Na efervescência artística dos anos 1980 no país, Jair Tadeu da Fonseca despontou como uma das figuras que marcaram o rock independente em Belo Horizonte (MG), trilhando um caminho na poesia, na música e na literatura.
Nascido em Montes Claros, no norte mineiro, em 9 de abril de 1958, ele foi ainda criança para a capital com os pais e os irmãos Eugênio, Roberto e Goretti.
Gato Jair, como era conhecido desde pequeno por gostar do cartoon “Gato Félix”, começou a mostrar sua veia poética ainda durante a ditadura militar, fazendo parte dos movimentos estudantis.
“Ele entrou no grupo político e de poesia CemFlores, formado no final dos anos 1970, que foi o ponto de partida para o Jair consolidar a formação artística e a poesia, incentivado pelo poeta Marcelo Dolabela”, diz Kellen Guimarães, ex-namorada de Jair.
Naquela época, eles imprimiam revistas e livros em mimeógrafo e saíam para fazer performances coletivas ou individuais de poesias ao lado de Dolabela e Rubinho Mendonça em escolas, bares e outros espaços públicos, normalmente, tendo estudantes como audiência.
Ele chegou a ser detido pelo Dops, o órgão de repressão do regime, em uma dessas ações por entregar panfletos de manifestos contra a ditadura em praça pública, mas foi solto no mesmo dia, conta Kellen.
Nos anos seguintes, o grupo montou a banda Sexo Explícito e, em seguida, a Divergência Socialista, sempre tendo como base a cultura pós-punk. Mas foi em sua terceira banda que ele assumiu como letrista principal e vocalista. Ao lado do guitarrista John Ulhoa (do Pato Fu), em 1985, ele fundou a banda O Último Número, nome inspirado no poema homônimo de Augusto dos Anjos em seu livro “Eu” (1912). Depois, outros músicos foram aderindo.
A banda lançou três álbuns: “O Strip-Tease da Alma” (1987), “Filme” (1988) e “Museu do Mundo” (2001). Ainda participou, com outras bandas da época, do disco “Sanguinho Novo”, tributo a Arnaldo Baptista, do grupo Os Mutantes. E se apresentou em vários locais do país.
“Ars Longa, Vita Brevis. E assim se foi um dos caras que me ensinaram um bocado de coisas quando eu não sabia chongas. Obrigado, Jair”, publicou John Ulhoa em homenagem no Instagram.
Paralelamente à música, Jair também se dedicava aos estudos e se formou em letras na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde também fez mestrado e doutorado em literatura, iniciando uma nova carreira como pesquisador e professor universitário.
Nos últimos 20 anos, foi professor efetivo de teoria da literatura e literatura comparada da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que postou uma homenagem a ele na internet.
Gato Jair sempre se pautava pela democracia e diversidade. Em seu perfil no Facebook, costumava publicar obituários de figuras importantes da arte e da política como forma de deixar suas histórias registradas.
“Jair foi um poeta cancionista, professor intelectual, uma pessoa com memória incrível, amado por uma rede de amigos. Era uma pessoa extremamente calma, mas com densidade fora do normal. Nunca conseguiu brigar com ninguém nos 67 anos de vida”, diz Kellen, que está preparando um acervo memorial sobre ele para sua revista virtual (TantasFolhas).
Morreu no último dia 15 de março, em Belo Horizonte. Deixa os irmãos e uma legião de amigos, fãs e admiradores.
noticia por : UOL




