'Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra', original e alucinante, é caso raro

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É difícil saber qual dos dois é o mais maluco. Matthew Robinson, que escreveu o roteiro? Gore Verbinski, que acreditou ser possível criar um bom filme com esse material? A verdade é que a dupla conseguiu montar um dos longas mais originais dos últimos tempos.

“Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” não é apenas uma história inventiva em ritmo alucinante. É um caso cada vez mais raro de um filme que prende a atenção durante todos os 134 minutos de exibição. É impossível prever a cena seguinte.

Sam Rockwell é um ator cult que deveria ser reverenciado como alguém que carrega filmes nas costas, sem reclamar. Aqui, ele é um homem do futuro, que entra numa lanchonete em Los Angeles para recrutar, entre as pessoas que estão lá dentro, uma equipe que o ajudará numa missão de salvar o mundo.

A princípio, todos pensam que ele está delirando, mas passam a prestar atenção nele quando percebem que, além de suas roupas de mendigo, tem envolvido no corpo o que ele afirma ser alguns explosivos.

Carregando na mão um detonador, que ameaça usar a qualquer momento, ele praticamente sequestra seis pessoas. É bom dizer que nenhuma delas parece ter o tipo heroico de alguém capaz de se dar bem numa missão para salvar a humanidade, mas, aos trancos e barrancos, o homem do futuro conduz seu time pela noite californiana.

Aí o filme entra em flashbacks recentes, mostrando como cada um dos escolhidos foi parar naquela lanchonete, naquela noite. E nessas recordações está o retrato de uma sociedade patética, em que todas as pessoas, notadamente os jovens, vivem com a cara enfiada na tela do celular o tempo todo. E é o tempo todo mesmo.

A trupe precisa chegar a uma casa no subúrbio, onde um garoto de nove anos estaria construindo uma inteligência artificial que, em pouco tempo, levará o mundo à destruição. No caminho, o grupo é perseguido por adolescentes robotizados, bandidos armados e monstros bizarros. No caminho, é possível perceber que existem ligações entre eles, até mesmo envolvendo o misterioso homem do futuro com os dias atuais.

O roteiro de Robinson mostra uma maestria incomum, espalhando na tela pistas para compreender o que será esse confronto com um suposto garoto prodígio que usa sua inventividade para o mal.

Os acontecimentos pregressos com os integrantes do bando do homem do futuro são tão criativos, engraçados e contundentes que cada um poderia render um filme separado. São ótimos roteiros de sci-fi.

Mas nada disso seria tão bom sem o diretor Gore Verbinski no comando do set. Não se trata de um gênio do cinema, mas de um artesão competente que soube dar uma assinatura a filmes de extremo sucesso, como a franquia “Piratas do Caribe”, o terror “O Chamado” e a animação de faroeste “Rango”.

Os dois filmes anteriores do diretor foram mal: “O Cavaleiro Solitário”, de 2013, adaptação do Zorro americano, desperdiçando Johnny Depp, e a “A Cura”, de 2016, um horror que não vai a lugar algum. Sem fazer nada nos últimos nove anos, Verbinski parece ter voltado com muitas ideias represadas. E com um bom elenco para dar vida a elas.

Sam Rockwell, como sempre, é um ator que beira o impecável. E ele puxa para cima duas atrizes muito à vontade em um filme tão alucinado. Juno Temple faz uma mulher que perdeu o filho num tiroteio em escola e aceitou receber um clone do garoto, com resultados esquisitos. Haley Lu Richardson faz uma atriz que anima festas infantis vestida de princesa. E ela tem uma doença inimaginável para os dias atuais —alergia à internet e wi-fi. Basta alguém manusear um celular perto dela que Ingrid começa a sangrar pelo nariz e passar mal.

“Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” tem tantas ideias misturadas que acaba derrapando na conclusão, que pode ser rejeitada por parte da plateia. Mas é impossível dizer que poucos minutos fracos estragaram as duas horas geniais que vieram antes. A tentativa frustrada de reviravolta no fim não impede o longa de ganhar a cotação máxima.

É um filme que deve ser visto e certamente irá seduzir muita gente. Além de ser, até agora, a sátira mais corrosiva que o cinema fez em relação à inteligência artificial.

noticia por : UOL