Nesta quinta-feira (24), cerca de 45 mil peregrinos vão lotar um estádio coberto em Saint Louis, no estado americano de Missouri, para a beatificação de Fulton J. Sheen.
Único bispo católico a ganhar um Emmy, autor de mais de sessenta livros e apresentador de um programa de televisão cuja audiência semanal foi estimada em 30 milhões de espectadores nos anos 1950, Sheen morreu em 1979.
A missa será presidida pelo cardeal filipino Luis Antonio Tagle como representante do papa Leão XIV. A celebração estava marcada para 21 de dezembro de 2019, na catedral de Peoria, no estado de Illinois, e foi adiada por quase sete anos após um pedido da diocese de Rochester, no estado de Nova York.
Sacerdote, professor e apresentador de TV
Sheen nasceu em El Paso, Illinois, em 8 de maio de 1895, cresceu em Peoria e foi ordenado sacerdote em 20 de setembro de 1919. Doutorou-se em filosofia pela Universidade de Louvain, na Bélgica, em 1923, tornando-se o primeiro americano a receber o Prêmio Cardeal Mercier de Filosofia Internacional, e lecionou por mais de duas décadas na Universidade Católica da América, em Washington.
Em 1930, Sheen começou a apresentar o seu programa semanal A Hora Católica, na rede NBC, que manteve por vinte anos. Em fevereiro de 1952 estreou A vida vale a pena ser vivida, na rede DuMont, com três emissoras. Dois meses depois eram quinze; no auge, 169 estações transmitiam Sheen no país inteiro, competindo pelo horário nobre com nomes como Frank Sinatra e Milton Berle. Sheen entrava no ar de batina, com um giz e um quadro-negro, e explicava questões teológicas de uma forma didática.
A audiência semanal do programa chegou a ser estimada em 30 milhões, segundo dados da Fundação Sheen e da Universidade Católica da América. Em 1953, ganhou o Emmy de Personalidade Mais Notável, superando Lucille Ball e Arthur Godfrey. Ao receber o prêmio, agradeceu aos “quatro roteiristas: Mateus, Marcos, Lucas e João”. Em 1957, quatro anos depois do Emmy, Sheen deixou a televisão sem alarde, alegando “considerações espirituais”.
Leite em pó, um milhão de dólares e um editor comunista
Desde 1950, Sheen dirigia o ramo norte-americano da Sociedade para a Propagação da Fé, então a principal fonte de recursos missionários da Igreja Católica. O governo dos Estados Unidos havia doado milhões de dólares em leite em pó à arquidiocese de Nova York, que passou o produto à Sociedade para distribuição aos pobres. O cardeal Francis Spellman, arcebispo de Nova York e superior canônico de Sheen na condição de bispo auxiliar, exigiu um milhão de dólares como pagamento pelo produto. Sheen recusou. O caso foi levado a Pio XII, que, informado por telefonema ao presidente Eisenhower de que a doação viera gratuitamente do governo americano, deu ganho a Sheen.
À saída da audiência, segundo depoimento judicial de Joan Sheen Cunningham, sobrinha e principal herdeira do bispo, Spellman disse: “Vou me acertar com você. Pode levar seis meses ou dez anos”.
Sheen se destacou pela quantidade e pelo perfil de convertidos que trouxe à Igreja: figuram nas listas oficiais a escritora e congressista Clare Boothe Luce e o industrial Henry Ford II. O caso mais espetacular foi o de Louis Budenz, editor executivo do jornal oficial do Partido Comunista dos Estados Unidos.
Segundo o próprio Sheen, o partido havia enviado Budenz para desmontar suas críticas radiofônicas ao regime soviético. Budenz voltou para casa perturbado. Em 10 de outubro de 1945, foi recebido de volta à Igreja Católica com a esposa Margaret e três filhas. A cena virou material recorrente na literatura anticomunista da Guerra Fria e ocupa capítulos centrais em Reeves e em outros estudos posteriores. Sheen resumia o método numa linha só: “não me interessava discutir comunismo; queria falar da alma dele”.
O milagre que permitiu a beatificação
Sheen morreu em 9 de dezembro de 1979, aos 84 anos, na capela particular do apartamento em que vivia em Manhattan. Dois meses antes, João Paulo II o abraçara publicamente na catedral de São Patrício, em Nova York, e lhe dissera: “Você escreveu e falou bem do Senhor Jesus. É um filho leal da Igreja”. A causa de canonização de Sheen foi aberta em 2002 pela diocese de Peoria. Em 2012, Bento XVI o proclamou venerável.
O milagre atribuído à sua intercessão diz respeito a James Fulton Engstrom, nascido natimorto em 16 de setembro de 2010, em Goodfield, Illinois, durante um parto domiciliar. A criança permaneceu sem pulso por 61 minutos, enquanto a mãe, Bonnie Engstrom, rezava pedindo a intercessão de Sheen. A equipe médica do OSF Saint Francis Medical Center, em Peoria, havia interrompido as tentativas de reanimação quando o coração voltou a bater. A comissão médica do Vaticano aprovou o caso em março de 2014, os teólogos em junho, e Francisco autorizou o decreto em 6 de julho de 2019. James, hoje adolescente, carregará uma relíquia do bispo na cerimônia de St. Louis nesta quinta.
noticia por : Gazeta do Povo




