Evangélicos também estão no Círio de Nazaré: 'Se a gente quer ser respeitado, tem que respeitar'

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A professora de educação especial Vera Lúcia Souza, 53, pedalou 50 quilômetros para chegar ao Círio de Nazaré e venerar Nossa Senhora de Nazaré, a Nazinha.

A capelã Cineiry Cardoso Lima, 45, também se juntou à ciclo-romaria rumo a Belém. A diferença é que ela é evangélica, de uma igreja batista. Se a religião da amiga católica considera Maria como santa, a dela, não, por encarar isso como um gesto antibíblico de idolatria.

“Mas a gente aprende a honrar a fé das pessoas”, diz ela, uma entre mais de 20 ciclistas que descansavam em frente à Basílica de Nazaré após a pedalada romeira.

As duas vestem a camisa pelo Círio, mas com estampas distintas. Na da católica Vera Lúcia, as costas têm a imagem da santinha. Na da crente Cineiry, a inscrição “eu + você = Jesus”.

Maior evento católico da América Latina e um dos maiores do mundo ao lado das celebrações para Guadalupe (México) e Nazareno Negro (Filipinas), o Círio não é apenas questão de fé para quem desde criança o vive intensamente. É parte da cultura paraense, uma época do ano em que as ruas de Belém ganham decoração especial e prédios no circuito improvisam camarotes no térreo para ver a procissão passar.

O rápido avanço dessa outra aba cristã na região, ao menos por enquanto, não diminuiu a grandiosidade da festa católica. Dados do Censo 2022 revelam que o Norte tem a maior proporção evangélica do Brasil, 36,8% da população com 10 anos ou mais —a média nacional é 26,9%. Em Belém, que em 1911 foi berço da Assembleia de Deus do Brasil, 3 em cada 10 professam essa crença.

Manifestações contrárias ao Círio são ponto fora da curva. Há registros no século 19, com o pastor metodista Justus Nelson atacando o culto a Nazaré, idolatria indevida em sua opinião. Passou alguns meses de 1892 preso após declarações consideradas ofensivas ao catolicismo.

Mais de um século depois, em 2005, a imagem peregrina, que circula por Belém e arredores na temporada do Círio, foi atingida por duas pedras atiradas por um segurança de 34 anos que tomava remédios controlados. Segundo o noticiário da época, ele portava uma carteirinha da Assembleia de Deus e disse aos policiais que atacou a santa após receber “ordens de Satanás”.

Não há relatos mais amplos de animosidade evangélica ao Círio, ainda que algumas igrejas recomendem que seus fiéis fiquem de fora dele. Outras, como uma Assembleia de Deus local, até participam ativamente, organizando pontos de distribuição de água, por exemplo.

Não deixa de ser uma oportunidade de converter fiéis para o seu lado cristão da força, afirma o motorista Carlos Santos, 34, um assembleiano que esperava do lado de fora a mãe, católica, que estava na missa na basílica. “Mas ninguém chega evangelizando de uma forma agressiva. Se a pessoa dá abertura, aí eu falo. A gente só prega a verdade: Maria foi uma mulher honrada, e só. Santificado mesmo, só Deus.”

A esteticista Luiza Gomes, 53, diz que não é o momento para impor sua crença. “A gente quer que a nossa religião seja respeitada, então tem que respeitar a do outro”, diz a fiel da Congregação Cristã do Brasil.

A batista Cineiry fecha com ela. “A gente aprende a honrar a fé das pessoas. Se prega o amor, precisa dessa interação, respeitando, aceitando, sem essa questão de imposição do que é certo ou errado.”

Ela diz que não é uma postura isolada. O pastor da sua igreja até patrocinou a ciclo-romaria do ano passado, conta.

Lucilene Pinheiros, 53, agente comunitária de saúde, diz que para ela “o Círio é o Natal paraense, todo mundo se sente acolhido”. Também da Congregação Cristã, ela afirma não ter qualquer preconceito com a fé alheia porque “Jesus representa o amor”.

noticia por : UOL