Por que seus snacks estão com pedaços maiores e mais mastigáveis do que antes

0


The Economist

|The Economist
Observe os novos snacks que as pessoas estão escolhendo nos supermercados e talvez você perceba uma tendência. A Mondelez, uma gigante do setor alimentício, oferece uma barra de chocolate Dairy Milk recheada com os crocantes biscoitos Lotus Biscoff. Já a Mars, sua concorrente, tem os Skittles Gummy Crystals, que acrescentam minúsculos pedaços estaladiços a balas mastigáveis, e a versão “Extra Crunchy” de seus populares biscoitos salgados Cheez-It. Ao que parece, a textura é o novo sabor.

Há muito tempo, as grandes empresas alimentícias planejam cada aspecto dos snacks para torná-los irresistíveis, desde as cores vivas das embalagens até o aroma que escapa quando elas são abertas. Mas a forte ênfase na textura é algo novo. Ela abrange tanto o som produzido ao comer um produto quanto o que o setor chama de “sensação na boca”. A Mintel, empresa de pesquisa, estima que a parcela de snacks que destacavam atributos de textura tenha subido de 31% em 2023 para 41% no ano passado. Entre eles, “crocante” foi a descrição mais popular, embora “mastigável” e “cremoso” estejam ganhando espaço rapidamente.

Esteira transporta filetes de alimentos processados em ambiente industrial. Funcionário com jaleco branco e touca caminha ao lado da linha de produção em fábrica limpa e iluminada.

Produção de Biscoff, fabricado pela indústria belga Lotus Bakeries

–
Divulgação Biscoff

Criar texturas pode ser difícil. Norberto Chaclin, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Mondelez, ressalta que misturar ingredientes crocantes e macios é complicado. A água migra dos componentes úmidos para os secos, deixando encharcado o que deveria ser crocante. Veja o Dairy Milk Biscoff. Ele foi cuidadosamente desenvolvido com uma cobertura de chocolate ao leite para impedir a entrada de umidade e uma camada de creme Biscoff à base de gordura junto aos farelos de biscoito, a fim de preservar sua crocância. A barra passou por longos testes para garantir que sua textura se mantivesse durante todo o prazo de validade.

Essas complexidades talvez expliquem por que os fabricantes de alimentos enfrentam dificuldades para acompanhar o interesse do público. Ao monitorar conversas nas redes sociais, a Mintel estima que, nos Estados Unidos, a demanda por snacks que oferecem “prazer por meio da textura” tenha saltado 28% nos dois anos até abril. A oferta, medida pelo volume de vendas de snacks com texturas marcantes, cresceu apenas 8%.

O que está alimentando essa fome por textura? Uma explicação é a ascensão dos medicamentos emagrecedores à base de GLP-1, que reduziram o apetite dos pacientes. Isso significa que, quando procuram um snack, eles primeiro se perguntam: “Vale a pena?”, observa Andrew Wardlaw, da empresa de pesquisa MMR. Um impacto sensorial maior, que envolva som e sensação além do sabor, reforça o “espetáculo do produto” e torna o ato de beliscar mais atraente.

Outro fator são as redes sociais. Jovens consumidores ficam vidrados em vídeos curtos nos quais influenciadores mastigam alimentos com o volume aumentado. As marcas perceberam isso e passaram a produzir anúncios destinados a provocar ASMR (resposta sensorial meridiana autônoma), a sensação de formigamento e relaxamento que algumas pessoas experimentam com esse tipo de conteúdo. Publicações marcadas com “crunchtok” acumularam mais de 1,5 bilhão de visualizações no ano passado.

A indústria alimentícia, por sua vez, vê a textura como a última forma de diferenciação ainda disponível. Wardlaw considera que os snacks chegaram ao “ápice” do sabor, com poucos sabores novos a explorar —sem entrar em terrenos pouco apetitosos. A maioria dos consumidores já experimentou chocolate em todo tipo de formato, de barras grandes ou pequenas a pacotes para compartilhar ou consumir sozinho. Para muitas pessoas, comer snacks tornou-se uma atividade cada vez mais automática, enquanto navegam pelas redes sociais ou maratonam uma série de televisão.

Rimi Obra-Ratwatte, nutricionista da Mondelez, compara a procura por snacks ricos em textura ao desejo de assistir a um filme em 3D. “Tudo passou a girar em torno de intensificar uma experiência”, explica. As gigantes da indústria alimentícia esperam que os consumidores não se cansem tão cedo dessa experiência. Caso contrário, poderão enfrentar um tipo diferente de aperto.

Texto de The Economist, traduzido por Ana Paula Branco, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

noticia por : UOL