Às vésperas das eleições presidenciais da Colômbia, marcadas para o próximo domingo (31), o advogado e candidato presidencial colombiano Abelardo de la Espriella vem sendo chamado, dentro e fora da Colômbia, de “Bukele colombiano”. A comparação com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, ganhou força à medida que o candidato avançou nas pesquisas e consolidou um discurso centrado em segurança pública, combate ao crime organizado e endurecimento penal.
Sua ascensão ocorre em meio ao desgaste do governo de Gustavo Petro e ao aumento da percepção de insegurança na Colômbia, com o avanço de grupos armados ilegais, dissidências das Farc e narcotráfico. Nos últimos meses, ataques com explosivos, confrontos e assassinatos recolocaram a segurança no centro do debate eleitoral.
Nos últimos meses, ataques com drones explosivos, confrontos armados e assassinatos reacenderam o debate sobre segurança, tema que se tornou o principal eixo da campanha presidencial.
Nesse contexto, Espriella construiu uma candidatura baseada na promessa de “mão de ferro” contra o crime, adotando uma retórica e até uma estética que lembram Bukele.
O advogado colombiano defende militarização intensiva, construção de megacárceres, destruição de plantações de coca, endurecimento das penas e o abandono da política de “Paz Total” implementada por Petro.
Em entrevistas e eventos públicos, o candidato colombiano não esconde a inspiração. Seu programa eleitoral fala explicitamente em restaurar a autoridade do Estado com “ordem”, “controle territorial” e fortalecimento das Forças Armadas.
Em um dos eventos de campanha, Espriella afirmou que o modelo de Bukele seria “plenamente aplicável” à Colômbia, embora adaptado à realidade do narcotráfico colombiano.
Crescimento nas pesquisas eleitorais
A agenda de segurança é hoje o principal motor de seu crescimento eleitoral. Segundo levantamento Atlas/Intel divulgado na reta final da campanha, o candidato governista Iván Cepeda aparece numericamente à frente no primeiro turno, com 38,7% das intenções de voto, contra 37,3% de Espriella.
Apesar disso, os cenários de segundo turno indicam vantagem para o advogado. No levantamento, ele venceria Cepeda por 50% a 41,3%.
Outro levantamento, da consultoria Guarumo, também mostrou que Espriella derrotaria Cepeda em um eventual segundo turno presidencial.
A mistura entre Bukele e Milei
O apelido de “Bukele colombiano” deriva especialmente da centralidade que Espriella dá ao tema da segurança.
Sua proposta prevê ampliação massiva do aparato repressivo do Estado, retomada das fumigações aéreas contra plantações ilícitas, criação de centros penitenciários de segurança máxima e enfrentamento militar direto contra grupos armados.
Na economia, o candidato mistura a pauta de segurança de Bukele com propostas liberais inspiradas no presidente argentino Javier Milei.
Seu programa fala em redução do tamanho do Estado, corte de impostos, incentivo ao fracking – técnica de extração não convencional de petróleo e gás natural de xisto, feita através da perfuração do solo e injeção de grandes volumes de água, areia e químicos sob alta pressão –, desregulamentação econômica e modernização administrativa baseada em inteligência artificial e blockchain.
A combinação de ultraliberalismo econômico e linha dura na segurança ajudou a ampliar seu apelo entre setores conservadores e parte do empresariado colombiano, especialmente diante do desgaste econômico e político do governo Petro.
A trajetória como advogado de figuras controversas
A trajetória de Abelardo de la Espriella como advogado é marcada por casos de grande repercussão e forte carga política, o que ajudou a consolidar sua imagem pública antes mesmo de sua entrada no debate eleitoral colombiano.
Um dos episódios mais conhecidos envolve o empresário Alex Saab, acusado pelas autoridades dos Estados Unidos de operar uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao regime do ex-ditador Nicolás Maduro, na Venezuela.
Saab é apontado em investigações internacionais como peça central em esquemas de movimentação financeira e fornecimento de bens ao regime venezuelano sob sanções econômicas. Espriella atuou em sua defesa em meio a um caso que se tornou símbolo das tensões diplomáticas entre Washington e Caracas.
Outro caso de grande impacto foi o de David Murcia Guzmán, fundador do grupo DMG, um esquema de fraude financeira que chegou a atrair milhares de investidores antes de ser desmontado pelas autoridades colombianas.
O modelo foi classificado pela Justiça do país como uma pirâmide financeira, responsável por prejuízos massivos e considerado um dos maiores escândalos econômicos da Colômbia no início dos anos 2000. Guzmán foi preso e condenado, e o caso permanece como referência de fraude em massa no país.
Ao longo da carreira, Espriella também atuou em defesas de políticos e empresários citados em investigações de corrupção e em casos ligados ao fenômeno da parapolítica — escândalos que envolveram a relação entre setores do Estado e grupos paramilitares na Colômbia.
Esse histórico passou a ser explorado no debate político. Adversários afirmam que Espriella construiu sua carreira defendendo personagens associados a esquemas de corrupção e criminalidade financeira, o que seria incompatível com o discurso anticorrupção que passou a adotar no campo político.
O advogado, por sua vez, sustenta que sua atuação sempre se deu dentro dos limites legais e que exerceu o direito de defesa técnica de seus clientes.
Entre as declarações que alimentaram controvérsia, está uma entrevista concedida à revista Semana, publicada em junho de 2021, na qual afirmou: “por que não legalizar 10% do capital ilegal existente na Colômbia”, citando recursos provenientes do narcotráfico, da mineração ilegal e de outras economias ilícitas.
A fala gerou forte repercussão no debate público colombiano e foi amplamente criticada por setores políticos e jurídicos, que a interpretaram como uma sugestão de flexibilização no enfrentamento ao crime.
Espriella afirmou, na ocasião, que se tratava de uma reflexão sobre mecanismos de formalização de capitais e formas de ampliar a arrecadação estatal.
Outro ponto frequentemente citado por críticos envolve sua participação em debates ligados ao conflito armado colombiano, especialmente em iniciativas e discussões sobre a reintegração política de personalidades vinculadas a grupos armados ilegais.
Acusações de autoritarismo
Entidades ligadas à defesa da liberdade de imprensa acusam Espriella de recorrer com frequência à Justiça contra jornalistas e colunistas críticos, em uma estratégia que, segundo essas organizações, teria efeito intimidatório sobre a atividade jornalística.
Adversários políticos dizem que o comportamento revela traços autoritários semelhantes aos apontados por críticos de Bukele em El Salvador.
A campanha presidencial elevou ainda mais o nível de confronto. Nos últimos dias, Espriella passou a trocar ataques públicos com a candidata Paloma Valencia, representante do uribismo tradicional.
Valencia afirmou que o rival utiliza uma retórica extremista e personalista semelhante à de movimentos populistas latino-americanos. Em resposta, Espriella acusou a adversária de desespero eleitoral diante da queda nas pesquisas.
O governo de Gustavo Petro entrou diretamente no embate após familiares de Rosa Elvira Cely — vítima de um dos feminicídios mais conhecidos da história recente da Colômbia — fazerem acusações públicas contra Espriella relacionadas à atuação do advogado no caso.
O presidente Gustavo Petro repercutiu nas redes sociais acusações segundo as quais a maior parte da indenização obtida pela família teria ficado com a defesa jurídica do caso. Espriella negou as alegações e afirmou que atuou gratuitamente no processo penal e acusou o governo de disseminar informações falsas. Posteriormente, Petro apagou a publicação.
A controvérsia ganhou ainda mais dimensão após familiares de Rosa Elvira contestarem publicamente declarações do advogado sobre sua participação no caso e na criação da legislação colombiana sobre feminicídio, ampliando o desgaste político em torno do episódio.
O “efeito Bukele” na América Latina
Apesar das controvérsias, Espriella conseguiu consolidar uma narrativa eleitoral eficiente em um momento de forte deterioração da segurança pública colombiana. A sensação de fracasso da política de negociação com grupos armados impulsionou candidaturas associadas ao discurso de repressão e autoridade estatal.
Especialistas observam que o fenômeno colombiano se encaixa em uma tendência regional mais ampla: o “efeito Bukele”.
O presidente salvadorenho tornou-se referência para candidatos de direita em diversos países latino-americanos, especialmente em contextos de alta criminalidade e descrédito das instituições tradicionais.
A principal diferença entre Bukele e Espriella está na trajetória política. Bukele chegou à Presidência após passar pela prefeitura de San Salvador e construir uma carreira política gradual. Já o colombiano tenta saltar diretamente da advocacia e do ambiente midiático para a chefia do Estado, sem experiência administrativa prévia.
noticia por : Gazeta do Povo




