SÉRGIO GOUVEIA
No dia 8 de novembro, um domingo, às 13h30, milhões de estudantes vão abrir o caderno do primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Nele estarão a Redação, 45 questões de Ciências Humanas e 45 de Linguagens, a área pela qual o exame escolhe começar. Faltam menos de três meses. E, se a rotina de estudos da maioria dos candidatos continuar como está, muita gente vai chegar a esse domingo sem ter estudado de forma adequada para a prova mais decisiva do jogo.
Sei disso porque vejo de perto, há mais de vinte anos, a rotina dos alunos do Ensino Médio e dos cursinhos. A maioria deles diz ou pensa: “Linguagens? É só interpretação. Não tem o que estudar.” E lá vão eles dedicar todas as horas da semana a Matemática e a Ciências da Natureza, certos de que, no primeiro domingo da prova, para ter um bom resultado em Linguagens, basta ler com atenção.
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Os microdados do Enem 2025, divulgados pelo INEP, mostram o tamanho do engano. De quase 3,5 milhões de participantes, 82,71% não passaram de 29 acertos nas 45 questões. E apenas 85 candidatos — sim, apenas 85 entre os 3.457.555 enemzeiros — gabaritaram a prova. Se Linguagens fosse mesmo “só interpretação”, uma prova que “não tem o que estudar”, esses números seriam outros.
O engano tem explicação, e ela não está na preguiça de ninguém: está no material. O que se ensina nas aulas de Português é o que os vestibulares tradicionais pedem: classificar uma oração como “Subordinada Substantiva Completiva Nominal Reduzida de Infinitivo”, decorar as características das escolas literárias — quase sempre parando na década de 1950 —, distinguir dígrafo de ditongo… Aí o Enem cobra uma habilidade aplicada a uma canção, a uma tirinha ou a um poema publicado há cinco anos, e o candidato pensa: “Poxa, não estudei isso.” Não estudou mesmo, pois ninguém ensinou.
A escola ensina por matéria; o Enem cobra por habilidade. A prova de Linguagens é construída sobre uma lista pública de 30 habilidades, a Matriz de Referência, publicada pelo MEC, e cada questão nasce de uma delas. A habilidade 17, por exemplo, pede que o candidato reconheça “valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional”. Traduzindo: não é decorar o Barroco; é perceber o que um texto de trezentos anos e um de cinco dizem, ambos, sobre nós. Quem nunca leu a Matriz nem estudou conforme o que ela pede não sabe o que o ENEM vai cobrar. Por isso, acha que é tudo interpretação, que não vale a pena estudar para a prova de Linguagens.
Mas, atenção: conhecer as 30 habilidades é só o primeiro passo, necessário e insuficiente. Habilidade tem uma característica que a difere de conteúdo: conteúdo se aprende; habilidade, além de se aprender, também se treina; é a prática que determina a proficiência na habilidade. Ninguém aprende a nadar apenas lendo um manual da natação; da mesma forma, ninguém desenvolve uma habilidade apenas sabendo a definição dela. O treino se faz com exercícios: resolvendo questões oficiais de provas passadas e identificando, em cada uma delas, qual habilidade está sendo cobrada e por qual motivo a alternativa correta responde ao que o descritor pede. É essa prática, repetida, orientada, consciente, que aumenta o número de acertos e a nota da TRI dos enemzeiros.
A falta de informação e de preparo para a prova de Linguagens custa caro. Das cinco notas que compõem a média do candidato no Sisu, no Prouni e no Fies, duas são de linguagem: a da prova objetiva da área e a da Redação. É justamente em Linguagens e em Redação que eles se distanciam dos demais; nas outras áreas, as notas dos concorrentes são muito parecidas. Quem quer aumentar suas chances de vaga e de bolsa precisa parar de tratar a prova que decide como a prova que “não tem o que estudar”.
O relógio está correndo: 8 de novembro chega rápido. Ainda dá tempo de conhecer a Matriz, identificar as habilidades e treiná-las, questão a questão. O primeiro domingo do ENEM é o das Linguagens. Ainda é possível chegar nele tendo treinado para a prova certa.
Sérgio Gouveia é professor de Linguagens há mais de 20 anos, graduado pela USP e mestre pela Unesp. Sócio-fundador da escola Ágora e criador do curso HABES, construído sobre a classificação de questões oficiais do Enem por habilidade e parâmetros da TRI, dedica-se ao ensino das competências avaliadas pelo exame nas provas de Linguagens e de Redação.
FONTE : ReporterMT





