O paraguaio Domingo Soriano Venialgo chegou ao Brasil em 1989 e se encantou pelo jeito amigável e acolhedor dos brasileiros, que o fazia se lembrar de sua terra natal. Nascido em 1959 na cidade de Itá, a 40 km de Assunção, começou a trabalhar aos 14 anos em uma fábrica de roupas, para complementar a renda em casa e ganhar sua liberdade. Mais velho, foi morar na Argentina, onde trabalhou como assistente de obras. Mas não gostava do trabalho, e mudou-se para São Paulo buscando uma vida nova.
Na capital paulista, fez o mesmo que tantos paraguaios na época: começou a costurar para lojas coreanas de roupas no centro da cidade. O trabalho, apesar de delicado e meticuloso, era árduo e informal: ia das 7h da manhã à meia-noite, de segunda a sexta-feira.
Nos finais de semana, se reunia à comunidade paraguaia em uma escola de samba no Brás para dançar e cantar. “Ele dizia que a vida não era pra ser levada tão a sério”, conta seu amigo mais próximo, Cipriano Samudio, que o conheceu em um desses sábados.
Domingo viveu dez anos no Brás antes de se mudar para a Vila Romana, na zona oeste de São Paulo, onde passou o resto da vida. No bairro, abriu seu primeiro ateliê de costura, em 2002, e começou a atrair clientes por seu trabalho ágil e caprichoso. Pregava botões, trocava zíperes, apertava, cortava, ajustava, costurava.
Ele ia ao Paraguai pelo menos duas vezes ao ano: no aniversário do pai, em julho, e nas festas de fim de ano. Sempre visitava os sobrinhos, Carolina e Carlos Venialgo, e levava presentes. “Ríamos juntos dos nossos próprios defeitos, tudo virava piada com ele”, diz Carolina, 50, a mais nova. Com a morte da mãe quando tinha um ano, ela cresceu tendo o tio como figura paterna.
Em um dos Natais no Paraguai, Domingo decidiu ficar. Morou por seis anos na chácara de Carlos, em Capiatá, cidade ao sul do país. Passavam as noites reunindo a família para comer churrasco de porco, ovelha e cabra, e sopa paraguaia, uma espécie de bolo de milho com queijo e cebola. Iam dormir tarde conversando e ouvindo música. “Era do tipo aventureiro, mas tranquilo e carinhoso”, conta Carlos, 56. “Foram anos ótimos, mas a cidade tinha pouco movimento e ele sentia falta de ganhar o próprio dinheiro”, diz.
Domingo voltou ao Brasil, onde não tinha família, mas muitos amigos conquistados com os anos de piadas que “só ele sabia contar”, segundo Cipriano. “Aonde ia, era querido”, diz. Domingo Soriano Venialgo morreu em 14 de agosto, aos 66 anos, vítima de um infarto. Ele deixa dois sobrinhos e incontáveis amigos e clientes fiéis.
noticia por : UOL




