Início VARIEDADES Um cardeal, uma ministra do STF e uma deputada entram na Flip…

Um cardeal, uma ministra do STF e uma deputada entram na Flip…

Era meio da tarde do primeiro dia da Flip quando Erika Hilton adentrou o restaurante com a típica imponência provocativa dos inseguros. Com mais duas pessoas, chamaram a atenção na medida certa para serem notados e ignorados. Conseguiram uma mesa no centro do lugar, o que achei politicamente irônico.

Ainda bem que eu já tinha almoçado, estava finalizando meu cafezinho. Fiquei a pensar no que havia escutado pela manhã. Em uma das mesas oficiais do evento, um cardeal poeta, de clergyman (o colarinho branco dos padres) e uma cruz de prata imensa sobre o peito, falou de como temos de estar atentos aos detalhes, ao que passa, “porque sempre Deus passa, isto é, sempre o mistério nos visita. Todos os dias acontece o mistério da anunciação”.

Seria possível alguma anunciação dessas através de Erika Hilton? Ou de Chico Alencar e Anielle Franco, outros dos políticos que vi por lá e, se mais estiveram, dei a sorte de não saber? Com a hiper politização da sociedade, não parece restar lugares e eventos que não estejam clara e fortemente demarcados ideologicamente. Como no meio editorial, jornalístico, universitário, há uma quase unanimidade progressista, em geral esquerdista (não, não são a mesma coisa), a presença desses políticos apenas confirmava o viés esperado da Flip, a maior festa literária do país.

Bastava uma passada de olhos pela programação oficial para se constatar que não havia mistério no que já estava anunciado. A “extrema direita” seria objeto de pseudo-análise e desprezo sincero, como de fato foi. Já era favas contadas que até a pergunta singela sobre o que isso teria a ver com literatura — mais ainda com a homenageada do festival, Orides Fontela, cuja poesia metafísica nunca se rebaixou ao comezinho político do momento —, perderia o sentido de ser formulada, afinal, o que não foi engolido pela politização da vida?

Por isso ninguém mais estranha que para falar de Grande Sertão: Veredas, uma das casas paralelas tenha convidado a jornalista Miriam Leitão e a ministra do STF, Cármen Lúcia. Pobre Guimarães Rosa… A ministra também esteve no evento oficial, em mesa exclusiva para si. Foi convidada com a desculpa de ter cometido um livro dia desses, acho que sobre democracia — aquela que ela considera admitir exceção para censurar documentário, como decidiu na eleição presidencial de 2022.

Apesar disso, nos mais de mil eventos, entre oficiais e paralelos, era perfeitamente possível se manter distante da toxicidade ideológica, encontrando diversas opções de mesas realmente literárias e até surpreendentes, dado o viés de quase tudo, como a palestra de Dom João de Orleans e Bragança sobre seu livro Dom Pedro II por Dom Pedro II e outra, também na mostra paralela, sobre “Educação e Humanidade em Santo Agostinho”.

Mais relevante neste sentido foi o fato do festival ter começado com uma missa celebrada por aquele cardeal poeta, José Tolentino Mendonça. E o que talvez fosse uma exceção ou mera concessão, demonstrou-se como algo maior. Na mesa em que participou, no dia seguinte, Tolentino arrancou lágrimas e aplausos da platéia. Se dúvida havia do seu sucesso, confira a lista de livros mais vendidos da Flip. Sua antologia poética, Os Enigmas Singulares, está lá, muito bem colocada.

Assisti a esta mesa e me surpreendi também com o poeta cardeal. Conhecia pouco de sua poesia. Para ser honesto, sequer sabia que era também cardeal. Decidi comprar sua antologia e arrisquei a fila de autógrafos. Lendo a esmo enquanto esperava, impressionei-me com vários poemas, também seus haikais, fruto de uma viagem ao Japão. Foi na página de um deles que pedi que deixasse seu autógrafo: “O que se instala na perfeição / desconhece o que só a indigência / revela”.

Ele fez mais do que autografar, fez parecer que o haikai tinha sido escrito para mim, completando em voz baixa: “não temas a pobreza”. Foi lembrando disso que finalizei meu cafezinho naquele almoço, dei uma última olhada na mesa da deputada, que sentava de costas para mim. Não mais a encontrei durante o festival, mas levei comigo o mistério de nossa indigência ideológica.

Voltei de Parati lendo o livro do poeta cardeal, cujo poema inaugural tem uma estrofe que diz: “Nesse tempo / ainda era possível / encontrar Deus / pelos baldios”. Baldios, em Portugal, não são áreas abandonadas, vazias, como no Brasil. São áreas comuns onde se pastoreia o gado, recolhe-se lenha, coisas assim.

Fechei o livro, avaliando a Flip. Baldio é uma palavra que, unindo os sentidos de lá e de cá, talvez faça justiça ao que é o festival. A literatura abandonada ou pastoreada pela política, algo assim. Mas também aí, como se vê, é possível encontrar Deus passando.

noticia por : Gazeta do Povo

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