Às vésperas de uma Copa do Mundo atravessada por tensões geopolíticas, com Estados Unidos e Irã no centro das atenções, o Haiti surge como uma presença deslocada dentro e fora de campo. Adversária do Brasil na fase de grupos, a seleção chega ao torneio depois de disputar toda a campanha das Eliminatórias longe de seu território e com a possibilidade de jogar o Mundial com desfalques nas arquibancadas.
O país é hoje o único das Américas cujos cidadãos estão impedidos de viajar para os Estados Unidos, coanfitrião do torneio ao lado de México e Canadá. Ao mesmo tempo, cerca de 350 mil haitianos vivem sob incerteza jurídica em território norte-americano, justamente onde a seleção disputará seus três jogos da primeira fase.
Nas últimas semanas, a Suprema Corte dos EUA começou a analisar o chamado TPS, sigla em inglês para status de proteção temporária, criado após o terremoto que devastou o Haiti em 2010, mas ameaçado recentemente após decisão do governo Donald Trump de encerrar o benefício.
O programa foi concedido inicialmente pelo governo de Barack Obama após o desastre em Porto Príncipe, que matou cerca de 300 mil pessoas e deixou um número semelhante de feridos. Desde então, a nação caribenha mergulhou em uma crise humanitária e institucional que se agravou ainda mais após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021.
De acordo com os Médicos Sem Fronteiras, organização presente no Haiti há 35 anos, o país se tornou “um dos lugares mais perigosos do mundo para se viver” e vive hoje “um conflito generalizado”, agravado pelo ressurgimento da cólera e por novos desastres naturais, como o furacão registrado em outubro de 2025.
“Infelizmente, é preciso reconhecer que o Haiti se tornou o que se conhece como um Estado falido, que perdeu o controle da segurança pública e de seu território, além de ser incapaz de fornecer muitos dos serviços básicos devidos à população”, afirmou à Folha David E. Guinn, professor de direito internacional e direitos humanos da Universidade Estadual de Nova York.
Segundo Guinn, o colapso institucional também compromete a capacidade de projeção externa do país. “A crise limita o acesso do Estado a recursos e restringe sua atuação internacional. Ainda assim, diplomatas haitianos seguem trabalhando nas Nações Unidas e em capitais estrangeiras para defender os interesses do país.”
Com a classificação para a Copa do Mundo, a seleção haitiana jogou luz novamente sobre a crise do país. Desde 2021, a equipe vive no exílio e disputa a maior parte de suas partidas oficiais em Curaçao por falta de segurança em Porto Príncipe. Foi em Curação que, em novembro, a vitória por 2 a 0 sobre a Nicarágua selou a vaga para o Mundial.
Além de não jogar em casa, a equipe é formada quase inteiramente por atletas da diáspora. Alguns deles jamais conseguiram visitar o Haiti. Nascido em Paris, mas filho de haitianos e com dupla nacionalidade, o meio-campista Jean-Ricner Bellegarde, 27, do Wolverhampton, da Inglaterra, é um desses casos. Em entrevista ao The Athletic, ele disse nunca ter ido ao país de seus pais “porque a segurança não é boa” e porque sabe que “as pessoas sofrem há muito tempo”.
“Espero que um dia haja paz no país”, afirmou Bellegarde, primeiro jogador da seleção haitiana a atuar na Premier League.
“Era impossível jogar lá. É muito perigoso”, lamentou o técnico francês Sébastien Migné, que levou o Haiti de volta ao Mundial após 52 anos. Além do Brasil, a seleção caribenha enfrentará Escócia e Marrocos na primeira fase.
“A classificação é apresentada ao mundo e vivida por haitianos dentro e fora do país como um símbolo de resiliência nacional e um raro motivo de orgulho para uma nação em sofrimento”, afirmou à Folha Kristina Spohr, historiadora especializada em geopolítica do esporte.
Para o goleiro e capitão Johny Placide, um dos poucos titulares nascidos no Haiti, o impacto vai além do futebol. “Seria um imenso motivo de orgulho para toda a nação. Para os jovens, seria uma vitrine, uma nova perspectiva.”
O professor David E. Guinn afirmou que a vaga cria uma rara oportunidade de reposicionamento internacional. “A diplomacia esportiva é um instrumento consolidado das relações internacionais. O Haiti deveria aproveitar cada oportunidade para conectar a trajetória de sua seleção às dificuldades enfrentadas pelo país.”
Essa leitura é compartilhada por Nicholas Cull, professor da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo, que faz parte da Universidade do Sul da Califórnia, uma das principais referências mundiais em diplomacia pública e “soft power”.
“O esporte é um elemento central nas novas disputas por soft power, ou, como prefiro chamar, segurança reputacional”, disse Cull. “No mundo conectado de hoje, as novas moedas incluem autenticidade e relevância. Para o Haiti, é uma chance de ser mais do que um desastre.”
noticia por : UOL
