Início POLICIA Pedro Nunes, matemático, prodígio e paradoxo

Pedro Nunes, matemático, prodígio e paradoxo

O sujeito era impressionante. Primeiro professor catedrático (titular) de matemática da Universidade de Coimbra (1544), primeiro Cosmógrafo-Mor do reino (1547), cavaleiro da ordem militar de Cristo (1548), conselheiro real e professor de vários príncipes, pesquisador e inventor, foi um dos grandes intelectuais do seu tempo, descrito pelos contemporâneos nos termos mais superlativos: chegou a ser comparado a Arquimedes!

O inglês John Dee (1527–1608) famoso cosmógrafo da rainha Elizabeth 1, nomeou-o seu executor testamentário, descrevendo-o como “homem eruditíssimo, único depósito e coluna das ciências matemáticas”. O influente médico, cosmógrafo e botânico luso-espanhol Simon de Tobar (1528-1596) dizia que era o “mayor matemático de quantos ha havido em nuestros tempos”. E o papa Gregório 13 buscou insistentemente sua assistência na reforma do calendário. Hoje, é o único cientista e educador representado no grandioso Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.

Apesar da celebridade, a sua biografia apresenta lacunas muito estranhas. Não é incomum que conheçamos bem a parte final das vidas de pessoas famosas, inclusive o local, a data e as circunstâncias de suas mortes, ao mesmo tempo em que ignoramos todas as informações relativas a seus nascimentos, quando ainda eram meros desconhecidos. No caso dele acontece exatamente o contrário.

Sabemos que Pedro Nunes nasceu em 1502 na cidade de Alcácer do Sal, na província portuguesa do Alentejo, mas ninguém sabe onde passou os últimos de sua vida, nem onde foi sepultado. Não há registro notarial do testamento nem do seu funeral, documentos que eram comuns na época. Mas também é sabido que ao final da vida teve sérios dissabores, tanto profissionais quanto pessoais. É plausível que eles o tenham levado a buscar o isolamento e, com isso, um esquecimento prematuro.

Houve o desconforto de sua aposentadoria da Universidade, onde o sucessor na cátedra de matemática foi nomeado sem ouvir a opinião dele. É possível que isso indique perda de prestígio na corte, onde seu protagonismo deve ter atraído muitas inimizades. E houve o doloroso escândalo da “dama da cutilada”, envolvendo sua filha caçula, Guiomar.

Um homem teria prometido casar com ela, mas vivia adiando o enlace. Chamados a audiência perante o bispo para esclarecer o assunto, em 1578, o rapaz nega publicamente o compromisso! Indignada, Guiomar finge se baixar para segredar algo no ouvido dele, saca um canivete e, na presença de todos, corta o rosto do moço. Não sabemos que fim ele levou, mas é sabido que Guiomar foi recolhida a um convento. Para Pedro Nunes, cuja saúde já estava muito debilitada, pode ter sido o golpe final. Acredita-se que tenha morrido nesse mesmo ano.

Mas, ainda mais estranha do que a pouca informação sobre os últimos anos de Pedro Nunes, é a nossa total ignorância sobre seus antecedentes familiares. À parte a data e local do nascimento, não sabemos nada sobre como viveu antes de sua entrada como aluno na Universidade de Salamanca, aos 16 anos. Sobretudo, não temos nenhuma ideia de quem tenham sido seus ancestrais, imediatos ou remotos.

Em viagem recente a Portugal, tomei conhecimento do livro “Pedro Nunes: em busca de suas origens”, em que a historiadora Maria Teresa Lopes Pereira oferece uma hipótese muito instigante. O principal responsável por essa situação seria o próprio Pedro Nunes. O porquê vai ter que ficar para a semana que vem.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

noticia por : UOL

Sair da versão mobile