A figura abaixo apresenta duas estatísticas, para quatro períodos, que ajudam a entender a formação dos juros no Brasil.
A primeira variável, em vermelho no gráfico, é o excesso (por ano) da taxa de crescimento do gasto primário real (do governo central) sobre a taxa de crescimento real da economia. Essa variável mede o quanto o gasto público avança sobre a base material da economia. Como é a subtração de duas taxas de crescimento, essa variável é medida em ponto percentual. Por exemplo, em Lula 2 o gasto primário real por ano cresceu em média 3,3 pontos percentuais mais rapidamente do que o crescimento real da economia.
A segunda variável, em rosa no gráfico, representa a taxa básica de juros realizada (e anualizada) no período. Para o período da nova matriz econômica (NME), de 2012 até 2014, o juro real foi representado em cinza.
Tanto em Lula 2 quanto em Lula 3, o crescimento do gasto primário foi significativamente maior do que o crescimento da economia. O setor público pressionou a base de recursos da economia e, portanto, para que a inflação não crescesse, os juros reais foram elevados. No período do governo Temer, em que o crescimento do gasto público real foi igual ao crescimento da economia, os juros reais foram menores.
No período da NME, apesar de o gasto público crescer 4,4 pontos percentuais acima do crescimento da economia, os juros foram muito baixos. Foi o experimento monetário praticado no período. Deu errado e acabou muito mal.
O leitor pode se perguntar o motivo de, em Lula 3, com excesso de crescimento de gasto (sobre o crescimento da economia) de 1,9 ponto percentual, o juro real ser maior do que em Lula 2, que teve excesso de crescimento de 3,3 pontos. Outras variáveis interferem nos juros. Sabemos que o mercado de trabalho em Lula 3 está muito mais apertado do que em Lula 2 e o gasto de estados e municípios tem crescido muito.
A segunda questão que o leitor pode se perguntar é o motivo de eu não considerar períodos anteriores a Lula 2. O processo de acumulação de reservas ocorreu ao longo de Lula 1. As reservas promoveram forte queda do risco-país e alteraram a formação da taxa de juros. Antes de termos as reservas, o risco-país era muito elevado e os juros eram determinados essencialmente pelo juro internacional mais o risco. O excesso doméstico de demanda sobre a oferta tinha impacto menor na determinação da taxa de juros.
O gráfico sugere que a convergência para juros civilizados demandará que, ao longo de muitos anos, nós consigamos adotar regras para o gasto público que garantam que o gasto primário cresça na mesma velocidade da economia.
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noticia por : UOL
