Lilia Cabral transforma luto em poesia em monólogo sobre Rita Lee

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O fole do acordeom está lá, no centro do palco do Teatro Faap, inflando e esvaziando num ritmo que parece o de uma respiração que teima em continuar. Na montagem de Beatriz Barros para “Rita Lee – Balada da Louca”, a falta de ar que silenciou a cantora transforma-se em matéria de poesia concreta. O que o corpo perdeu em fôlego, o instrumento devolve em som. Trata-se de uma escolha formal que define o tom do espetáculo, estruturado por Guilherme Samora, que não se rende à biografia convencional nem ao melodrama. Instala-se ali, firme, no território do ensaio cênico sobre a despedida.

Samora escreve o declínio sem concessões. O texto transita pelos dias confusos da pandemia, pela vacina que demorava, pelo exame de Covid-19 que trouxe um diagnóstico pior. Mas o prontuário médico não domina a cena, é subvertido por uma espécie de dignidade irônica. A personagem enfrenta a quimioterapia com o distanciamento de quem estuda o próprio organismo em decomposição, mantendo viva aquela inteligência ácida que sempre fez da vida particular combustível para a arte. Essa crônica do isolamento ganha uma camada extra de afeto com as bases de piano gravadas por Roberto de Carvalho em casa, que entram em off como uma moldura sonora e íntima.

Beatriz Barros dirige com mão leve, operando por subtração. O cenário de Pedro Levorin recria o sítio dos últimos anos de Rita Lee, mas sem o acúmulo de objetos que remetem à trajetória. Resta apenas o espaço limpo, quase uma tela vazia, iluminado com precisão por Ana Luzia Molinari de Simoni. É uma ambientação que aposta todas as fichas na palavra e no trabalho da atriz.

E que trabalho! Lilia Cabral retorna ao monólogo, depois de um longo autoexílio do gênero, com uma atuação de corte seco, sem permissões ao choro fácil ou ao gesto largo. Sua voz adota aquele tom baixo, sussurrado, tão característico de Rita Lee. A mesma voz que podia ser venenosa num instante e frágil no seguinte, sem que uma coisa anulasse a outra. O corpo acompanha essa dualidade, sustentado pelo figurino em azul diáfano de Walério Araujo.

O momento mais delicado da montagem vem no final. Quando Lilia deixa a persona de Rita para falar como ela mesma, a ilusão dramática se rompe. Mas essa fratura não é um deslize – é o próprio coração do espetáculo. O teatro se revela então como um ritual de luto coletivo, um espaço onde a plateia pode elaborar a ausência. Ao chorar as lágrimas que Rita escondia atrás do cinismo em suas memórias, Lilia expõe o artifício sem esvaziá-lo. Ela empresta o corpo para que outros possam sentir, e o palco se torna o lugar permitido para o espanto diante da perda.

Três perguntas para…

… Beatriz Barros

Como você ancorou temas tão densos (morte, envelhecimento, espiritualidade) sem perder a leveza, o humor e a ironia que marcam a escrita de Rita Lee?

A própria Rita nos ensinou o caminho ao escrever sobre a finitude sem abrir mão do humor. Essa convivência entre o trágico e o cômico foi a bússola da nossa encenação. Como pesquiso a adaptação da literatura para o teatro, busco a lógica de encenação que cada obra pede. No caso da Rita, entendemos que não fazia sentido tornar a narrativa excessivamente solene.

A força da escrita dela está em atravessar uma situação dolorosa e, logo em seguida, produzir um deslocamento pela ironia. Buscamos construir com a Lília esse relevo emocional, onde o riso não ameniza a dor, mas permite que ela seja vivida com mais humanidade. Preservar essa alternância era uma forma de preservar a própria voz da Rita.

Como surgiu a ideia do acordeom para simbolizar os pulmões de Rita, e como foi preparar Lilia Cabral para dar organicidade a esse gesto em cena?

Sabíamos que não queríamos um teatro ilustrativo, mas sim estimular a imaginação do espectador. Durante o processo de criação, eu, Sol Mennezes e Pedro Levorin investigamos a linguagem do espetáculo no Rio de Janeiro, movidos pelas ideias de Peter Brook de que a plateia completa o que a cena apenas sugere.

Estabelecemos que os objetos não precisariam cumprir sua função original; um instrumento poderia se transformar em um órgão do corpo ou em um estado de espírito, assumindo um delírio poético muito característico da Rita.

Foi dentro dessa pesquisa que a Lília trouxe um acordeom ao ensaio e propôs que o movimento de abrir e fechar representasse os pulmões da Rita. Vimos imediatamente a potência dessa metáfora simples, profundamente teatral e emocionante.

Qual foi o trabalho com Lilia Cabral para desconstruir seu registro vocal imponente e encontrar o tom sussurrado e confessional da personagem?

Mais do que encontrar uma voz, precisávamos encontrar uma intimidade. A partir da seleção de trechos do livro feita pelo Guilherme Samora, eu e a Lília construímos a dramaturgia em sala de ensaio. Meu trabalho era organizar a trajetória da personagem e a arquitetura da encenação, enquanto a Lília mergulhava na construção e trazia novas possibilidades diariamente.

Nunca pensamos em imitar a Rita, o desafio era encontrar uma presença cênica que preservasse sua inteligência, irreverência e vulnerabilidade. A voz sussurrada nasceu dessa pesquisa da intimidade, compartilhando um pensamento quase ao pé do ouvido do espectador.

Teatro Faap – Rua Alagoas, 903, Higienópolis, região oeste. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 17h. Até 9/8. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ingressos esgotados


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noticia por : UOL