Estive na Grécia para participar do Fórum da Democracia de Atenas —um encontro de especialistas e ativistas da democracia de todo o mundo—, por isso tenho refletido muito sobre o privilégio e a responsabilidade que acompanham a vida em uma democracia.
Todas as manhãs, eu tomava café no restaurante da cobertura do hotel, que tinha vista para o Partenon —o icônico templo grego construído no século 5 a.C., no auge democrático ateniense. E, todas as manhãs, o atendente me perguntava: “O senhor tem alguma alergia?”. E, em todas as vezes, eu mordia a língua para não responder.
“Bem, já que perguntou, tenho duas alergias —mas são políticas, não do meu corpo. Tenho alergia ao ativismo performático das redes sociais, do tipo: ‘Ei, publiquei no Facebook a condenação de Israel feita pela minha estrela pop favorita, então me deixa em paz’”, eu pensava. “Mas também tenho alergia à falta de ativismo quando sua própria democracia está em jogo, do tipo: ‘Ei, meu escritório de advocacia faz muitos negócios com o governo federal; tivemos de fazer um acordo com Trump’”.
O que me levou a refletir seriamente sobre minhas alergias políticas foram as conversas com dois velhos amigos do Oriente Médio. Ambos correram enormes riscos pessoais para dizer verdades difíceis e lutar pelo direito de votar em eleições livres e justas.
Por isso, ficam indignados ao ver tantos americanos cruzarem os braços diante da maior ameaça à nossa democracia em toda a minha vida: a disposição do presidente Donald Trump de violar as regras para se manter no poder.
Uma dessas corajosas ativistas da democracia é Tawakkul Karman, a primeira iemenita e a primeira mulher árabe a ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Ela recebeu o prêmio por sua liderança não violenta nos protestos da Primavera Árabe no Iêmen, que reivindicavam democracia, direitos das mulheres e liberdade de expressão.
Karman desempenhou um papel de liderança no levante pacífico de 2011 que levou à queda de Ali Abdullah Saleh, o ditador que governou o Iêmen do Norte a partir de 1978 e o Iêmen unificado de 1990 a 2012.
Ela me disse, durante um café no fórum (realizado em associação com o The New York Times), que ficou chocada ao ver com que facilidade escritórios de advocacia, universidades e até algumas empresas de comunicação americanas se curvaram às exigências políticas de Trump sem oferecer resistência.
“Para mim”, disse Karman, “como alguém que se opôs a uma ditadura, que sabe como uma ditadura funciona e do que precisávamos para libertar nosso país dela, tudo começa quando o chefe de Estado controla a imprensa, acusa a imprensa de mentir e tira sua credibilidade —e, em seguida, não respeita o Estado de Direito, enquanto as instituições trabalham apenas em benefício dele e de sua família.”
O estopim da revolução democrática iemenita ocorreu quando Saleh “colocou o filho e a família nas instituições mais importantes”, acrescentou Karman. “Ele atacou o Judiciário e o esvaziou de suas funções. Escapou de toda responsabilização graças à imunidade e interferiu no trabalho do Parlamento e das instituições legítimas. E agora estou vendo tudo isso nos Estados Unidos. O que é isso?”
O mais perigoso em uma democracia, disse ela, é quando você começa a se perguntar: “‘Se eu fizer isso, o que vai acontecer comigo? O que o líder fará comigo?’. Seja você jornalista, estudante ou professor, você passa a questionar a si mesmo”. É isso que o ditador quer —”espalhar o medo”, disse ela. “E, quando todos se policiam antes de fazer ou dizer algo, essa é a forma usada pelo ditador para controlar a narrativa.”
Karman e eu nos conhecemos em 2013 na capital, Sanaa. Quando fui acompanhar o amplo diálogo nacional do país, novos partidos, jovens, mulheres, islamistas, tribos, nortistas e sulistas participaram, todos com o objetivo de redigir uma nova Constituição e realizar eleições presidenciais.
O processo desmoronou quando o movimento houthi tomou a cidade, em setembro de 2014. Os houthis, um grupo xiita sediado no norte do Iêmen, eram apoiados pelo Irã e aliados às forças leais a Saleh. A tomada do poder pelos houthis mergulhou o Iêmen em uma guerra civil catastrófica da qual o país ainda não conseguiu escapar.
Hoje, Karman viaja pelo mundo promovendo a democracia por meio de sua fundação, enquanto trabalha diariamente com seus seguidores no Iêmen para tentar recuperar a democracia do país das garras do Irã.
“O que precisamos do mundo é que ele se coloque ao lado do povo iemenita e enfrente o projeto iraniano de controlar o estreito de Bab el-Mandeb por meio da milícia houthi”, disse ela. “Se o Irã conseguir controlar o estreito, além da influência que já exerce sobre Hormuz, as consequências para a segurança mundial poderão ser ainda mais perigosas do que Teerã possuir uma bomba nuclear.”
“Esta é a batalha do Iêmen por liberdade, democracia e soberania, mas também é a batalha do mundo pela paz, pela segurança e pela liberdade do comércio global.”, afirma.
Enquanto eu estava em Atenas, um ativista palestino da democracia de Jerusalém Oriental, Samer Sinijlawi, entrou em contato comigo para fazer um alerta semelhante. Sinijlawi lidera o Masar Jadid (Novo Caminho), um dos muitos novos partidos que disputam cadeiras nas eleições para o Conselho Legislativo Palestino —as primeiras desde janeiro de 2006.
Sim, pessoal, três grandes eleições estão chegando e moldarão toda a região: a de Israel, em 27 de outubro; a dos Estados Unidos, em 3 de novembro; e as primeiras eleições legislativas da Autoridade Palestina em duas décadas, marcadas para 28 de novembro.
Infelizmente, há forças próximas à liderança da Autoridade Palestina pressionando para que essas eleições sejam novamente adiadas. Sinijlawi pediu que eu dissesse ao mundo: “Não deixem isso acontecer”. (Pelo menos sete partidos apresentaram listas de candidatos às 132 cadeiras do conselho.)
É muito revigorante conversar com alguém como Sinijlawi. Ele entende que, não importa quantas manifestações sejam realizadas na Europa ou nos Estados Unidos para “Libertar a Palestina”, a única coisa capaz de fazê-lo é a existência de um governo e de um Legislativo palestinos legítimos e livremente eleitos, prontos e aptos a atuar como parceiros em uma solução de dois Estados.
O adiamento recorrente das eleições legislativas palestinas na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental “reforçou o argumento do Hamas de que a mudança jamais poderia ser alcançada por meios democráticos ou pacíficos”, escreveu Sinijlawi em um artigo publicado no The Jerusalem Post, no qual instava Trump a apoiar as eleições palestinas.
Segundo ele, seu partido vem conquistando o apoio de eleitores palestinos registrados —mulheres e estudantes, profissionais, acadêmicos, empreendedores e pessoas que ingressam na vida política pela primeira vez, até mesmo jovens palestinos que vivem em tendas.
“Apoiamos um Estado palestino desmilitarizado, a integração econômica regional e uma solução negociada de dois Estados que proporcione liberdade e dignidade aos palestinos e, ao mesmo tempo, garanta segurança aos israelenses”, escreveu Sinijlawi. ” Quando as urnas se fecham, os extremistas oferecem outras urnas —cheias de armas, funerais e falsas promessas.”
“Nós, palestinos, continuamos negando os vínculos históricos dos judeus com esta terra”, disse-me ele. “Em vez disso, precisamos deixar de perguntar quem pertence ou não a esta terra e passar a perguntar como nós dois pertencemos a ela.”
Esse é um ponto que Sinijlawi e eu temos em comum há muito tempo: há mais de 7 milhões de judeus e mais de 7 milhões de palestinos vivendo entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo —e nenhum dos dois povos vai embora. A única solução são dois Estados, não importa quanto tempo isso leve.
E quem melhor entende a força dessa lógica é o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Por que vocês acham que, durante a maior parte de seu período no poder, ele estabeleceu como prioridade máxima fortalecer o Hamas em Gaza?
Ele queria mantê-lo separado dos palestinos moderados que aceitaram os Acordos de Paz de Oslo.
Netanyahu sabe o que aconteceria se surgisse uma liderança palestina unificada, legítima e não corrupta —um chefe que tivesse aprendido com os erros do passado. O mundo inteiro insistiria para que Tel Aviv negociasse com ela uma solução de dois Estados. Isso não acontecerá amanhã, mas continuarei dando destaque a todas as vozes que a defendem. A alternativa é uma guerra eterna.
O que admiro em Karman e Sinijlawi é que eles sabem sair do Facebook e encarar as pessoas frente a frente —lutar de fato pela democracia, em vez de apenas disparar slogans, que substituem o pensamento e a ação. Antigamente, nós, nos EUA, éramos assim. Costumávamos servir de exemplo para o mundo.
Se já houve um momento para recuperar esse espírito, é agora. Isso começa com o voto em 3 de novembro, em nossa eleição, e com o incentivo para que outros também votem —em qualquer candidato que coloque a lealdade às nossas instituições democráticas acima da lealdade a uma única pessoa.
noticia por : UOL



