Fui desabafar para as amigas sobre o assalto que sofri na última terça-feira. Não teve nada de extraordinário, um roubo normal. Ele ameaçou, entreguei tudo e ele disparou com a moto.
— Ah, o meu assaltante foi mais legal — disse uma delas. — Acredita que ele voltou pra me devolver o celular quando viu que não era um iPhone 17 Plus?
Achamos fofo. Um ladrão exigente, mas fofo.
O da outra só levou o dinheiro da carteira, para poupá-la do Poupatempo.
— O meu não me chamou de tia — disse uma. — Já achei respeitoso.
— E o meu que ainda perguntou se eu tinha como voltar para casa e me ofereceu um vale-transporte? — disse outra.
Todas suspiramos.
— Ainda existem cavalheiros neste mundo.
Tive que exagerar para dar pontos para o meu assaltante. Apelei. Falei que ele era bonito.
Mas veio outra amiga e disse:
— Ah, não. Isso porque você não viu o meu. Forte. Educado. Olhos verdes. Disse “boa noite” antes de anunciar o assalto. Hoje em dia, isso conta.
Eu só queria conversar sobre o horror da violência urbana e dividir com elas a dor e a delícia que foi ficar quatro dias desligada do mundo, sem celular. Mas a conversa virou um concurso de atendimento ao cliente, como se estivéssemos avaliando quantas estrelas cada um merecia.
— O meu falou: “Não chora, não, moça.” — Que sensível.
Não bastasse a humilhação de ser roubada pelo meu assaltante, eu estava sendo humilhada pela segunda vez, agora pelos assaltantes delas. Tentei recuperar terreno.
— Pelo menos ele me fez um bem: finalmente decorei o número dos meus filhos.
Não convenceu. Isso não valia como bônus. O mérito era meu, não do meu assaltante.
A disputa subiu de nível. Uma contou que o dela devolveu a aliança “porque coisa de casamento dá azar”.
Outra garantiu que o seu ladrão pediu desculpas pelo horário.
— Era madrugada, devia ser o último assalto do dia.
O meu não devolveu nada, não pediu desculpas, não me chamou de moça, não estava nem aí para a segunda via dos meus documentos. Era um assaltante frio, funcional. Fez o serviço, foi embora. Não criou vínculo.
— Talvez ele fosse tímido — sugeriu uma, tentando me consolar.
Foi empático, mas insuficiente. Meu assaltante era ordinário mesmo.
Tentei uma última cartada.
— O meu pelo menos não me agrediu.
— Também não elogiaremos o básico — respondeu uma amiga.
Era verdade. Àquela altura, eu já estava prestes a defender meu assaltante por não ter me dado uma coronhada.
A conversa tinha perdido qualquer compromisso com a realidade. Estávamos, naquele ponto, fantasiando nossos vilões.
— Lembro bem do meu penúltimo assaltante. Como ele cheirava bem — disse uma.
Foi o golpe derradeiro.
— Como assim, cheirava bem?
— Perfume bom, amadeirado. Não sei explicar. Sempre que sinto o cheiro lembro dele.
— Nossa, isso muda tudo.
Me rendi. Meu assalto não tinha sido apenas traumático, mas pobre em elementos narrativos. Um assalto sem criatividade, sem contradição. Fui assaltada sem dramaturgia.
— Da próxima vez espero que você tenha mais sorte — disse uma.
— Agora já aprendi: sem celular na rua.
Não era disso que ela falava.
Cada um tem o assaltante que merece. E o meu, foi uma verdadeira roubada.
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noticia por : UOL
