Uma empresária que assinou contratos de R$ 185 milhões com o Ministério da Saúde em 2024 e 2025, por meio da distribuidora de medicamentos Star Pharma, mantinha relação direta e integrava a cúpula de empresas que são alvo de investigação sobre a inserção do crime organizado no setor de combustíveis.
O Ministério Público de São Paulo afirma, em documento obtido pela Folha, que Andrea Cristina Alves Borges era “laranja” à frente de empresas do grupo liderado por Roberto Leme, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Mourad, o Primo.
Andrea exerceu “funções de gerência” em uma rede de postos, segundo a investigação.
A Promotoria ainda localizou uma mensagem em que ela narra o plano de concentrar as transações de 56 empresas do grupo na conta de um único posto.
O movimento se deu após a primeira fase da operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, e serviu para evitar a “ruptura do fluxo de caixa” e ocultar as transações da rede de postos, diz ainda a Promotoria. A investigação mira ainda negócios do PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal.
A reportagem tenta contato desde março com Andrea por ligações, além de mensagens enviadas a dois telefones e por email, mas não recebeu respostas.
Em nota, a Star Pharma disse que Andrea integrou o quadro societário da empresa até novembro e que não conhece as atividades praticadas por ela fora da empresa. Também afirmou que repudia tentativas de vincular a Star Pharma a condutas “criminais, antiéticas e imorais”.
O documento que chama Andrea de “laranja” baseou a operação Fluxo Oculto, feita no fim de maio de 2026 como desdobramento da Carbono Oculto. O relatório não cita a Star Pharma nem atribui irregularidades à empresa e, até o momento, as ações policiais também não tiveram como foco empresas com contratos do SUS.
Com sede em Barueri (SP), a Star Pharma representa empresas estrangeiras em contratos com o SUS. Desde 2024, soma cerca de R$ 220 milhões em negócios com o Ministério da Saúde, especialmente para a venda de insulina.
A maior parte dos contratos foi assinada por Andrea em nome da empresa.
Em 27 de maio, um representante da Star Pharma, chamado Victor Duarte, acompanhou a chinesa Nanjing Pharmacare em reunião com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para tratar da venda de vacinas contra varicela e herpes-zóster.
Em nota, o Ministério da Saúde disse que a reunião foi solicitada pela Nanjing e não teve desdobramentos.
Como a Folha revelou, além de ter sido dona da Star Pharma, Andrea teve procurações para representar ao menos cinco empresas de diferentes ramos —formuladora e distribuidora de combustível, uma investidora e lojas de conveniência— que pertenciam a parentes ou a supostos laranjas do Primo.
Andrea ainda assumiu a sociedade de um motel e de uma administradora que foram transferidas a ela por uma irmã de Mourad.
Relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) obtidos pela Folha ainda citam a Star Pharma como beneficiária de recursos do fundo Mabruk II e do BK Bank, também investigados na Carbono Oculto.
A Promotoria cita mensagens de Andrea localizadas no celular de um contador do grupo investigado como prova de que ela atuou na reorganização financeira dos postos.
Segundo a Procuradoria, Andrea informou, em 4 de setembro, que o banco Ceopag havia encerrado a relação comercial com empresas por causa das investigações. Em áudio, ela apresentou ao contador a estratégia de abrir conta em nove fintechs e concentrar as movimentações em um único posto.
“Porque é um dos postos em que a gente tem um recolhe maior, e nós vamos centralizar o recolhimento de 56 postos nesse posto através da Sispay”, afirmou Andrea, em áudio transcrito pela investigação.
O contato dela foi salvo pelo contador como “Andreia GGX”, que é o nome de uma rede de postos que a investigação diz ser ligada a Primo.
O nome de Andrea ainda é registrado em um formulário de cadastro de um posto do grupo para abertura de conta de pagamento na Sispay, obtido pelo MP.
A Procuradoria afirma que Andrea esteve registrada entre funcionários de um dos postos do grupo de junho de 2020 a dezembro de 2023, quando já era a única sócia da Star Pharma.
Principais alvos das investigações, Beto Louco e Primo estão foragidos e tentam firmar delação premiada. Até agora, eles só fecharam acordo com o Ministério Público da Bahia.
Procurada, a defesa dos dois afirma que “é um grave erro a divulgação de que Roberto e Mohamad tenham relação com a facção criminosa PCC. Não existe nos autos qualquer elemento probatório que indique essa falsa vinculação”.
Os principais contratos da Star Pharma com o ministério estão ligados a um pregão vencido em 2024 para entrega de insulina. Na disputa, a farmacêutica Emanuela Medrades atuou pela Star Pharma e por uma concorrente, a Medicpharma, que tinha como sócio à época um advogado dela.
O edital vedava a participação de empresas com conexões ou a atuação em conluio. No ano passado, a Star Pharma e a Medicpharma negaram irregularidades e disseram à reportagem que não houve conluio na licitação.
O Ministério da Saúde afirma que a legislação não permite a análise de conduta de representantes, dirigentes ou acionistas de empresas licitantes.
Medrades assumiu a sociedade da Star Pharma após a saída de Andrea, em novembro. Ela atuava na empresa ao menos desde 2023.
A farmacêutica também depôs à CPI da Covid, em 2021, no caso envolvendo a venda da vacina indiana Covaxin ao governo de Jair Bolsonaro (PL) pela empresa Precisa Medicamentos, da qual era diretora.
Conversas obtidas pela Folha em uma ação judicial trabalhista envolvendo a Star Pharma mostram que havia desconfiança entre funcionários da empresa de que Andrea não era a dona de fato da empresa. Em trecho dos diálogos anexados à ação, Emanuela pede para uma subordinada fingir que conhecia Andrea.
noticia por : UOL




