“Jogando para Jesus”: seleção estreante na Copa chama atenção pela fé cristã

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“Foi uma noite especial de adoração, oração, gratidão, testemunhos pessoais e conversas inspiradoras sobre fé, propósito e seguir a Deus no mais alto nível do esporte”. Essa foi a forma, através de um culto a céu aberto, que a seleção de Curaçao, equipe inédita na Copa do Mundo, encontrou para se despedir de seus torcedores antes de embarcar para a competição de seleções mais importante do ano, que se iniciou no último dia 11.

O país, localizado no sul do mar do Caribe, tem uma população de aproximadamente 160 mil habitantes, 444 quilômetros quadrados e fez história ao se tornar o menor país do mundo a se classificar — e pontuar — na competição. Nem mesmo a eliminação após a derrota por 2 a 0 para a Costa do Marfim nesta quinta (25) diminuiu o feito memorável.

A ilha caribenha faz parte do Reino dos Países Baixos e sua seleção é nova no mundo do futebol: a equipe nacional foi fundada em 2010, após a dissolução das Antilhas Holandesas.

Mas os atletas curaçauenses não se destacam por um futebol invejável ou pelo poderio em bater de frente com as grandes seleções mundiais. Os olhos do mundo se direcionaram para os jogadores da ilha caribenha pelo extracampo: simplicidade, humildade, carisma e por sua conexão com a fé cristã.

Uma das imagens da Copa até o momento foi, justamente, na primeira partida de Curaçao. Após a derrota acachapante por 7 a 1 para a Alemanha, os jogadores, em um momento de fé e visivelmente emocionados por estrearem no torneio, se reuniram no centro do gramado para agradecer e rezar. Foi aí que receberam a companhia de alguns jogadores alemães, que se somaram à oração.

Um deles, o alemão Felix Nmecha, cristão devoto e que faz questão de não esconder sua fé, declarou, após a partida, que se juntou aos curaçauenses pois, “durante o jogo, somos adversários, mas depois do jogo somos todos cristãos e somos irmãos”.

“Em nossa fé, todos acreditamos que Jesus é glorificado através do jogo e é por isso que nos reunimos e simplesmente oramos juntos”.

Entre a bola de futebol, orações e testemunhos

O culto antes do embarque e as orações em conjunto com os alemães não foram os únicos momentos que viralizaram de atletas de Curaçao expondo sua fé.

Durante os treinos da equipe, foram feitos registros dos atletas cantando músicas gospel, como o louvor Goodness of God, do grupo Bethel Music, e também viralizaram testemunhos compartilhados por jogadores da seleção dias antes da Copa.

Um dos mais impactantes foi o de Kenji Gorré, camisa 14 do time, ex-viciado em cassinos, que compartilhou com os companheiros sua história de conversão. Ele conta que iniciou sua trajetória no futebol aos seis anos de idade e que, portanto, desde sua infância construiu sua identidade completamente em torno do esporte.

“Minha alegria estava nisso. Minha felicidade estava nisso. Quando o futebol ia bem, minha vida ia bem. Quando o futebol ia mal, minha vida ia mal. E essa era a minha realidade”.

Aos 18 anos, ele conta que sofreu seu primeiro grande revés ao ser dispensado do Manchester United, um dos principais times do mundo. “Pela primeira vez, minha identidade me foi tirada. Todos me conheciam como o cara que jogava no Manchester United. Fiquei me perguntando: “Quem sou eu?”

Kenji, então, rumou em busca de uma identidade, mas relata que, mesmo quando sua carreira decolou e ele passou a atuar em alto nível no futebol europeu, ainda assim nada o satisfazia completamente. “Disse para mim mesmo: quero ser o melhor em todas as áreas da minha vida. Não apenas o melhor jogador de futebol, mas o melhor em tudo. Quero ser o melhor parceiro para minha esposa. Se eu conseguir isso, me sentirei realizado”, afirmou.

Mesmo quando acreditava ter tudo, isto é, um relacionamento estável, finanças sólidas e sucesso na carreira, ele diz que “faltava algo”.

O ponto de virada na sua vida foi quando Kenji presenciou a morte de seu primo na Holanda.

“Lembro-me de estar naquele quarto e de ter visto ele dar seu último suspiro. Vi seu corpo, mas ele não estava mais lá. Onde ele está? Meu coração começou a fazer perguntas”, recordou. “Foi nesse momento que Deus se manifestou na minha vida. E desde aquele dia, ele me conduziu para um encontro”.

Foi então que, através de John Bostock, um jogador inglês fundador do Ballers in God (Jogadores de Deus, em tradução livre), uma comunidade cristã global que promove o discipulado e o apoio espiritual para jogadores profissionais, encontrou a “peça que faltava”.

“Ele [John Bostock] me perguntou: Kenji, você é cristão? E eu respondi: sim, claro, nasci cristão. Então ele perguntou: Quando você entregou sua vida a Cristo? Eu não entendi a pergunta. Ele perguntou: ‘Você já ouviu o evangelho? As boas novas?’ Eu pensei que ele estivesse falando de música.”

Kenji diz que nesse diálogo ouviu pela primeira vez a mensagem da morte e ressurreição de Jesus aplicada à sua própria vida. “Vi algo nele que eu não tinha. Agora sei o que era: o Espírito Santo”.

Desde então, o jogador de Curaçao testemunha que passou a buscar a palavra de Deus ativamente, até que teve uma “revelação” em sua casa. “Deus, tu não estás sozinho lá fora. Tu estás em mim”.

Pouco tempo depois, ele diz que entregou sua vida a Cristo. “Eu parei de colocá-lo no banco de trás e o coloquei no banco do motorista. Eu disse: ‘deixa ir, Kenji, e deixa Deus agir’, e a partir daquele dia minha vida mudou para sempre.”

Hoje, ele lidera as orações da equipe, é um dos jogadores de futebol que publicamente se propõe a falar de religião e aderiu ao Ballers in God.

“Ele morreu por vocês, não apenas por mim. Ele quer ter um relacionamento com vocês”, disse Kenji aos seus companheiros, pouco antes da Copa, em vídeo que viralizou.

Em campo, Curaçao fez história e ruas do país foram tomadas por comemorações

Mesmo com uma equipe sem grandes nomes do futebol mundial, Curaçao fez história na Copa do Mundo e quebrou alguns recordes. Só por garantir a vaga na competição, o país entrou para o Guinness World Records, o livro dos recordes, por ser o menor país a se classificar para o torneio.

Além disso, a pequena ilha parou para contemplar a seleção e mesmo após a goleada sofrida pela Alemanha, as comemorações não pararam. Vídeos de curaçauenses celebrando o único gol contra os europeus correram o mundo e mesmo após o revés por 7 a 1, e, ao final da partida, os jogadores foram exaltados pelos torcedores e autoridades.

“Um gol ainda é uma vitória. A alegria que eu senti, e que tantos torcedores sentiram quando Curaçao marcou, foi muito maior do que o placar. Aquele gol foi uma vitória por si só. Foi história. Foi orgulho. Foi o mundo ouvindo falar de Curaçao”, disse Grisha Heyliger-Marten, a Ministra do Turismo, Assuntos Econômicos, Transportes e Telecomunicações de São Martinho.

“Desde o momento em que os jogadores entraram em campo e a bandeira de Curaçao foi exibida, fiquei arrepiada. Para uma nação insular tão pequena chegar a esse nível, estar nesse palco e marcar em sua primeira participação em uma Copa do Mundo é algo verdadeiramente especial”, completou.

Se na estreia de Curaçao os caribenhos amargaram uma expressiva derrota, no segundo jogo o cenário melhorou: empataram sem gols com o Equador, garantiram seu primeiro ponto na Copa e viram as ruas do país serem tomadas por comemorações.

Além disso, outro recorde foi batido: no empate contra a seleção sul-americana, Eloy Room defendeu 15 chutes e se tornou o goleiro recordista de defesas em um jogo de tempo regulamentar na história da Copa, superando  o peruano Ramón Quiroga, que tinha feito 13.

Curaçao é totalmente independente?

Colonizado inicialmente por espanhóis, Curaçao foi dominado pela Holanda em 1634 e, a partir de 1954, a ilha passou a integrar as Antilhas Holandesas, um território autônomo que também englobava as ihas Bonaire, Saba, Santo Eustáquio e São Martinho.

Somente em 2010 os curaçauenses ganharam independência para gerenciar assuntos internos e o país passou a ser considerado um constituinte autônomo dentro do Reino dos Países Baixos. Mas ainda assim, os holandeses — até hoje — continuam responsáveis por áreas estratégicas do país como defesa e relações exteriores.

Integrantes da família real holandesa, inclusive, estiveram presentes na última partida de Curaçao na Copa, contra o Equador, e celebraram o empate com os jogadores e comissão técnica.

Em vídeos divulgados pela própria seleção, o rei Willem-Alexander e a rainha Máxima “invadiram” o vestiário da equipe e dançaram com os jogadores.

“O rei esteve aqui conosco com sua esposa e sua filha. Foi uma questão de respeito, dançaram conosco, sorriram conosco e foi maravilhoso. O empate foi o ponto crucial de tudo isso”, celebrou o técnico de Curaçao, Dick Advocaat.

Por que Curaçao tem seleção própria se é parte do Reino dos Países Baixos?

O fato de Curaçao não ser uma província dos Países Baixos, mas sim um país constituinte do Reino dos Países Baixos, faz com que a ilha caribenha tenha um status político que lhe permite ser elegível para disputar competições da FIFA. Isso porque a entidade permite que territórios autônomos tenham seleções próprias, mesmo que não sejam reconhecidos como Estados soberanos pela Organização das Nações Unidas (ONU) ou possuam passaporte próprio — caso da Escócia, que também disputa a Copa do Mundo.

Torcedores de Curaçao durante a partida da fase de grupos da Copa do Mundo FIFA 2026 entre Alemanha e Curaçao, em Houston, nos EUA, em 14 de junho de 2026. EFE/EPA/SAM WASSON (Foto: EFE)

Essa regra também abre margem para que outras seleções possam disputar competições esportivas como Porto Rico, território não incorporado dos Estados Unidos; Bermudas, território ultramarino do Reino Unido; Ilhas Faroé, território autônomo da Dinamarca; e Aruba, também constituinte do Reino dos Países Baixos.

É importante destacar que essa regra é exclusiva da FIFA, nos Jogos Olímpicos, por exemplo, a regra difere, pois o Comitê Olímpico Internacional (COI) costuma exigir o reconhecimento de Estado soberano.

A relação entre Curaçao e o Reino dos Países Baixos vai além das questões políticas e históricas e também se reflete no esporte: na Copa, dos 26 jogadores que defendem a ilha caribenha, 25 nasceram na Holanda.

Apenas o atacante Tahith Chong nasceu em Curaçao. Natural da capital Willemstad, ele também teve sua formação no futebol europeu.

Como, pela primeira vez, a FIFA ampliou a Copa do Mundo para 48 seleções, equipes com pouca tradição no cenário internacional passaram a enxergar uma oportunidade real de disputar o torneio.

Por essa razão, a seleção de Curaçao encontrou nos “filhos da diáspora” um caminho plausível para a formação de uma seleção consistente, já que a própria FIFA abre brechas — algumas, até questionáveis.

A entidade permite que jogadores defendam seleções de países onde não nasceram, desde que tenham vínculo familiar com o território ou tenham vivido nele por pelo menos cinco anos.

noticia por : Gazeta do Povo