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Governo de Israel busca apoio da ultradireita da Europa apesar de legado antissemita

Diante de seu crescente isolamento no cenário internacional, Israel está estreitando laços com a ultradireita da Europa apesar do legado antissemita de alguns partidos.

Em resposta às críticas à condução da guerra na Faixa de Gaza, o governo de Binyamin Netanyahu acusa seus críticos de alimentar o ódio contra os judeus ao mesmo tempo em que adota um tom bastante conciliador com os líderes políticos que o apoiam.

Após as revelações do site francês Mediapart sobre escritos antissemitas atribuídos a Jordan Bardella, presidente do partido de ultradireita Reunião Nacional, o ministro israelense encarregado do Combate ao Antissemitismo saiu em sua defesa.

Bardella, apontado como possível primeiro-ministro em caso de vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais da França de 2027, “é uma das vozes mais claras da Europa contra o Hamas“, escreveu Amichai Chikli na rede social X.

Ele lembrou que o francês visitou os locais onde ocorreu o ataque de 7 de outubro de 2023, perpetrado por terroristas palestinos e que desencadeou o devastador conflito em Gaza.

O governo de Netanyahu, um dos mais à direita desde a criação do Estado de Israel, em 1948, também iniciou a normalização de suas relações na Áustria com o Partido da Liberdade (FPÖ), fundado por ex-nazistas.

Autoridades israelenses também têm cortejado líderes da ultradireita na Suécia, na Espanha e no Reino Unido, em nome de preocupações comuns com o islã e a imigração.

O governo israelense fez também uma importante guinada em sua postura diplomática na América Latina após a eleição de líderes pró-Israel da direita radical na Argentina e na Colômbia.

Apenas a extrema direita alemã e seu partido AfD permanecem, por enquanto, à margem dessa mudança estratégica.

Segundo Jeremy Issacharoff, embaixador de Israel em Berlim de 2017 a 2022, os partidos europeus de ultradireita tentam obter “uma espécie de certificado kosher” —termo hebraico usado para alimentos considerados “aptos” segundo a lei judaica— e, assim, distanciar-se de seu passado antissemita, que continua sendo um legado tóxico aos olhos do eleitorado moderado.

“Entendo perfeitamente o benefício que podem tirar disso. Mas, para Israel, não vejo nada além de um ataque a seus valores e à sua reputação no cenário internacional”, acrescentou Issacharoff à agência de notícias AFP.

Na opinião dele, Israel deveria avaliar primeiro o impacto desse apoio sobre as comunidades judaicas dos países em questão, especialmente na França e na Áustria.

No Reino Unido, alguns líderes judeus ficaram consternados com a visita do ativista de extrema direita Tommy Robinson a Jerusalém, onde suas posições anti-islâmicas foram aplaudidas.

As autoridades israelenses também vêm empregando uma linguagem cada vez menos diplomática em relação aos líderes ocidentais que criticam o país.

O ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, pediu recentemente ao líder do partido britânico de ultradireita Reform UK que manifestasse sua oposição às sanções impostas pelo governo trabalhista aos produtos importados dos assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada.

Alguns ministros também fizeram comentários depreciativos sobre o chanceler britânico, Ed Miliband, filho de refugiados judeus e defensor das sanções.

Segundo Azriel Bermant, pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais de Praga, a aproximação de Netanyahu com a ultradireita também tem como objetivo impedir a formação de um consenso europeu contra seu país.

Ele cita como exemplo os vínculos estabelecidos entre Netanyahu e o ex-líder húngaro Viktor Orbán, até a derrota eleitoral deste último em abril.

Durante anos, o ex-primeiro-ministro da Hungria apoiou firmemente Israel e bloqueou medidas da União Europeia contra Tel Aviv ao mesmo tempo em que recorria reiteradamente a estereótipos antissemitas contra o magnata e filantropo americano George Soros, nascido em uma família judaica húngara.

O pesquisador espera que a postura de Israel mude caso a coalizão de Netanyahu perca as eleições legislativas de 27 de outubro.

Embora seja verdade que seus adversários provavelmente não romperão relações com figuras como Marine Le Pen, que podem chegar ao poder, eles não associarão Israel à ultradireita, avaliou.

Em entrevista à AFP, um ex-embaixador de Israel na Europa afirmou que o Estado judeu deveria demonstrar mais pragmatismo e moderação diante de figuras controversas.

“Um dia, esses governos voltarão a passar da direita para a esquerda, ou vice-versa. E, se você se aliou à ultradireita, acaba sendo rotulado de determinada maneira”, advertiu, sob condição de anonimato.

noticia por : UOL

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