Tóquio, 16 de julho de 1988. Uma explosão silenciosa engole a cidade e ilumina a telona. A data da primeira cena do filme “Akira” era também a ocasião do seu lançamento nas salas do Japão.
Na ficção, aquele é o marco zero de uma Terceira Guerra Mundial, cujas ruínas seriam a base para Neo Tóquio, a metrópole distópica onde se passa a trama, em 2019. No mundo real, abria-se ali um novo capítulo da animação japonesa.
“Akira” não foi o primeiro sucesso da era de ouro da animação japonesa, já marcada por “Dragon Ball” e pelo Studio Ghibli, fundado três anos antes, mas sua abordagem adulta e técnica abriu o Ocidente ao gênero.
Violento, denso, científico e místico, distanciava-se da pegada infantil de “Astro Boy” e “Speed Racer” —para citar desenhos exibidos na TV brasileira nos anos 1960— e se aproximava de obras como “Túmulo dos Vagalumes”, “Gen – Pés Descalços” e “Angel’s Egg”, emocionalmente fortes e experimentais.
O filme impressionou o mercado americano, que ampliou as importações para TV a cabo e vídeo, e ajudou a espalhar o universo “otaku” por aqui.
A produção agora está de volta às telonas, nos 35 anos de sua estreia no Brasil, quando a Sato Company trouxe este que foi o primeiro anime exibido comercialmente em salas do país. À época, somou cerca de 250 mil espectadores.
Agora a distribuidora traz uma cópia remasterizada em 4K, de altíssima definição, que dá a ver os três anos e o 1 bilhão de ienes, cerca de R$ 32 milhões, investidos nesta empreitada que surfou no “boom” econômico do Japão.
Quase quatro décadas depois, o filme persiste como um grande exercício de virtuosismo, por vezes agradando mais pelo seu balé visual do que propriamente pelo primor de seu enredo.
Os feitos técnicos impressionam —foram mais de 160 mil quadros pintados à mão em celuloide, o dobro das produções de então, garantindo fluidez nos movimentos, cenas em câmera lenta e outras com mais de uma dezena de personagens na tela.
Não bastasse, a equipe apostou no difícil processo de pré-sonorização. Os diálogos foram gravados primeiro, permitindo que os animadores desenhassem perfeitamente a sincronia labial e traduzissem a expressividade dos atores-dubladores.
Mas hoje mesmo os maiores fãs reconhecem as fragilidades da trama, tendo em vista o mangá. Originalmente publicado em quadrinhos a partir de 1982, “Akira” entrou em produção quando Katsuhiro Otomo, cineasta e autor da história original, ainda estava na metade da publicação.
O interesse em levar o gibi para os cinemas era tamanho que sete gigantes de diferentes setores —como a editora Kodansha, a fabricante de brinquedos Bandai, a distribuidora Toho e outros— se uniram num consórcio, o Akira Committee, disposto a bancar a empreitada, com controle criativo total para Otomo.
A HQ só seria encerrada dois anos após o lançamento do filme, e suas mais de 2.000 páginas tiveram de ser enxugadas para um storyboard com cerca de 700.
Tudo parte dos amigos de infância Kaneda —marrento, mas de bom coração— e Tetsuo —com um incurável complexo de inferioridade—, parceiros numa gangue de motoqueiros. Liderado pelo primeiro, dono de um invejável possante vermelho, esse grupo de delinquentes passa as noites barbarizando por bares e pelas ruas de Neo Tóquio.
É numa dessas que os encontramos nos frenéticos primeiros minutos do filme, uma apresentação de mundo mais centrada na ação do que nos diálogos. Vistas panorâmicas da cidade, tomada por lixo, criminalidade, neons e hologramas no melhor estilo “Blade Runner”, dão à cidade aspecto de coisa viva.
É um cenário no qual elementos tipicamente japoneses, como o xintoísmo, se mesclam a um capitalismo exacerbado, embalado por uma trilha que reflete esses contrastes, cruzando sintetizadores, coral e um tipo de percussão do sudeste asiático. Os anti-heróis não passam de uma célula nesse fluxo sanguíneo de luzes e concreto.
O acaso joga contra eles quando acabam cruzando com uma disputa entre terroristas políticos e um grupo de militares a cargo de um projeto secreto com crianças psíquicas.
O contato de Tetsuo com uma dessas figuras —de porte infantil, mas aparência idosa— manifestará nele também uma força, que se alimentará de seus tormentos íntimos até transformá-lo num monstro apocalíptico. Tudo, pouco a pouco, vai nos encaminhando para Akira, ser quase impalpável ao longo do filme.
O retrato do personagem-título, um misterioso garotinho, é um ponto de clivagem nas duas versões da história. O longa não abarca, por exemplo, o extenso segundo ato do gibi. A obra foi publicada no Brasil pela Globo nos anos 1990, em edições coloridas no formato americano, e depois pela JBC em preto e branco e no correto sentido de leitura oriental.
Encarnação do insólito, Akira encapsula o trauma japonês com os ciclos de morte —como se toda Tóquio ou Neo Tóquio fosse sempre uma ruína potencial. Mas, tanto no filme como no mangá, há algo de épico ao ver o leque de personagens se abrir gradualmente.
O protagonismo vai se diluindo entre vários núcleos, sem ignorar a rivalidade entre Kaneda e Tetsuo. Tomarão caminhos diferentes, sim. Mas, enquanto um prefere sumir, o outro será desses que insistem na vida.
noticia por : UOL



