“Tinha sido esposa de um só homem, tinha pago sua dívida aos pais, tinha governado santamente a sua casa, tinha o testemunho das boas obras, tinha criado seus filhos partindo-os tantas vezes quantas os via afastar-se de ti”. Assim Santo Agostinho de Hipona (de quem hoje se celebra a memória litúrgica) descreve sua mãe, Santa Mônica, em seu texto mais famoso, as Confissões. Palavras que delineiam uma mulher já santa em vida.
Mônica e Agostinho, uma mãe e um filho: assim se poderia simplesmente ler a história deles. Mas tratou-se de uma relação certamente diferente das outras: “entrou em jogo”, de fato, algo maior, mais alto, mais profundo. Mas é preciso ir por partes. Antes de tudo, é necessário compreender o meio no qual Agostinho cresceu. É ele mesmo quem escreve, sempre nas Confissões, o livro que tomaremos como “guia” para contar a relação deles. E para explicá-la pode-se e deve-se partir de Cristo, daquele nome transmitido diretamente pela voz da mãe: “Aquele nome, por tua misericórdia, Senhor, aquele nome do meu Salvador, do teu Filho, meu coração ainda tenro havia devotamente sugado no próprio leite da mãe e o conservava em seu íntimo”. Imagem poética, forte, profunda.
Um dado, porém, deve ser destacado. Um dado que pareceria, em um primeiro momento, representar uma lacuna na educação dada por Mônica: estamos falando daquele “famoso” batismo não realizado. Por que Agostinho não é batizado imediatamente? Para esta pergunta há uma resposta “histórica”: na Igreja de Tagaste havia o costume de tornar o recém-nascido catecúmeno, mas para o sacramento do batismo devia-se esperar que o mesmo estivesse na idade adulta. Agostinho, a esse respeito, no entanto, nos conta em suas páginas autobiográficas sobre um batismo “interior” que, de qualquer forma, havia recebido. Obviamente, graças à educação cristã da mãe: “Ouvira falar desde menino da vida eterna, que nos foi prometida mediante a humildade do Senhor nosso Deus, que desceu até a nossa soberba; e já estava assinalado com o sinal da sua cruz, já temperado com o seu sal desde o dia em que saí do ventre de minha mãe”. Assinalado com o sinal da cruz: mais uma vez usa uma imagem profunda para narrar sua relação com Deus. Sabemos bem que o sacramento do batismo lhe foi, depois, ministrado muito mais tarde: na noite entre 24 e 25 de abril de 387 em Milão, por Santo Ambrósio, inclusive, outra figura-chave do seu retorno à fé cristã.
É sabido que no processo de retorno à fé, a mãe foi fundamental instrumento de Deus. Também neste caso devemos recorrer novamente às Confissões. Um trecho, em particular, nos indica bem a hipérbole deste processo interior. Devemos, antes de tudo, remontar ao período em que ele vivia na casa paterna. Às origens: “Então eu me tornara crente, como minha mãe e toda a casa, exceto apenas meu pai. Este, porém, não prevaleceu no meu coração sobre os direitos do amor materno a ponto de me tirar a fé em Cristo, fé que ele então não tinha. Ela se empenhava para fazer de ti, meu Deus, o meu pai em seu lugar, e tu a ajudavas a prevalecer sobre o marido, a quem também servia, embora fosse melhor que ele, porque também nisso servia a ti, cumprindo o teu mandamento”. Deste trecho, portanto, compreende-se desde logo a relação que o futuro bispo de Hipona teve com a mãe. O pai parece ter uma relevância certamente “secundária”, não compartilhando com os dois a fé cristã. A frase-chave é: “Ela se empenhava para fazer de ti, meu Deus, o meu pai em seu lugar”. Agostinho tinha, portanto, já um pai: um Pai nos céus, graças justamente à educação da santa. Por “dever de ofício”, o marido, Patrício, graças à oração da esposa Mônica, converteu-se também ele ao cristianismo, um ano antes de morrer.
Mas mesmo tendo vivido em tanto fervor cristão, Agostinho deixou o cristianismo para se converter a outra fé, longe da mãe, quando se encontrava em Cartago para frequentar o terceiro ano de retórica. Foi justamente ali que entrou em contato com um livro, hoje perdido: era o Hortensius de Marco Túpio Cícero, considerado magister eloquentiae. E foi justamente essa eloquência que conduziu o jovem Agostinho para os rumos de um materialismo, de um racionalismo que se tornaram terreno fértil para que o maniqueísmo entrasse em seu ânimo. Agostinho, a partir deste momento, viveu a ruptura com a mãe, provocando uma ferida lacerante no coração da santa. Neste itinerário de afastamento, houve cidades que poderiam ser consideradas verdadeiras “etapas” de uma perseguição que a mãe continuou com tenacidade. A primeira cidade foi Cartago. Depois na Itália, Milão. Também aqui Mônica alcançou o filho: diante desta “perseguição”, encontramo-nos perante o sentido da maternidade de Mônica. Nela, dupla: biológica e espiritual.
A última imagem que nos é presenteada por Santo Agostinho sobre a relação deles é de uma avassaladora força poética. O “cenário” é Óstia, localidade litorânea perto de Roma. Agostinho já havia voltado novamente para o ventre da mãe, para o ventre do cristianismo. Entre os dois ocorreu um diálogo que o santo bispo de Hipona registra em suas páginas biográficas. Faz-se referência àquela que todos conhecemos como o famoso “êxtase de Mônica”. Agostinho escreve estas palavras que podem ser definidas como o testamento da santa: “Meu filho, quanto a mim, esta vida já não tem mais nenhuma atração. O que faço ainda aqui e por que estou aqui, eu ignoro. Minhas esperanças na terra já estão satisfeitas. Uma única coisa havia que me fazia desejar permanecer um pouco mais por aqui: ver-te cristão católico antes de morrer. O meu Deus me satisfez amplamente, pois vejo que inclusive desprezas a felicidade terrena para servi-lo. O que faço aqui?”. Mônica era santa agora no Paraíso. E no mundo deixava um novo servo do Senhor, um futuro santo e doutor da Igreja, Agostinho.
© 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permissão. Original em italiano: Usa: meno woke, meno crimini. Gli effetti benefici del riflussoSant’Agostino, un figlio “inseguito” dalla fede della madre
noticia por : Gazeta do Povo




