Brasília
Ao menos cinco grupos de empresas de origem estrangeira e nacional se articulam para marcar posição nos negócios de urânio e energia nuclear no Brasil, enquanto o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara novas regras para permitir parcerias privadas com a estatal que comanda a exploração do minério no país, a INB (Indústrias Nucleares do Brasil).
A Folha fez um levantamento a partir de dados da ANM (Agência Nacional de Mineração), empresas do setor e comunicados feitos pelas próprias companhias no exterior.
A movimentação inclui jogadas com uma parceria entre a estatal russa Rosatom e ex-dirigentes do governo Jair Bolsonaro, mineradoras australianas e uma companhia com operações nucleares nos Estados Unidos.

Maquinário para produção de pastilha de urânio na INB (Indústrias Nucleares do Brasil), em Resende (RJ)
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Ricardo Borges – 2.dez.16/Folhapress
Os projetos vão da pesquisa mineral à recuperação de urânio associado às terras raras, passando pelo desenvolvimento de pequenos reatores e participação na geração de eletricidade.
Hoje, a exploração do urânio é monopólio da União, exercido pela INB. Uma lei sancionada em dezembro de 2022 ampliou a possibilidade de parceria da estatal com empresas privadas, sem extinguir o monopólio. O setor espera um decreto federal que vai detalhar como os negócios poderão funcionar.
O levantamento identificou o grupo Diamante, a Atlas Critical Minerals, a Core Energy Minerals, a BRE (Brazilian Rare Earths) e a Energy Fuels. Há empresas avaliando áreas com potencial geológico e outras preparando testes industriais.
Dentro dessas empresas estão nomes que já comandaram a política energética. O grupo brasileiro Diamante reuniu dois ex-dirigentes do governo Bolsonaro para conduzir sua entrada no setor nuclear: Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia entre 2019 e 2022, e Ney Zanella dos Santos, que presidiu a estatal ENBPar, responsável pelo controle da INB e pela participação da União na Eletronuclear.
Bento preside o conselho e Zanella comanda a NBEPar (Núcleo Brasil Energia Participações), empresa criada pelo grupo em 2024 para organizar seus negócios nucleares. Por meio dela, a Diamante se associou à estatal russa Rosatom para formar a Nadina Minerals, que pretende desenvolver projetos de mineração no Brasil, incluindo urânio.
Em maio, Bento e Zanella visitaram uma unidade de produção de concentrado de urânio na Rússia. Estavam acompanhados de Pedro Kassab, vice-presidente da Diamante e sobrinho de Gilberto Kassab, presidente do PSD.
O grupo pretende trazer ao Brasil uma tecnologia que recupera o urânio com soluções químicas injetadas nos depósitos subterrâneos.
A aposta também inclui a geração de eletricidade. Por meio da Terminus, empresa que passou a controlar em 2025, o grupo Diamante desenvolve um microrreator nuclear, com apoio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), universidades e instituições de pesquisa.
A Atlas Critical Minerals é mais uma que corre por trás. Constituída nas Ilhas Marshall, com sede operacional em Belo Horizonte e ações negociadas na Nasdaq, a companhia declarou em fevereiro ser dona de uma carteira de 39 processos minerários com potencial de urânio, somando 143,7 mil hectares.
Essas áreas estavam registradas para outros minerais, como terras raras, cobre, grafita e fosfato. A intenção é expressa pela própria Atlas, em comunicado internacional.
“Antecipando potenciais mudanças legislativas no Brasil nos próximos anos, estamos avaliando estrategicamente áreas com potencial de urânio”, diz a empresa.
A australiana Core Energy Minerals possui três projetos voltados ao minério nuclear. Estão localizados em Amorinópolis (GO), São José (PB) e Grande (RS). A companhia já anunciou ter cerca de 320 km² no projeto goiano e 364,5 km² no gaúcho.
A empresa tem feito reconhecimento geológico, coleta de amostras e medições de radioatividade no Brasil.
Outra australiana, a BRE (Brazilian Rare Earths), quer aproveitar urânio encontrado junto às terras raras de seu projeto Monte Alto, na região de Ubaíra e Jiquiriçá, na Bahia, com processamento em Camaçari.
Seu plano é produzir “yellowcake”, um concentrado de urânio que ainda precisa passar por outras etapas para virar combustível nuclear.
Em setembro, a companhia informou, por meio de comunicado internacional, que a segunda etapa da planta piloto, prevista para o segundo trimestre de 2027, vai incluir testes de recuperação do material.
Seu estudo preliminar projeta uma média de 466 toneladas anuais de concentrado de urânio, chegando a 540 toneladas anuais nos primeiros cinco anos de produção estável.

Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira defende abertura de exploração para parcerias com empresas
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Gabriela Biló – 15.out.25/Folhapress
A BRE afirma em seus ofícios que o negócio ainda depende das exigências brasileiras e de entendimentos comerciais com a INB.
A Bahia também está nos planos da Energy Fuels, companhia canadense e com operações nucleares nos Estados Unidos. A empresa deu início ao seu Projeto Bahia em 2023 e declarou, em comunicado financeiro, que seu interesse principal é explorar monazita contendo terras raras e urânio.
No mercado, especula-se sobre a entrada dos irmãos Joesley e Wesley Batista no setor. A família anunciou, em outubro de 2025, um contrato de R$ 535 milhões para adquirir a participação da Eletrobras na Eletronuclear, responsável pelas usinas de Angra 1, Angra 2 e pelo projeto de Angra 3.
Joesley esteve, inclusive, em visita à planta da INB, em Caetité (BA), para conhecer como funciona o único local que hoje explora urânio no país. Eles negam, porém, interesse em exploração mineral. A operação é conduzida pelo family office Globe Investimentos.
Cada um desses projetos privados mira hoje uma cadeia na qual o Brasil ainda depende de serviços externos. A INB extrai urânio em Caetité e produz um concentrado, mas contrata no exterior sua conversão em gás e parte do enriquecimento, etapa que aumenta a proporção do componente usado para gerar energia nos reatores das usinas de Angra dos Reis (RJ).
O Brasil já faz enriquecimento em Resende (RJ), mas sem capacidade para atender toda a demanda. Depois do processamento externo, o material retorna ao país para ser transformado pela INB em pó, pastilhas e conjuntos de combustível destinados a Angra.
Cada uma das empresas nacionais e estrangeiras citadas nesta reportagem foi procurada para comentar o assunto. A maior parte não se manifestou.
A canadense Energy Fuels disse que seu Projeto Bahia é uma “pesquisa de areias minerais pesadas em estágio inicial” e que, caso avance, “ocorrerá somente com as autorizações necessárias e em plena conformidade com a legislação brasileira”.
A BRE declarou que os volumes de produção informados “referem-se à futura operação integrada, não à capacidade da planta-piloto nem à produção atual”.
Segundo a empresa, o segundo trimestre de 2027 foi o prazo indicativo divulgado para comissionamento da segunda etapa da planta-piloto.
“Trata-se de uma previsão daquele comunicado, sujeita ao desenvolvimento dos trabalhos, e não como início de produção comercial”, disse a empresa.
Sobre parceria com a INB, a BRE declarou que, em maio de 2024, assinou um “memorando de entendimento não vinculante para colaboração no desenvolvimento de potenciais coprodutos de urânio” no país.
“Esse instrumento não equivale a contrato definitivo de venda ou autorização para produção comercial”, declarou.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, vem anunciando uma reformulação do setor. Em outubro de 2025, afirmou que pretendia apresentar uma nova política durante o terceiro mandato de Lula e discutir o modelo com a sociedade em 2026. Não aconteceu.
Em fevereiro deste ano, o MME informou à Folha que o decreto das parcerias privadas estava em fase final e seria encaminhado à Casa Civil naquela semana. Em agosto, a proposta ainda era descrita como objeto de discussão entre as áreas técnicas do governo. Em nova nota, a pasta reiterou que o assunto segue em análise.
À Folha, a Casa Civil da Presidência da República declarou que “a proposta relacionada ao setor de urânio segue em discussão entre áreas técnicas do governo, em articulação com o MME, no contexto desse debate mais amplo”.
Segundo a pasta, “medidas dessa natureza envolvem coordenação entre órgãos do governo e avaliação de aspectos regulatórios, econômicos e estratégicos do setor nuclear”.
A INB afirmou que vem desenvolvendo, em parceria com a ENBPar e o BNDES, o Programa Pró-Urânio, que busca criar modelos de negócios para ampliar as oportunidades no aproveitamento sustentável do urânio e de minerais estratégicos associados no Brasil.
Em agosto, afirmou, o BNDES selecionou o consórcio responsável pelos estudos que vão orientar esses modelos de parceria. A previsão é que as propostas sejam apresentadas até o segundo trimestre de 2027.
O BNDES confirmou o prazo para análise de estudos e apresentação da modelagem. “Após essa etapa, ENBPar e INB definirão o modelo compatível com seu planejamento e poderão fazer o lançamento do processo de seleção dos parceiros privados, com suporte do BNDES”, declarou o banco.
Hoje, a INB já tem uma parceria com a empresa Galvani, por meio da Fosnor, para explorar a jazida de Itataia, em Santa Quitéria, no Ceará. Trata-se, porém, de uma operação casada. O projeto prevê aproveitar dois minerais encontrados juntos, o fosfato, destinado à produção de fertilizantes pela empresa privada, e o urânio, que ficará com a estatal para a fabricação de combustível nuclear.
O empreendimento ainda depende do licenciamento e não produz comercialmente. A previsão da INB é obter 2.300 toneladas de concentrado de urânio por ano, além de 1,05 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados e 220 mil toneladas de fosfato.
QUEM MIRA O NEGÓCIO DE URÂNIO NO BRASIL
Diamante / NBEPar
Origem: Brasil
Parceira: Uranium One, da estatal russa Rosatom
Empresas: Nadina Minerals e Terminus
Nomes: Bento Albuquerque, ex-ministro de Bolsonaro; Ney Zanella, ex-presidente da estatal ENBPar
Planos: mineração de urânio e desenvolvimento de microrreatores
Atlas Critical Minerals
Constituição: Ilhas Marshall
Sede operacional: Belo Horizonte
Ações: Nasdaq, nos Estados Unidos
Subsidiária: Mineração Apollo
Carteira: 39 processos com potencial de urânio
Área declarada: 143,7 mil hectares
Core Energy Minerals
Origem: Austrália
Subsidiária: Mineração Remo
Projetos de urânio: Goiás, Paraíba e Rio Grande do Sul
Planos: pesquisa de áreas com potencial do minério
BRE (Brazilian Rare Earths)
Origem: Austrália
Projeto: Monte Alto e processamento em Camaçari, na Bahia
Plano: recuperar urânio associado às terras raras
Projeção: 466 toneladas anuais de concentrado de urânio
Testes da segunda etapa da planta piloto: previstos para 2027
Energy Fuels
Constituição: Canadá
Sede: Colorado, Estados Unidos
Projeto: Bahia
Plano divulgado: usar monazita brasileira e associados, como terras raras e urânio
Fonte: ANM, empresas, balanços financeiros e comunicados ao mercado





