As princesas do antigo Egito não parecem ter liderado exércitos em combate –em geral, essa era uma tarefa para o faraó e seus generais–, mas ao menos algumas delas tinham excelente treinamento militar. A prova está em seus ossos: um novo estudo revelou modificações na estrutura do esqueleto que batem com o uso rotineiro do arco e flecha ou de armas de mão.
As pistas que permitiram essa conclusão estão descritas em artigo no periódico Frontiers in Environmental Archaeology, publicado no último dia 16.
A equipe de pesquisadores, liderada por Zeinab Hashesh, da Universidade de Beni-Suef (Egito), analisou múmias da realeza egípcia datadas do chamado Médio Império, mais ou menos entre 1850 a.C. e 1700 a.C. (Para fins de periodização, os milênios de monarquia egípcia independente costumam ser divididos em Antigo, Médio e Novo Império, separados entre si pelos chamados períodos intermediários, em que há fragmentação política na região.)
As múmias estudadas por Hashesh e seus colegas estão longe de ser novidade, a rigor: foram encontradas nos anos 1890 no complexo funerário de Dahshur. A região correspondia ao cemitério real do antigo Egito durante o governo de Amenemhat 2º, na 12º dinastia egípcia, e abriga também uma série de pirâmides.
O problema é que essas múmias tinham sido perdidas desde então. Os restos mortais principescos só foram redescobertos no Museu Egípcio em 2020. Nessas idas e vindas, perderam-se, por exemplo, os crânios de diversos indivíduos, além dos tecidos moles do corpo, que acabaram virando pó.
No entanto, o que restou do esqueleto, junto com outras informações que acompanharam os corpos coletados na necrópole de Dahshur, foi suficiente para que os pesquisadores identificassem as nobres egípcias. Além disso, mesmo sem músculos preservados, a intensidade de exercícios e a sua repetição ao longo da vida costumam deixar marcas nas regiões ósseas onde eles ficam inseridos. Isso permite aos especialistas fazer inferências sobre os hábitos de cada pessoa.
Quatro das mulheres estudadas eram filhas de Amenemhat 2º, sepultadas em câmeras subterrâneas: as princesas Ita, Khenmet, Itaweret e, provavelmente, ao lado desta última, a princesa Sathathormeryt (nesse caso, há alguma incerteza quanto à identificação). Além do quarteto de irmãs, a equipe analisou ainda o esqueleto da princesa Noub-Hotep, provavelmente aparentada ao rei Hor, que viveu cerca de um século depois de Amenemhat 2º e era membro de outra dinastia.
O que todas as cinco filhas de monarcas egípcios listadas no último parágrafo têm em comum é a presença de armas finamente decoradas em suas câmaras mortuárias, ao lado das outras joias típicas dos túmulos de bem-nascidos nessa época.
Embora as crenças egípcias sobre o além tivessem um lado bastante prático –era comum “abastecer” o público com objetos que o morto pudesse usar no cotidiano do “outro mundo”, tal como o fazia na Terra–, não estava claro se, no caso das princesas, as armas seriam apenas insígnias de poder ou se de fato elas costumavam manejá-las ao longo da vida.
Com a análise bioarqueológica conduzida pela equipe, agora não restam mais dúvidas. “Os membros da família real, em especial as mulheres, participavam de atividades físicas que demandavam grande habilidade, como o uso do arco e a caça”, declarou Hashesh em comunicado oficial. “Essa conclusão é apoiada pela maneira como os ossos delas se desenvolveram para suportar uso pesado da musculatura, que corresponde diretamente às armas descobertas em seus túmulos.”
A musculatura dos braços e dos ombros da princesa Ita, por exemplo, que morreu entre os 28 e os 34 anos, indica que ela costumava usar armas para combate corpo a corpo, como maças ou adagas —e, de fato, uma bela adaga decorada, com lâmina de bronze, foi encontrada em sua tumba.
Itaweret, que também morreu na casa dos 20 ou 30 anos, tem um esqueleto típico de arqueira, além de ter sofrido fraturas nas costelas e nos pés que sugerem um estilo de vida ativo, com alta intensidade de exercícios.
Suas características ósseas batem tanto com as do rei Hor quanto com as da princesa Noub-Hotep, que também devem ter sido exímios arqueiros. Coincidência ou não, alguns séculos mais tarde, os faraós do Novo Império passam a ser representados na arte egípcia como mestres do arco por excelência, flechando seus inimigos de cima de seus carros de guerra puxados por cavalos (embora essa tecnologia, ao que tudo indica, ainda não estivesse disponível no Egito na época das princesas).
Também impressiona o fato de que o estilo de vida atlético ou guerreiro das nobres egípcias se desenvolveu mesmo com a presença de raras anomalias na coluna vertebral no caso das filhas de Amenemhat 2º. Os problemas congênitos no esqueleto provavelmente se devam à consanguinidade na família, já que era comum que os monarcas egípcios se casassem com suas irmãs, o que leva ao acúmulo de variantes deletérias do DNA na linhagem. Também há sinais de infecções e deficiências nutricionais, além das fraturas.
noticia por : UOL



