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domingo, outubro 18, 2026
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Derretimento dos Alpes revela esqui, estatueta e pontas de flecha milenares

Os Alpes estão perdendo gelo mais rapidamente do que quase qualquer outro lugar do planeta. E, à medida que desaparecem, as geleiras e placas de gelo revelam segredos que ficaram ocultos por milênios.

Segredos como um enigmático esqui de 2.500 anos, que há pouco tempo emergiu, com o derretimento, de uma faixa de gelo suíço em vias de desaparecer.

Em uma manhã recente, o arqueólogo Romain Andenmatten, 42, contemplou sua descoberta. Ao explorar os escassos vestígios de gelo em um desfiladeiro chamado Col de Barberine, ele avistou uma tábua de madeira acinzentada de cerca de 90 centímetros de comprimento, depositada entre rochas na borda do gelo.

Três anos atrás, no mesmo ponto, Andenmatten encontrou uma prancha semelhante, também com uma extremidade afilada, o que indicava se tratar de um esqui ou uma raquete de neve. A datação por carbono revelou que ela era do século 5º a.C., quando, em um determinado dia da Idade do Ferro, seu dono talvez estivesse atravessando os Alpes e tenha perdido o equilíbrio.

Agora, o arqueólogo se perguntava se teria encontrado a outra peça do par. Seria o mais recente item de um acervo crescente de ferramentas, vestimentas e restos mortais humanos que arqueólogos vêm recuperando do gelo cada vez mais reduzido dos Alpes.

Após um inverno de pouca neve e um verão de ondas de calor escaldantes, este foi mais um ano devastador para as geleiras da Suíça. Elas perderam quase 20% de seu volume nos últimos cinco anos, afirmaram cientistas neste mês. No ritmo atual do aquecimento global, 97% das geleiras hoje existentes nos Alpes poderão desaparecer até o fim do século, impondo grandes desafios às dezenas de milhões de europeus para os quais o gelo é uma reserva vital de água em anos de seca.

Em grande parte do mundo, são sobretudo objetos de pedra, metal e cerâmica que sobreviveram desde a Antiguidade. Não nos Alpes, onde o gelo preservou materiais orgânicos —couro, madeira, tecidos, partes de corpos— capazes de contar uma história mais rica e humana sobre o passado.

“A Idade da Pedra não foi, na verdade, uma era apenas de pedra”, afirmou a arqueóloga Regula Gubler, de Berna. “A maior parte do que as pessoas usavam e vestiam era feita de materiais orgânicos.” Encontrar os calçados de couro que protegiam os pés e os cestos de casca de tília trançada que levavam para as montanhas “é algo muito especial”, segundo ela.

Os objetos que emergiram do gelo da Suíça vão do cotidiano ao fascinante.

Um fragmento de uma tigela de madeira de olmo do quinto milênio a.C., muito anterior às pirâmides do Egito e a Stonehenge. Uma aljava de casca de bétula com duas pontas de flecha de sílex guardadas dentro, datada de cerca de 2800 a.C. Uma estatueta de 60 centímetros de comprimento, esculpida em madeira de lariço, com uma figura humana em uma extremidade e uma ponta afiada na outra, dos dois últimos séculos a.C., cuja finalidade é desconhecida.

Descobertas como essas estão pondo em xeque antigas concepções sobre a forma como as primeiras sociedades interagiam com o ambiente alpino. Longe de serem áreas inóspitas e inacessíveis, as passagens geladas das montanhas aparentemente fervilhavam de movimento: caçadores, pastores, comerciantes transportando barris de vinho em mulas.

“Os Alpes sempre foram utilizados; não eram um espaço vazio”, afirmou Gubler.

Evidentemente, as populações antigas tampouco se limitavam às rotas mais fáceis. Seus caminhos preferidos entre os vales parecem ter sido os mais curtos, independentemente da inclinação ou da altitude.

Há um senso de urgência no trabalho dos arqueólogos. Uma vez descongelados e expostos, os materiais orgânicos se decompõem rapidamente ou são levados por caçadores de tesouros particulares. Em 2024, a polícia e as autoridades arqueológicas do cantão de Valais apreenderam uma coleção de 11 mil artefatos, entre os quais moedas, ferramentas e objetos decorativos que remontavam à Idade do Bronze, e interrogaram um homem por usar um detector de metais para recolhê-los sem autorização.

Arqueólogos no Valais estão ampliando ao máximo sua capacidade de observação em campo com um aplicativo que desenvolveram, o IceWatcher. Qualquer pessoa —caminhantes, pastores, coletores de cristais— pode usá-lo para relatar possíveis achados nas montanhas.

Foi por meio do IceWatcher que o arqueólogo Andenmatten, do governo cantonal do Valais, soube, em 2024, da existência de alguns fragmentos de madeira em uma área de gelo. Ele subiu a pé até uma passagem chamada Restipass e recolheu algumas peças, que mais tarde datou da Idade do Bronze, o que indica que talvez tenham 3.000 anos. Algumas podem ter sido estacas fincadas no gelo para demarcar caminhos para viajantes e alertar sobre fendas. Outras talvez fossem partes de um trenó ou restos de lenha.

Neste ano, ele e um colega, David Gucker, voltaram ao local para ver o que as temperaturas escaldantes deste ano haviam revelado. Eles subiram de carro por estradas sinuosas e caminharam por duas horas por meio de prados alpinos cada vez mais íngremes. Por fim, escalaram até o desfiladeiro e levaram um susto: o gelo praticamente havia desaparecido. Quando Andenmatten esteve ali, dois anos antes, ele cobria como um tapete a encosta onde estavam. Agora, mal passava de um pequeno tapete de gelo, de onde escorriam filetes de água.

Às vezes, o gelo nesses desfiladeiros pode encolher visivelmente ao longo de um único dia de trabalho de campo, segundo Andenmatten. “No passado, as mudanças climáticas talvez se desenrolassem ao longo de várias gerações ou de toda uma vida. Hoje, nós as vivenciamos quase dia após dia.”

Ele e Gucker vasculharam o cascalho e as pedras. Estavam bem acima da linha das árvores, portanto qualquer madeira ali só poderia ter sido levada por seres humanos. A questão era quando: cinco anos atrás ou 5.000?

Andenmatten saltava de uma pedra para outra, como uma cabra-montês, quando algo chamou sua atenção: dois pedaços finos de madeira, com bordas lisas e retas. Delicados anéis de crescimento os atravessavam como as camadas folhadas de um mil-folhas.

Andenmatten virou os pedaços de um lado para o outro. Não era óbvio que se encaixariam. Mas, milagrosamente, encaixaram-se e, com isso, deixaram de ser fragmentos inertes para se transformar em um utensílio, algo moldado por mãos humanas. “É muito bonita, esta peça”, afirmou, antes de guardá-la em um saco plástico.

noticia por : UOL

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