Compra-se o livro, arranca-se a lombada, as folhas soltas passam por um scanner de alta velocidade e o que sobra segue para a reciclagem. Repetido alguns milhões de vezes, o processo produz o combustível de uma inteligência artificial. Para ensinar as máquinas a manejar a linguagem, a indústria da IA passou a comprar e destruir em escala os livros que guardam essa linguagem, e um juiz federal americano decidiu que a prática é uso legítimo, o fair use da lei de direitos autorais.
A revelação veio de documentos internos da Anthropic, criadora do assistente Claude, abertos num processo por direitos autorais e noticiados pelo Washington Post. Um deles descrevia o Projeto Panamá como o esforço da empresa para digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo. Outro trazia uma frase que diz muito sobre o incômodo da própria companhia com o que fazia: “Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso.”
A operação era grande e metódica. Sob o comando de Tom Turvey, ex-executivo do Google Books, a Anthropic comprou milhões de livros usados no mercado comum, de preferência anteriores a 2022, quando ainda não circulava em massa texto gerado por máquina, capaz de contaminar o treinamento. Livreiros começaram a notar o padrão: pedidos enormes, sobre qualquer assunto, sem a menor sensibilidade a preço. A destruição das obras físicas faz parte do processo de digitalização porque o método tradicional era mais trabalhoso e lento.
A bênção do juiz
O caso judicial que expôs tudo, Bartz contra Anthropic, terminou com uma vitória parcial para a empresa. Em 2025, o juiz William Alsup decidiu que comprar, escanear e destruir um livro adquirido de forma legal, para treinar um modelo, é uso transformador e, portanto, uso legítimo. O raciocínio foi curioso: como a cópia digital apenas substituía a física, que era destruída, não havia duplicação nem redistribuição, e uma coisa tomava o lugar da outra.
Há uma ironia perversa nesse argumento, apontada por analistas de política tecnológica. Pela lógica do tribunal, guardar o exemplar de papel depois de escaneá-lo poderia enfraquecer a defesa, o que cria o incentivo esquisito de destruí-lo. A preservação vira risco jurídico.
A parte que a Anthropic de fato perdeu foi outra. Antes de comprar livros, a empresa havia baixado cerca de sete milhões de obras piratas de bibliotecas clandestinas para treinar o Claude. Por isso, e não pela trituração, fechou um acordo de 1,5 bilhão de dólares com os autores, um dos maiores já vistos em disputas sobre dados de treinamento de IA.
O medo dos livreiros
A reação de quem vive dos livros foi de horror. Um livreiro holandês chamou a prática de “uma espécie de barbárie”. Na imprensa e nas redes, choveram comparações com a queima da Biblioteca de Alexandria e com as fogueiras de Fahrenheit 451. Bibliotecários e preservacionistas lembraram que um livro não é só o seu texto: primeira edição, anotações à mão, dedicatórias e encadernação carregam um valor histórico que nenhum scanner captura. Destruído o último exemplar de um título esgotado, o objeto se perde para sempre, ainda que o conteúdo sobreviva em arquivo.
Há também o que a digitalização não devolve. O Google Books, que nos anos 2000 também escaneou milhões de obras, ao menos gerou um índice público, pesquisável por qualquer pessoa. O acervo que a Anthropic montou é privado e trancado, inacessível a leitores, bibliotecas e aos próprios autores.
A defesa da empresa de IA
A Anthropic contesta boa parte dessa leitura. Em nota, afirma que comprar livros para treinar modelos é prática comum em toda a indústria e que nenhum de seus programas “compra e destrói livros raros ou antiquários”, apenas exemplares de mercados comerciais correntes. Lembra ainda que a decisão de Alsup, que classificou o treinamento como uso legítimo, continua de pé, e que o barulho recente confunde a trituração com o acordo sobre os livros piratas, que é outra história.
A defesa tem pontos sólidos e um flanco. É verdade que a digitalização destrutiva não nasceu com a IA, que os exemplares comprados eram comuns e que o conteúdo não desaparece. Mas documentos do processo mostram um executivo da empresa escrevendo a um vendedor que “livros menos comuns são um ótimo ponto de partida”, e a companhia procurou também obras em outras línguas. Entre o livro menos comum que ela admite comprar e o livro raro que jura poupar, a fronteira é estreita, e é justamente ela que assusta os livreiros.
O que fica da discussão
No fundo, a discórdia é menos sobre a lei e mais sobre o que um livro é. Se for apenas um recipiente de informação, escanear e triturar não passa de uma troca de embalagem, e o ganho de espaço até compensa. Se for também um objeto, um elo material com quem o escreveu, imprimiu e leu antes, então cada lombada cortada apaga um pedaço de uma herança que não se refaz.
Há ainda uma diferença que a troca do papel pelo arquivo costuma esconder, a do acesso. O que está impresso não muda e não depende de ninguém para ser lido: basta abrir. O digital pode ser alterado ou tirado do ar, e o exemplar físico que o originou já não existe para servir de reserva. No limite, a conta mais concreta de todas é esta: um bom livro num sebo custa poucos reais e é seu para sempre, enquanto o acesso à inteligência que o consumiu se paga por assinatura, mês após mês.
A indústria que promete guardar todo o conhecimento humano está, para isso, desmontando os volumes em que esse conhecimento foi confiado ao papel. As máquinas aprenderam a escrever lendo tudo o que escrevemos. Falta saber o que faremos com o que elas deixaram para trás.
noticia por : Gazeta do Povo




