Há 13 anos, Daiane Aparecida Ribeiro Moreira, 41, perdeu a mãe por complicações da diabetes. Segundo ela, a mãe não levava o tratamento a sério, e os sintomas foram progredindo: dores, feridas e problemas de visão, quadro que resultou em um infarto do miocárdio.
Hoje, Daiane, também diabética, conduz com seriedade seu tratamento. Visita o médico da atenção primária regularmente e retira a insulina em um centro de saúde de Campinas, no interior paulista, onde vive. Falhar com o tratamento não é uma opção, afirma. Ela avalia como bom o atendimento público.
Apesar do exemplo de Daiane, o Brasil vive uma situação complexa em relação ao controle de doenças crônicas, entre elas a diabetes, que avança na esteira de outras enfermidades.
A expectativa para os próximos anos é de que a doença aumente em incidência, segundo especialistas, resultado do avanço da obesidade e da falta de acesso ao tratamento. Essa estimativa acende o alerta para outras doenças, como a insuficiência renal e a cegueira, decorrentes da diabetes.
Estima-se que o país tenha cerca de 16 milhões de diabéticos, mas não há consenso sobre o número. Essa incerteza se deve, em parte, à falta de diagnósticos da diabetes, causada tanto pela falta de estrutura quanto pela falta de autocuidado, problema semelhante ao observado com a obesidade.
E a falta de notificação da doença é especialmente preocupante porque especialistas esperam um crescimento de casos nos próximos anos, e o descontrole dos índices glicêmicos pode levar a mais complicações pela doença e mais custos ao SUS (Sistema Único de Saúde).
Para o endocrinologista Wellington Santana, pesquisador e professor de endocrinologia na UFMA (Universidade Federal do Maranhão), medidas para controlar a diabetes passam por ações indiretas. Uma delas seria favorecer o consumo de alimentos in natura por meio de incentivos fiscais, medida já defendida por pesquisadores de obesidade.
É que diabetes e obesidade estão ligadas, explica o médico. “Os ultraprocessados são, em boa parte, ricos em açúcares, e o consumo exagerado descamba para o aumento glicêmico”.
O consumo frequente de alimentos açucarados leva a picos de glicemia, acelerando a resistência à insulina em pessoas predispostas. Pode ainda resultar no superávit calórico e no aumento da gordura corporal, por sua vez associado à piora no efeito da insulina.
“Diminuir o consumo de ultraprocessados e aumentar a ingestão de alimentos naturais ou minimamente processados teria um impacto importante no controle da glicose, que se traduz em benefícios a longo prazo”, afirma Santana.
Isso é, contudo, um desafio a ser enfrentado pela desigualdade de acesso a alimentos de qualidade no país.
Em relação ao tratamento de pessoas já diagnosticadas, o SUS tem boa estrutura para os tipos 1 e 2 do diabetes. No entanto, essa estrutura precisaria ser mais homogênea, pois hoje se concentra nos grandes centros urbanos, avaliam os especialistas.
“Uma parte da população é atendida de forma bastante adequada no SUS, com fornecimento de insulinas, medicações e acompanhamento constante. O problema ocorre quando olhamos para o interior que, por vezes, não tem um centro médico ou um especialista, e o paciente fica desassistido”, afirma a médica Flávia Coimbra, diretora da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.
Flávia trabalha na Santa Casa de Belo Horizonte, onde diz receber pacientes de cidades do interior sem acesso a oftalmologista, por exemplo. A visita a esse especialista é importante em casos mais delicados da doença, por complicações como a retinopatia diabética, que causa perda progressiva e silenciosa da visão –e pode cegar, se não tratada.
Santana afirma que outro problema contribui para a centralização do tratamento em grandes cidades: a falta de especialistas. Embora maior parte do acompanhamento possa ser realizado na atenção primária, o diabetes tipo 2 (mais comum) requer consultas com especialistas, sobretudo o endocrinologista.
Em nota, o Ministério da Saúde afirma que expandiu a atenção primária com a retomada do Mais Médicos, chegando a 27 mil profissionais em atividade.
A pasta diz ainda que estabeleceu 15 indicadores de qualidade no novo cofinanciamento federal da APS, incluindo o cuidado à pessoa com diabetes, que engloba consultas, exames, visitas domiciliares e avaliação dos pés. Os repasses federais passam a ficar vinculados à qualidade desses serviços.
Ainda que os hábitos alimentares preocupem, os especialistas dizem enxergam como positivo os avanços na indústria farmacêutica para tratamento do diabetes.
Um dos principais remédios, dizem, é a dapaglifozina, conhecida pelo nome comercial Forxiga. O remédio, usado para diabetes tipo 2, mostrou bons resultados também o tratamento de insuficiência cardíaca e doença renal crônica. Ele foi incorporado ao SUS em 2020.
Há uma expectativa entre os médicos pela incorporação dos análogos de GLP-1 à saúde pública, ao menos para pacientes que têm a diabetes e outras comorbidades.
“Se disponibilizados ao menos para a população que mais precisa, podemos afirmar que seria esse o maior acontecimento positivo para o tratamento de diabetes dos últimos anos”, diz Santana.
Embora tenham se popularizado por seus efeitos no emagrecimento, remédios como Ozempic, Wegovy e Mounjaro foram inicialmente desenvolvidos para diabetes.
“São bons em proteção renal, cardiovascular, hepático, e não apenas um controlador de glicose. Embora o preço seja um desafio, é preciso calcular o custo de hospitalizações que o estado vai gastar a longo prazo, para dosar o custo benefício”, afirma Flávia.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
noticia por : UOL




