Com celular, faculdade tem cara de escola, com aluno sem foco e professor implorando atenção

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Aconteceu em uma das principais faculdades do país: a professora tentava explicar uma atividade, mas os alunos estavam quase todos no celular. Ela pediu meia horinha de atenção. Nada. Só 20 minutos então? Nada. Implorou por 10… Teve que apelar: ameaçou tirar o aparelho de quem não prestasse a atenção. Uma aluna se levantou: “Quem disse que você pode tirar o nosso celular?”

Embates como esse, típicos das escolas de ensino fundamental e médio até a proibição dos celulares, passaram a ser vistos nas faculdades. A cena foi relatada à Folha por uma ex-professora da ESPM de SP. A docente, que pediu para não ser identificada, contou que acabou desistindo de dar aulas na graduação, cansada de ter que disputar a atenção dos alunos com os smartphones. Embora situações mais críticas como essa não sejam as mais comuns, a batalha para conseguir a atenção dos universitários é do dia a dia. E há casos em que os docentes chegam a reter os aparelhos até o fim da aula, como relatou à Folha um aluno da FGV-SP.

Essa epidemia de distração está levando instituições de ensino superior das mais conceituadas do país a proibirem o uso de celular nas aulas –além da ESPM, o Insper determinou a proibição, e a FGV, em que os smartphones já são vetados por vários professores, deve tornar essa política oficial em breve.

Disseminado internacionalmente na educação básica, o banimento ganha espaço no ensino superior, e não só no Brasil. A proibição, em geral, tem partido dos professores, mas as instituições discutem o veto geral, e o advento da IA acelerou esse processo. Em alguns casos, como é o da ESPM e de professores da FGV, a restrição é também a tablets e notebooks (a ESPM disse aos alunos que é “altamente recomendável” fazer as anotações em caderno para exercitar elaboração mental e memória). O veto a dispositivos eletrônicos sempre tem como exceção a realização de atividades pedagógicas liberadas pelo docente.

Na Universidade Stanford, na Califórnia, alguns cursos proibiram os smartphones, tablets e notebooks. O mesmo na New York University, conforme contou à Folha o psicólogo Jonathan Haidt, professor da instituição e autor do best-seller “A Geração Ansiosa”, sobre os prejuízos da hiperconexão digital, obra considerada essencial para o banimento dos celulares nas escolas do Brasil e de outros países.

“Eu e muitos outros professores adotamos uma política ‘sem telas de qualquer tipo’ nas aulas”, disse, em entrevista no ano passado. “Não deixamos que os alunos usem computador nem para tomar notas. Descobrimos que, com o notebook aberto, ninguém consegue resistir a checar e-mail, mensagens, redes sociais, notícias, clima, fazer compras”, afirmou.

Há uma corrente que defende que a restrição pode interferir no desenvolvimento da autonomia do aluno. A faculdade Belavista (SP), por exemplo, afirmou que a proibição “não contribuiu no desenvolvimento da autogestão e maturidade”. Admitiu, contudo, que, embora a proibição generalizada pareça não fazer sentido, os professores têm liberdade para estabelecer “regras de convivência” nas aulas.

O debate sobre uma eventual “infantilização” dos universitários se colocou, e essa não é uma questão simples. Diante da saúde mental fragilizada dessa geração, o ensino superior se viu obrigado a adotar práticas antes restritas às escolas, como contratação de psicólogos, aproximação com os pais e realização de atividades e provas adaptadas, bem como a flexibilização de prazos (não somente para alunos de inclusão, mas para os que sofrem de depressão e ansiedade, por exemplo).

A dificuldade dos universitários na leitura, especialmente em textos mais longos e complexos, é um entrave relatado pelos docentes e constatado em pesquisas.

Estão nas carteiras das universidades agora os jovens atingidos pela pandemia em plena adolescência. Somente os ingressantes em 2025 e neste ano chegaram a pegar o banimento dos celulares nas escolas, e os mais velhos enfrentaram a pior fase, em que o uso nas salas de aula estava totalmente descontrolado.

Haidt contou que, em um de seus cursos para universitários, dá como tarefa “fazer um plano para se tornar mais inteligente, mais forte e mais sociável, para melhorar a vida”. “Insisto que o começo do projeto tem que ser a redução do tempo nas redes sociais. Não dá para fazer nada se passar quatro horas por dia no Instagram”, afirmou.

“Quando eles reduzem ou abandonam esse hábito, os resultados são milagrosos. Dizem: ‘Agora é fácil estudar, consigo terminar tudo em 1, 2 horas, e tenho tempo para sair com os amigos’”, relatou. “Os alunos ficam mais extrovertidos, menos ansiosos. Qualquer jovem adulto que retomar o controle da própria atenção fará enormes progressos, e essa é o lado otimista”, disse. “O pessimista é que é muito difícil que eles façam isso sozinhos. É complicado para um jovem adulto se desconectar das redes sociais, porque os amigos estão lá. Meu medo é que seja uma geração com menos conquistas.”

TRANSIÇÃO

Presidente do Insper, Guilherme Martins refutou a ideia de infantilização e disse que a restrição busca preservar o aprendizado em um ambiente marcado pelo excesso de estímulos e notificações. Defendeu que a transição do ensino médio para a universidade não garante maturidade automática, é um processo gradual de construção. “[O veto ao celular] É uma regra de transição. Ninguém vira adulto plenamente maduro de um mês para o outro”, disse à Folha.

Lembrou que a autonomia não se desenvolve na ausência de limites e que ambientes de alta performance combinam liberdade com regras claras. Comparou a política sobre celulares a outras normas institucionais, como punições para plágio, cola ou violência, aceitas como parte da formação.

Professor de educação de Stanford, Guilherme Lichand contou que, desde o ano passado, a escola de pós-graduação em negócios proíbe dispositivos eletrônicos nas aulas, o que está se espalhando por outras áreas neste ano. “Foi estranho no começo, porque antes todos acompanhavam as aulas com os notebooks e tablets. Mas ficou claro que isso levava à distração”, afirmou. “E a distração de um aluno acaba prejudicando todos, porque as aulas se baseiam na interação entre o grupo.”

Ele lembrou que o celular em aula, em um universo de polarização, costuma ser usado para gravações e postagens que geram atritos. “Isso desencoraja a troca de ideias. As pessoas, quando querem se posicionar, pensam que podem ser colocadas na rede fora de contexto. E isso em plena universidade, que deve ser o espaço para o aprendizado e para o debate, fora do massacre da internet.”

Colaborou Gustavo Gonçalves, de São Paulo

noticia por : UOL