The Economist
O ano passado foi o mais movimentado de todos os tempos para o setor de lançamentos de foguetes. A BryceTech, uma empresa de analistas e engenheiros, contabilizou 325 lançamentos orbitais, 25% a mais do que em 2024. Esses lançamentos colocaram 4.544 espaçonaves em órbita, um aumento de 54%. E 2024 já havia sido um ano recorde —assim como cada um dos três anos anteriores .
Apesar dessa abundância sem precedentes, o setor espacial está tomado pela preocupação com uma possível escassez de foguetes. “Acho que ‘pânico’ é a palavra-chave aqui”, afirma Caleb Henry, diretor de pesquisa da Quilty Space, outra empresa de análise do setor. A escassez iminente foi o “principal tema” da World Space Business Week, conferência realizada em Paris em meados de setembro, acrescenta ele.
O Starship e o propulsor Super Heavy v3 da SpaceX decolam em seu 14º voo de teste a partir do complexo de lançamento da SpaceX em Starbase, Texas, EUA.
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Steve Nesius – 28.set.26/Reuters
A causa do pânico é a SpaceX. A empresa de Elon Musk é a força dominante do setor, e seu Falcon 9, barato e confiável, é o principal veículo de lançamento da companhia. Em 2025, a SpaceX realizou 43 lançamentos para clientes externos, transportando centenas de satélites, tanto em voos dedicados quanto em missões de “rideshare”, nas quais vários clientes compartilham o mesmo foguete. A Rocket Lab, empresa neozelandesa-americana que é a concorrente mais próxima da SpaceX no mercado de lançamentos comerciais, realizou 18 voos —mas seu pequeno foguete Electron tem menos de 2% da capacidade de carga útil do Falcon 9.
Apesar de sua posição dominante, o Falcon 9 tem os dias contados. A SpaceX está interessada em migrar para o Starship, um foguete novo, muito maior e totalmente reutilizável, que ainda está em desenvolvimento. Recentemente, Gwynne Shotwell, diretora de operações da SpaceX, afirmou que a empresa deseja “tornar obsoletos nossos próprios produtos” antes que suas concorrentes consigam fazê-lo. Não se sabe exatamente quando o Falcon 9 deixará de voar. Mas, em 28 de setembro, um voo de teste do Starship colocou pela primeira vez em órbita satélites de banda larga Starlink da SpaceX. Tudo indica também que 2026 será o primeiro ano em que o número de voos do Falcon 9 diminuirá, em vez de aumentar. Segundo Simon Potter, da BryceTech, o que se comenta no mercado é que será impossível comprar um lançamento do Falcon 9 depois de 2028.
Durante muitos anos, fabricantes de satélites presumiram que a SpaceX ofereceria lançamentos com o Starship a seus clientes da mesma forma que faz com o Falcon 9. Agora, essa possibilidade parece menos certa. A empresa é verticalmente integrada: fabrica e opera os satélites Starlink, dos quais mais de 11 mil estão ativos em órbita. O Starship é fundamental para a expansão da Starlink —e também para colocar em órbita os muitos milhares de satélites de centros de dados da “Starmind” que a SpaceX planeja para seus negócios de inteligência artificial. Essas demandas podem deixar nenhum Starship disponível para outras atividades, pelo menos durante algum tempo. Ao fazer as contas, não fica claro onde os demais clientes se encaixariam, afirma Potter. E a SpaceX não estaria abrindo mão de muita coisa. Seu negócio de lançamentos respondeu por apenas 8% da receita de US$ 12,5 bilhões registrada nos seis meses encerrados em 30 de junho; o restante veio da Starlink e dos negócios de inteligência artificial.
A possibilidade de que a SpaceX passe a reservar seus foguetes para uso próprio provocou consternação entre operadores de satélites —mas entusiasmo entre as concorrentes da empresa. Em uma teleconferência sobre resultados financeiros realizada em 10 de setembro, Giulio Ranzo, executivo-chefe da Avio, empresa italiana que fabrica o Vega-C, um foguete de porte relativamente pequeno, afirmou: “Temos uma série de clientes vindo até nós e dizendo: ‘Meu Deus, vocês podem nos levar ao espaço? Porque a SpaceX não nos dá mais a oportunidade de lançar’”.
A aposentadoria do Falcon 9 também significaria o fim das operações da espaçonave Dragon, da SpaceX. Isso deixaria a Boeing como a única empresa capaz de transportar astronautas até a Estação Espacial Internacional, por meio de sua problemática e deficitária cápsula Starliner. Em 28 de setembro, a Nasa anunciou que havia contratado dois novos voos da Boeing e acrescentou que pagaria um valor adicional à empresa para ajudá-la a corrigir os problemas nos propulsores de manobra da Starliner, que já causaram dificuldades em voos anteriores.
Muitas empresas menores e mais ambiciosas também esperam aproveitar essa oportunidade. O primeiro voo do foguete Neutron, da Rocket Lab, cuja capacidade supera metade da do Falcon 9, está previsto para o fim deste ano ou o início do próximo. A Relativity Space, uma startup atualmente financiada por Eric Schmidt, ex-executivo-chefe do Google, está desenvolvendo o Terran R, um foguete próprio com dimensões semelhantes às do Falcon 9. A Blue Origin, de Jeff Bezos, também pode se tornar uma concorrente relevante, embora tenha sofrido um revés grave em maio, quando a explosão de um foguete destruiu sua única plataforma de lançamento. Henry também menciona a Firefly Aerospace, uma empresa americana, e a Isar Aerospace, uma companhia europeia que alcançou a órbita pela primeira vez em 5 de setembro, como outros nomes frequentemente citados no setor.
A SpaceX acumula anos de experiência e centenas de voos realizados, enquanto todas as novas concorrentes ainda precisam comprovar suas capacidades. Potter observa, porém, que, nos últimos meses, talvez em antecipação à disputa que se aproxima, as apresentações comerciais das empresas de foguetes passaram a enfatizar tanto a capacidade de fabricação e a escalabilidade quanto as características técnicas dos veículos. Se o gigante que domina o mercado realmente abandonar esse segmento, deixará uma quantidade considerável de oportunidades valiosas para as demais empresas disputarem.
noticia por : UOL
