Como é a gestão do irmão de Gilmar Mendes na prefeitura de Diamantino, em Mato Grosso

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Prefeito de Diamantino, em Mato Grosso, Francisco Ferreira Mendes Junior — conhecido como Chico Mendes — reúne características que fazem seu nome chamar atenção para além dos limites do município.

Ele é irmão mais novo do ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), pertence a uma família tradicional da política local, atua como empresário e produtor rural e voltou ao comando da prefeitura em 2025, depois de 16 anos fora do cargo. Na eleição de 2024, foi escolhido prefeito pelo União Brasil com apoio do PL e do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A combinação é politicamente incomum. Enquanto Gilmar Mendes é um dos ministros do STF mais criticados por setores bolsonaristas, seu irmão recebeu apoio direto de Bolsonaro na disputa municipal.

Diamantino

Diamantino é uma das cidades mais antigas de Mato Grosso. O núcleo que deu origem ao município começou a se formar em 1728, no contexto das expedições bandeirantes estimuladas pela descoberta de ouro em Cuiabá. Em 1823, chegou a figurar entre as principais localidades cogitadas no debate sobre a nova capital de Mato Grosso, mas Cuiabá acabou escolhida.

Ao longo do tempo, a antiga cidade mineradora passou a se inserir em outra fronteira econômica: a do agronegócio. A economia local é hoje marcada pela produção agropecuária em uma região conectada a municípios estratégicos como Nova Mutum, Campo Novo do Parecis e Sorriso.

Esse peso econômico ajuda a moldar a política local, e temas como infraestrutura, logística, desenvolvimento urbano e interlocução com o setor produtivo tendem a ter relevância central nas disputas municipais.

Histórico político

Chico Mendes nasceu em 1967, em Diamantino. Cresceu no município, formou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (MG) e construiu carreira como empresário e produtor rural.

Na eleição de 2024, o político chamou atenção pelo patrimônio declarado. De acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o prefeito informou possuir R$ 56,4 milhões em bens. Entre os bens declarados, estavam fazenda, imóveis, veículos e empresas ligadas à agropecuária e à manutenção de máquinas.

A ligação com a política local é parte de sua história familiar. Chico é filho de Francisco Ferreira Mendes, que foi prefeito de Diamantino por duas gestões (1967-1972 e 1975-1979). Ele próprio já havia governado a cidade entre 2001 e 2008. Agora, retornou ao cargo depois de um intervalo de 16 anos.

Somados os mandatos do pai, Francisco Ferreira Mendes, e do filho, Chico Mendes, a família Mendes esteve diretamente à frente da Prefeitura de Diamantino por cerca de duas décadas. Com o retorno de Chico ao cargo em 2025, esse período poderá chegar a cerca de 23 anos ao fim do atual mandato.

Além dos períodos em que a família ocupou diretamente o comando do Executivo municipal, o grupo também manteve influência por meio de aliados. O principal exemplo é Juviano Lincoln, candidato apoiado por Chico Mendes em 2008, após seu segundo mandato.

Naquele ano, Juviano perdeu a eleição para Erival Capistrano, do PDT, mas assumiu a prefeitura depois que o vencedor foi cassado pela Justiça Eleitoral cerca de três meses após a posse, sob acusação de irregularidades na prestação de contas de campanha.

O caso abriu uma disputa judicial que marcou o mandato: Capistrano foi cassado e reconduzido ao cargo mais de uma vez, enquanto Juviano ocupou a prefeitura em parte do período. Depois, Juviano foi reeleito em 2012, governando Diamantino no ciclo seguinte.

Assim, considerando os mandatos diretos da família Mendes e os períodos de governos apoiados pelo grupo, o sobrenome manteve presença relevante na política municipal durante parte expressiva da história recente de Diamantino.

Influência no Judiciário

A influência da família Mendes não se restringe a Diamantino e aos irmãos Gilmar e Chico Mendes. O sobrenome aparece há décadas associado à política local e ao Judiciário. O desembargador Joaquim Pereira Ferreira Mendes, que presidiu o Tribunal de Justiça de Mato Grosso no início do século 20, é bisavô de Chico e Gilmar Mendes e antepassado de uma série de magistrados da família.

Um levantamento publicado pelo site Congresso em Foco em 2009 listava, além de Gilmar Mendes no STF, outros integrantes da família em carreiras jurídicas: Milton Ferreira Mendes e Mário Ferreira Mendes no Tribunal de Justiça de Mato Grosso; Élcio Sabo Mendes e Élcio Sabo Mendes Junior no Judiciário do Acre; Ítalo Ferreira Mendes no Tribunal Regional Federal; Joazil Maria Gardés no TJ do Distrito Federal; Yale Sabo Mendes e Francisco Alexandre Ferreira Mendes na magistratura mato-grossense; além de Djalma Sabo Mendes Junior, então defensor público-geral de Mato Grosso, e Djalma Sabo Mendes, procurador do Estado aposentado.

Apoio de Bolsonaro

Em abril de 2024, durante uma passagem por Mato Grosso, Jair Bolsonaro esteve em Diamantino e participou de uma agenda ao lado de Chico Mendes, então pré-candidato à prefeitura pelo União Brasil. No evento, Chico afirmou que a visita do ex-presidente “entrou para a história” da cidade.

A cena chamou atenção pelo contraste político: enquanto Gilmar Mendes é alvo frequente de críticas de setores bolsonaristas, seu irmão aparecia publicamente ao lado de Bolsonaro em um ato de pré-campanha no interior mato-grossense.

O apoio não se limitou ao gesto público. O PL, partido de Bolsonaro, destinou R$ 300 mil à campanha de Chico Mendes. A composição eleitoral também incluiu a indicação do vice, Antonio do Carol, filiado ao PL.

Assim, a candidatura do irmão de Gilmar Mendes reuniu, em uma disputa municipal, elementos de interesse nacional: o peso político da família Mendes em Diamantino, a aproximação com o bolsonarismo e o apoio financeiro de um partido que, no plano federal, mantém relação de tensão com ministros do STF.

Atuação discreta

Apesar do apoio da direita, Chico Mendes não aparece, em seus canais oficiais e no material institucional da prefeitura, como um político de discurso ideológico nacionalizado. Sua apresentação pública é mais associada à gestão municipal e ao desenvolvimento local, com foco no agronegócio, saúde, educação e infraestrutura.

Diamantino é um município de pequeno porte populacional, e a escala municipal ajuda a explicar por que a gestão de Chico Mendes parece se organizar menos em torno de debates nacionais e mais de temas administrativos típicos da política local.

A relação com governos de diferentes campos políticos aparece como um traço da gestão. Eleito com apoio de políticos e partidos da direita, Chico também participou, em Brasília, do Encontro de Novos Prefeitos e Prefeitas, promovido pelo governo federal por meio da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.

A presença em agendas federais não indica, por si só, apoio político do PT à gestão, mas revela uma atuação institucional em busca de interlocução com a União.

O perfil político da gestão, porém, não se resume às entregas administrativas. Para adversários, o sobrenome Mendes é um fator relevante na política de Diamantino. A oposição eleitoral mais recente foi representada por Kan, do Novo, que tentou disputar o espaço da renovação contra um candidato associado a uma família tradicional e com trânsito político.

Na leitura de aliados, esse capital político significaria experiência e capacidade de articulação. Para críticos, poderia representar a continuidade de um grupo familiar influente no município.

Questões com a Justiça

A trajetória de Chico Mendes também inclui questionamentos administrativos e judiciais, em sua maioria ligados a gestões anteriores. Em 2009, o Tribunal de Contas de Mato Grosso multou o então ex-prefeito após análise das contas de 2008, aprovadas com ressalvas.

O Ministério Público de Mato Grosso também registrou a anulação, pelo Tribunal de Justiça, de um concurso para agente comunitário de saúde aberto pelo município em 2008, além de uma liminar de 2015 que determinou a indisponibilidade de bens de Chico Mendes em uma ação envolvendo o uso de recursos públicos na contratação de umshow artístico para a Expodiamantino de 2007.

Já na gestão atual, veículos locais noticiaram questionamentos do Ministério Público contra uma lei municipal, sancionada em 2025, que elevou verbas indenizatórias de vereadores e diárias de secretários municipais e do prefeito.

Político pragmático

Chico Mendes emerge, nesse contexto, como um político de perfil mais pragmático do que ideológico. Embora tenha voltado à prefeitura com apoio do PL e de Jair Bolsonaro, sua atuação pública até aqui não se apresenta como extensão direta do bolsonarismo nem como contraponto programático ao governo federal.

O que aparece com mais força é a lógica da política local: uma família tradicional, ligada ao agro e ao Judiciário, que mantém presença prolongada em Diamantino e capacidade de articulação com diferentes grupos de poder.

A reportagem da Gazeta do Povo procurou a Prefeitura de Diamantino para comentar o perfil político da gestão e outros temas citados no texto, mas não obteve retorno até a conclusão desta matéria.

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noticia por : Gazeta do Povo