Aos 70 anos, Gilmar Mendes é o ministro do Supremo Tribunal Federal com mais tempo de casa. Aquele que, em tese, deveria ser o maior símbolo do equilíbrio e da sobriedade da Corte.
Mas, na hora de escolher as palavras, o peso do cargo nem sempre parece fazer diferença. Não que Gilmar viva em confrontos permanentes. No entanto, quando ele entra numa briga, costuma ir até o fim.
Seus alvos preferidos mudam com o tempo, porém o roteiro costuma ser parecido. Durante anos, procuradores e juízes da Lava Jato ocuparam esse papel, recebendo ofensas que iam de “gângsteres” a “cretinos”.
Nos últimos dias, surgiu um novo inimigo: Romeu Zema, que entrou na mira de Gilmar logo após postar um vídeo satírico com bonecos representando figuras do STF. O ministro rebateu sem sutilezas, atacando o governador de Minas Gerais num tom que terminou em constrangimento público.
Quando é cobrado, Gilmar raramente se desculpa. E sempre dá um jeito de transformar seus excessos em virtudes — cita seu “compromisso com a história”, alerta que certos problemas não devem se repetir e até mesmo se considera um “profeta” que enxerga, antes de todos, os riscos contra a ordem democrática.
Veja a seguir onze momentos em que o decano do STF usou o peso do cargo não para apaziguar, mas para colocar ainda mais fogo no debate político e jurídico do país.
“Enfia essa pergunta”
Em março de 2018, durante um seminário jurídico em Lisboa, Gilmar Mendes perdeu a compostura diante de uma pergunta simples da imprensa. Ao ser questionado por um repórter sobre quem havia custeado sua viagem a Portugal, o ministro respondeu: “Devolva essa pergunta ao seu editor, manda ele enfiar isso na b…. Isso é molecagem, esse tipo de pergunta é desrespeito”.
Após a reação agressiva, Gilmar negou que o STF tivesse pago a passagem, mas não esclareceu de imediato a origem dos recursos.
O “método de gângster” da Lava Jato
Em março de 2019, o plenário do STF discutia uma questão técnica com grandes efeitos políticos: se crimes comuns ligados a caixa dois deveriam ir para a Justiça Eleitoral. No meio da disputa, Gilmar Mendes decidiu subir o tom contra a Operação Lava Jato.
Para ele, os investigadores de Curitiba estavam pressionando a Corte de maneira indevida. “Isso não é método de instituição, é método de gângster”, afirmou. Do outro lado, procuradores reagiram dizendo que esse tipo de declaração lançava uma “nuvem sombria” sobre a segurança jurídica das investigações.
“Gentalha” e “cretinos”
Naquela mesma sessão, o clima esquentou de vez quando Gilmar Mendes partiu para o ataque pessoal contra integrantes do Ministério Público. O estopim foi um artigo escrito pelo procurador Diogo Castor, que questionava decisões do STF consideradas favoráveis a políticos investigados e criticava o que ele via como um recuo da Corte no combate à corrupção.
Sem nenhuma cerimônia, o ministro chamou os investigadores de “gentalha despreparada” e disse que eles não tinham condições de integrar o MP. E completou: “São uns cretinos sem pensamento estratégico”.
Ele ainda sugeriu que a força-tarefa estava tentando construir um “projeto de poder” com recursos públicos. “Sabe-se lá o que podem estar fazendo com esse dinheiro”, disse.
Curitiba tem o “germe do fascismo”
Em maio de 2023, no programa Roda Viva, Gilmar Mendes resolveu ampliar sua crítica à Lava Jato incluindo uma cidade inteira no pacote. “Curitiba gerou Bolsonaro. Curitiba tem o germe do fascismo”, afirmou, associando a atuação da operação ao ambiente político que levou eleição Jair Bolsonaro.
Vereadores chegaram a discutir se era possível declarar o ministro “persona non grata” na capital paranaense. Porém, mais tarde, o ministro disse que estava apenas se referindo à chamada “República de Curitiba” — e não à cidade em si.
Moro e Deltan “roubavam galinhas juntos”
Em abril de 2024, Sergio Moro esteve pessoalmente no gabinete de Gilmar Mendes. O encontro rendeu uma frase que o ministro fez questão de repetir em público semanas mais tarde. Segundo o próprio Gilmar, ele disse a Moro: “Você e Deltan Dallagnol roubavam galinhas juntos. Não diga que não, Sergio”.
A metáfora, interiorana e nada sutil, foi usada para reforçar que havia, na visão dele, uma atuação combinada entre juiz e acusação.
Moro afirmou depois que tudo o que foi dito teve resposta, mas evitou entrar em detalhes por se tratar de uma reunião privada. Já Deltan desafiou o ministro para um debate e criticou o que chamou de ataques sem contraditório.
“Cérebro de minhoca”
Em dezembro de 2024, numa entrevista para a revista de esquerda CartaCapital, Gilmar Mendes voltou a desqualificar a capacidade dos investigadores da Lava Jato.
O ministro disse sentir vergonha de o país ter sido conduzido por “microcéfalos” com “cérebro de minhoca”, referindo-se aos heróis da operação. Ele também classificou aquele período como uma “quadra obscura” da história brasileira, em que se deu poder a uma “gente muito chinfrim”.
E, como se não bastasse, Gilmar contou, com orgulho, que é chamado de “profeta” nos corredores do Supremo — por ter sido, segundo ele, o primeiro a reagir contra o que considerava abusos da força-tarefa de Curitiba.
“Mórbida patologia psíquica”
Em abril de 2025, durante o julgamento sobre a Lei de Improbidade Administrativa, Gilmar Mendes recorreu ao vocabulário da psiquiatria para desqualificar, mais uma vez, os membros do Ministério Público que atuaram na Lava Jato.
Para o decano, os procuradores eram movidos por uma “mórbida patologia psíquica”. Traduzindo: as investigações do MP não partiam de um trabalho normal das instituições, mas de uma espécie de surto coletivo.
Ainda segundo Gilmar, essas ações eram “temerárias e predestinadas ao fracasso”, e serviam apenas para causar danos políticos irreversíveis a adversários eleitorais.
Moro não sabe escrever “tigela”
Na comemoração dos 135 anos do STF, em fevereiro deste ano, Gilmar Mendes aproveitou o microfone para cutucar (de novo) o senador Sergio Moro. Dessa vez, ele disse que jornalistas importantes, “hoje até promovidos”, trabalhavam como ghostwriters de Moro — já que o ex-juiz “talvez não soubesse escrever com ‘g’ ou com ‘j’ a palavra “tigela’”.
O senador respondeu afirmando que a provocação era apenas uma bobagem, dita para desviar a atenção de reportagens internacionais negativas sobre o ministro.
Janot, o “alcoólatra”
No último dia 14, durante uma sessão da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes estava visivelmente incomodado com o relatório da CPI do Crime Organizado (que sugeria seu indiciamento) e associou o documento a um “quê de lavajatismo”.
E não é que acabou sobrando para o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot? “Alguém não sabe que, às três horas da tarde, Janot já estava bêbado?”, afirmou.
O decano ainda chamou Janot de “triste figura” e disse que os constituintes de 1988 não imaginaram dar tanto poder a alguém com problemas desse tipo. Depois, Gilmar defendeu sua fala agressiva (e desproporcional), alegando que se tratava de um “compromisso com a história” para que condutas semelhantes não se repitam.
Em tempo: Gilmar Mendes e Rodrigo Janot foram amigos nos anos 80, mas a relação azedou durante a Operação Lava Jato, período em que os dois frequentemente trocavam farpas e acusações. Janot chegou a revelar que, no auge da rixa, em 2017, ele foi armado ao STF para matar Gilmar e depois se suicidar.
“Dialeto do Timor Leste”
No dia 22, em entrevista à TV Record, Gilmar Mendes ironizou o jeito de falar de Romeu Zema, governador de Minas Gerais que ele quer incluir no Inquérito das Fake News (por causa do já citado vídeo satírico com bonecos).
O ministro debochou do típico sotaque mineiro, afirmando que Zema se comunica por meio de “um dialeto próximo do português” e que muitas vezes não consegue entendê-lo. “Eu estava imaginando que ele fala uma língua lá do Timor Leste, um tétum ou coisa assim”, disse.
Zema rebateu dizendo que talvez sejam os brasileiros mais simples que não entendam o “português esnobe” de Brasília.
Será que ele é?
No dia seguinte, Gilmar foi ainda mais longe (e mais baixo) em seu embate com Romeu Zema. Em entrevista ao site Metrópoles, o ministro tentou argumentar que as sátiras ao STF deveriam ter limites — e acabou usando um exemplo que soou como uma insinuação sobre a sexualidade do governador.
“Imagine que nós comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo?”, questionou.
Gilmar depois pediu desculpas. E Zema respondeu que o ministro, em uma semana, conseguiu ofender homossexuais e milhões de mineiros ao mesmo tempo.
noticia por : Gazeta do Povo






