Régis Bonvicino tinha horror ao efêmero e merecia mais atenção crítica no Brasil

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A viagem de Régis Bonvicino (1955-2025) a Roma, em 26 de junho, seria uma fuga. Provocador de nascença, o poeta decidiu visitar a Itália por razões espirituais. Estava exausto da banalidade da vida literária, do declínio da linguagem poética e dos elogios de críticos a poetas ocos. “Chega! Cansei do efêmero. Vamos para Roma!”, ele anunciou à família.

O roteiro na “Cidade Eterna” estava traçado. Ele pretendia percorrer os lugares associados aos diretores italianos Roberto Rossellini e Pier Paolo Pasolini e comprar livros no bairro de Trastevere. “Hoje, prefiro ver os filmes de Fellini, Antonioni e Rossellini do que ler poesia”, ele me disse, dias antes de embarcar. Anotações de logradouros em seu bolso: Via della Vasca Navale, 58; Viale dei Giusti della Farnesina, 6; Viale Antonino di San Giuliano, 782; Via Eufrate, 9.

Pasolini era um nome recorrente em suas últimas conversas, inspirador pela crítica ao fascismo da sociedade de consumo e ao inofensivo consumo do antifascismo em países capitalistas. “Considero Pasolini uma coisa profética. Não entendo como ele intuía aquilo. Ele previu tudo, previu esse desastre”. Da França, o artista plástico Luciano Figueiredo lhe enviou uma reportagem do “Le Monde” sobre uma nova investigação do assassinato de Pasolini, em 1975.

No domingo, 29, o poeta caiu na esquina de seu hotel em Roma. Desorientado com a queda, que feriu sua cabeça, ele foi levado de ambulância para a enfermaria de um hospital, onde permaneceu quatro dias até ser transferido para a unidade de terapia intensiva. Morreu na manhã deste sábado, 5 de julho. Sua esposa, Darly Menconi, o acompanhava na viagem.

O horror de Bonvicino ao efêmero passava também pela destruição da Ucrânia, da Faixa de Gaza e da Cracolândia em São Paulo, ruínas a seu ver interligadas. Ficou sem dormir depois dos bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. “Do que se trata”, seu último poema, concluído no mês passado, desintegrava ainda mais os cacos.

“Helicópteros sobrevoam o bunker/ Drones carregados de explosivos/ Incêndio, corpos queimados/ Uma coluna de fumaça/ Se confunde com as nuvens/ O pássaro faz uma rasante/ Diabos de todos os tipos/ Uma tenda ao lado da igreja/ O carrasco dizia:/ “O imperador Maximiliano/ Quando avistava uma forca/ Tirava-lhe o chapéu”.

“Minha poesia vem se afunilando nesse sentido desde ‘Página Órfã’, ‘Estado Crítico’, ‘A Nova Utopia’. É a minha maior preocupação: a questão do dejeto humano e sua linguagem”, ele disse.

A ausência de saídas, ou a busca de novas vias na linguagem, apareceu em seu célebre poema do livro “Sósia da Cópia” (1983): “Não há saídas/ Só ruas viadutos avenidas”.

Na década de 1970, Régis Bonvicino encontrou interlocução com os poetas concretos Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, mas, acima de tudo, com o amigo Paulo Leminski e os compositores tropicalistas, além da artista visual Lenora de Barros. Em uma diferença com Leminski, esteve mais concentrado no diálogo com Caetano Veloso, a quem dedicou um poema: “Lavar pratos sujos/ Na pia da cozinha/ (Depois do almoço)/ Limpos/ Minha alma”.

Esse foi o universo das conversas estéticas de sua juventude. Dali em frente, perseguiu uma linguagem pessoal, afastando-se da poesia concreta, do pop da tropicália e do desejo de comunicação ampla de Leminski. Dos concretos, preservou o apego à objetividade e a fidelidade ao legado das vanguardas históricas, sem acreditar em “repressão da linguagem”. A partir da década de 1990, expandiu o contato com poetas dos Estados Unidos, França, Espanha, Uruguai, Chile e México. Luciano Figueiredo virou o principal confidente de suas reflexões sobre as artes.

“Bicho Papel” (1975), “Régis Hotel” (1978) e “Sósia da Cópia” (1983) marcaram o seu começo na poesia e seu impulso contrário à estagnação e ao relaxamento. “Seu ‘Bicho Papel’ arranca de outra fonte: as vanguardas dos anos 1950/1960, principalmente a poesia concreta, com Tropicália, a vertente mais fecunda da poesia (= fazer verbal/textual) brasileira, nas últimas décadas. Perante a multiplicidade das direções, das influências, todos estamos à procura da síntese: nossa síntese = nossa poesia”, escreveu Leminski, em 1978. A fortuna crítica do poeta reúne ainda Boris Schnaiderman, Caetano Veloso, Haroldo de Campos, Luiz Costa Lima, Décio Pignatari, Alcir Pécora e Eduardo Milán, entre outros.

“Seus poemas distinguem-se por um peculiar manejo da dicção ‘coloquial-irônica’ (Edmund Wilson), que radica no lado talvez menos conhecido do Simbolismo francês (…) Poeta sobretudo urbano, capaz de sobriedade lírica, de imagem cortante e de causticidade crítica e autocrítica”, analisou Haroldo.

Era o poeta de sua geração mais admirado por Otávio Frias Filho, ex-publisher da Folha, que abriu espaço para seus textos neste jornal e ouvia suas recomendações literárias. O exercício da crítica alimentava a criação poética de Bonvicino, na voracidade com que lia, divergia, elogiava e brigava com outros intelectuais de seu tempo, confiante no poder profilático do embate cultural.

“Eu sou mais duro, vivi coisas difíceis, não consigo deixar de dizer o que acho, o que vejo. A indústria editorial e de comunicação está matando o debate, a reflexão, a invenção etc.”, ele afirmou no mês passado. “É um problema da cultura. Aqui tem toda uma falta de repertório mais alto, de indagação com a linguagem, até num sentido filosófico. Eu leio a poesia de outros países e ainda tem os dois lugares. Tem o lado convencional, lírico, e esse outro. Aqui, não”.

Depois da desistência da editora 34, ele acertou com a Quatro Cantos a reedição do livro “Envie Meu Dicionário: Cartas e Alguma Crítica” (com a correspondência de Leminski), ao qual acrescentaria um ensaio de Caetano. Pensava em devolvê-lo às livrarias a tempo da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que tem Leminski como autor homenageado.

“A Nova Utopia”, último livro de Bonvicino, merecedor de mais atenção crítica, condensa seu pensamento sobre a linguagem de um mundo sombrio. “Um rato dilacerado na pista/ Sacos de lixo abertos pela chuva:/ Não é o cúmulo, é apenas acúmulo,/ Um trovão detona a nuvem/ O que está no poema não está no mundo.”

noticia por : UOL