes a cultura de que comunicar uma má notícia exige técnica e treinamento.

Alveno afirma que a tendência é que as próximas turmas de médicos cheguem mais preparadas, já que os cursos passaram a ser obrigados a incluir cuidados paliativos nos currículos.

noticia por : UOL