Os Estados Unidos são o principal palco da Copa do Mundo de 2026, que começou na última quinta-feira (11). Mas um fato chama a atenção: é perceptível a falta de mobilização nacional dos americanos em prol da competição.
Entre as muitas razões, isso ocorre porque na terra do Tio Sam o futebol é outro, disputado com as mãos, uma bola oval e com contagem em jardas.
Isso não significa que o futebol como conhecemos não tem crescido no país — muito pelo contrário. Nos últimos anos, a modalidade tem ganhado cada vez mais investimento e tem buscado em atletas de renome como Lionel Messi, Luis Suárez e James Rodríguez uma forma de impulsionar o interesse do público e fomentar a liga nacional.
Além disso, a atual seleção americana é considerada uma das melhores do país no século e teve uma boa estreia na Copa ao vencer o Paraguai por 4 a 1.
Mas, ainda assim, o esporte carece de amplo apoio local e a falta de interesse dos americanos na Copa é apenas um sintoma.
“A Copa quase não existe por aqui”, diz brasileira que vive nos EUA
Se em 2014 o Brasil parou para sediar a competição de seleções mais importante do mundo, nos dias atuais, o que se nota nas ruas americanas é um país completamente “comum”. É o que relatam turistas e jornalistas de diferentes países que cobrem o torneio in loco.
A administradora Thaís Bentes, brasileira que vive no estado americano do Colorado, diz que “visualmente, a Copa quase não existe”. Ela detalha que os jogos só “passam em alguns bares” e que a reclamação que mais escuta dos americanos relacionada ao futebol é que o esporte “é parado demais”.
Essa reclamação não é incomum de se escutar entre os americanos: diferentemente do futebol, cuja partida pode ter um ritmo “monótono” e até terminar empatada em 0 a 0, os esportes mais populares dos Estados Unidos, como o futebol americano e o basquete, normalmente, têm mais ações decisivas.
Os jogos de basquete, por exemplo, costumam ter pontuações elásticas e, são disputados quase que a todo momento em uma dinâmica de ataque contra defesa. Um time atacava e, quando perde a bola, rapidamente o adversário já consegue iniciar uma nova jogada ofensiva.
Até esportes que se valem da mesma dinâmica que o futebol, como o hóquei no gelo, cujo objetivo é marcar o maior número de gols com o disco, apresentam um ritmo mais acelerado. A intensidade é tanta que a cada dois minutos os jogadores precisam ser substituídos — outra grande diferença em relação ao futebol de campo.
Nos esportes americanos as substituições podem ser feitas a qualquer momento do jogo e não há um número limite como no futebol. Essa rotatividade também preserva a intensidade do jogo e faz com que as “estrelas” dos times possam manter um melhor nível durante toda a partida.
Além disso, salvo raras exceções, dificilmente uma partida termina empatada. Nas principais modalidades americanas é comum o overtime, uma prorrogação para definir o vencedor de um jogo mesmo nas partidas não-eliminatórias.
A queixa de que o futebol é “parado demais” não é exclusiva dos americanos e a FIFA, a cada ano, tenta adaptar regras para que possa manter uma boa rotatividade do jogo.
Para a Copa desse ano, a entidade determinou um limite máximo de 5 segundos para cobranças de laterais e tiro de meta e de 10 segundos para o atleta deixar o campo ao ser anunciada a sua substituição.
Além disso, jogadores que se machucarem e precisarem de atendimento médico obrigatoriamente precisarão sair do campo e aguardar por um minuto fora do campo. Essa regra veio para inibir simulações de lesões, artifício usado por atletas para ganhar tempo em uma partida de futebol — prática amplamente combatida nos esportes americanos, já que, na maioria dos jogos, nessas situações, o cronômetro é parado, ou seja, não há ganho de tempo para a equipe que tenta retardar o andamento da partida.
Um relatório divulgado neste ano mostrou que, em jogos do Campeonato Brasileiro, dos 90 minutos regulamentares de uma partida, apenas 53% do tempo a bola estava efetivamente em jogo, e, nos 47%, o jogo ficou interrompido por paralisações.
Futebol nos EUA: entre barreiras culturais, Pelé e a falha em formar jogadores locais
Para além de parte dos americanos não gostarem da “dinâmica” do jogo, fatores culturais ajudam a entender a razão da modalidade nunca ter se desenvolvido no país como na Europa ou até mesmo na América Latina.
O futebol chegou aos Estados Unidos por meio de imigrantes europeus no fim do século XIX, e se espalhou por algumas cidades do país. Mas, o esporte praticamente desapareceu após o final da Segunda Guerra Mundial. No período da maior guerra do século passado, a Copa do Mundo foi uma das competições que tiveram suas edições interrompidas, não sendo realizada em 1942 e 1946.
O “esquecimento” do futebol nos Estados Unidos se estendeu até 1966, quando, pela primeira vez, a final da Copa do Mundo foi transmitida na televisão via satélite, pela NBC.
Com o ineditismo da transmissão, empresários esportivos do país viram no futebol uma boa oportunidade de mercado e desenvolveram duas ligas — uma delas importava times inteiros da Europa e da América do Sul — que acabaram por se fundir e deram origem à North American Soccer League (NASL).
A liga que se iniciou em 1968 com 17 times originais foi a principal responsável, na época, por apresentar o esporte considerado “peculiar” aos americanos.
Mas, ainda assim, a modalidade não se popularizava da forma como os donos da liga gostariam e não demorou muitos anos para alguns times começarem a encerrar suas atividades.
Tudo começou a mudar em 1975, quando Pelé, considerado o “Rei do Futebol” e tricampeão mundial, assinou com o clube Cosmos, de Nova York.

Ao longo da década de 70, a média de público quadruplicou e a liga triplicou de tamanho. Entretanto, o fenômeno foi passageiro e, em 1984, a NASL chegou ao fim.
O New York Times afirma que o fracasso da liga se deu pelo fato dela nunca ter tido uma “base sólida” e ter falhado em formar jogadores americanos.
“Pagava o dobro do valor de mercado por estrelas internacionais, mas uma ninharia para todos os outros, e não tinha um sistema de formação de jogadores locais”, opina o Times sobre os motivos do fracasso da liga.
Entretanto, o periódico diz que a liga foi feliz em fazer com que milhões de crianças se apaixonassem pelo esporte durante a década de 70.
A barreira social: esportes “americanos” limitam o crescimento do futebol
Por muitos anos, o futebol foi considerado pelos americanos um “esporte de imigrantes”, sobretudo pelas principais modalidades do país como o basquete, beisebol e o futebol americano serem consideradas nativas e uma paixão da população.
Em artigo publicado em 1994, ano da primeira Copa do Mundo em solo americano, o Los Angeles Times criticou o fato de a “Copa ter sido um evento praticamente imposto aos Estados Unidos” e destacou que a prosperidade do futebol no país se devia “à dedicação dos imigrantes que trazem consigo seu amor pelo esporte”.
Ainda assim, a modalidade nunca conseguiu bater de frente com os principais esportes locais — estes, “americanizados” e moldados para o espectador local.
Há quem defenda, inclusive, que a popularização do futebol nos Estados Unidos pode ocasionar perdas das raízes culturais do país.
Uma pesquisa realizada pela Gallup e divulgada em fevereiro deste ano mostrou que o futebol americano segue como o esporte preferido da população dos Estados Unidos.
A lista é seguida por beisebol e basquete e o soccer (nome pelo qual os americanos se referem ao futebol).
Isso acontece também porque o futebol ainda não conseguiu superar a barreira geracional e local nos Estados Unidos, como acontece com as modalidades “nativas”. Acompanhar um Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, é parte da rotina local.
Os principais times americanos, além de serem históricos e acompanhados há gerações — alguns deles fundados ainda no século XIX —, têm profundas raízes locais. Quem nunca viu o logo dos New York Yankees e o associou diretamente aos Estados Unidos?

Por fim, embora a liga doméstica americana esteja se desenvolvendo, ela ainda está longe de ser considerada a melhor e seu nível ainda é bem abaixo dos europeus.
Em contrapartida, nos Estados Unidos, os principais talentos de basquete, beisebol e futebol americano se concentram nas ligas americanas.
O projeto esportivo que não passou de Gana
Em 1998 através do “Projeto 2010” a federação americana de futebol estabeleceu uma meta: garantir que a seleção nacional fosse uma candidata plausível a ganhar a Copa do Mundo que ocorreria 12 anos mais tarde, na África do Sul.
Entretanto, na competição sediada em solo africano, os Estados Unidos não chegaram perto de conquistar o troféu, caindo nas oitavas de final para Gana.
O projeto fracassado foi anunciado com um custo de 50 milhões de dólares e, além de estabelecer uma meta para a Copa de 2010, tinha como objetivo desenvolver as categorias de base para formar “futuros craques”.
Anos se passaram e, em 2017, quando os Estados Unidos ainda eram candidatos a sediarem a Copa deste ano, a promessa voltou: “2026 será o ano em que começaremos a falar em ganhar a Copa do Mundo”, afirmou Bruce Arena, à época, técnico da seleção americana.
“Em 1994, os EUA eram vistos como uma fronteira emergente no futebol e a FIFA queria inserir os EUA no cenário mundial. Em 2026, estaremos totalmente integrados ao futebol e seremos um grande protagonista. Pode ser a nossa vez”.
Na entrevista ao The Washington Post, nove anos atrás, o ex-técnico depositou suas esperanças no atacante Christian Pulisic e acertou sua previsão. Hoje, ele é o camisa 10 dos Estados Unidos e o maior nome do time na Copa.
Em 2024, ele chegou a ter seu nome citado nas principais páginas políticas americanas após ter comemorado um gol com uma dança alusiva ao presidente Donald Trump, poucos dias depois de o republicano ter vencido a eleição contra Kamala Harris, do Partido Democrata.
Na ocasião, a Forbes destacou que a celebração do gol “foi um erro de julgamento do capitão americano” e que a ação poderia “galvanizar o time com a ideia de ‘nós contra eles'”.
“Além disso, ser visto — com razão ou não — como alguém vagamente alinhado com Trump pode se tornar cada vez mais problemático para Pulisic se o presidente eleito cumprir as promessas de campanha
de deportar milhões de imigrantes ilegais e limitar os caminhos para a cidadania americana”, destacou a Forbes.
Residentes latinos abraçaram o futebol dos EUA
Se os bilhões de dólares investidos na Major League Soccer (MLS), a liga doméstica, não têm cativado tanto os americanos, sua profissionalização local tem conquistado outro tipo de público: os imigrantes, sobretudo os residentes latino-americanos.
Parte dos times, principalmente os localizados em regiões com grande concentração de imigrantes hispânicos, como a Flórida ou o Texas, focam cada vez mais no “marketing bilíngue”.
O Houston Dynamo, do estado texano, afirma que “quase 60% de seus torcedores se identificam como hispânicos”.
O Inter Miami, time do astro Lionel Messi, também é outro time que possui forte influência hispânica, que vai desde seu nome em espanhol, Club Internacional de Fútbol Miami, até sua torcida e seus donos, de origem cubana.
“Isso fica claro no idioma [espanhol] escutado em cada rodinha de conversa dos torcedores, nas sinalizações do estádio e até no serviço de alto-falante. O espanhol se torna a língua oficial e, por algumas horas, aquele pedaço de terra ianque se transforma em território latino-americano”, destaca a CNN.

Ao melhor estilo sul-americano, os torcedores do Inter Miami transformam as arquibancadas em uma festa inspirada nas principais torcidas latinas, com faixas, bandeiras, instrumentos e músicas — claro, tudo em espanhol. O que não se vê nas modalidades “nativas”.
Casa Branca trata Copa como “um evento qualquer”; Irã reclama
Quando o Brasil sediou a Copa do Mundo em 2014, o governo brasileiro flexibilizou a concessão de vistos aos estrangeiros e criou modalidades especiais para turistas e trabalhadores que vinham ao evento. A realidade americana atual é totalmente oposta.
O governo americano tem recusado sem cerimônias a emissão de vistos para torcedores de países cuja relação não é boa e tem imposto rigorosas vistorias nas fronteiras, inclusive para jogadores e comissão técnica.
O caso que mais repercutiu foi a recusa de entrada do árbitro Omar Abdulkadir Artan, da Somáilia, que por consequência teve que ficar de fora da competição.
O somali, que chegou a ser interrogado por 11 horas no aeroporto de Miami, estaria sendo investigado pelo governo americano por um suposto envolvimento com terrorismo. Omar nega as acusações.
Por sua vez, a FIFA lamentou a situação mas afirmou não poder interferir em decisões migratórias de países-sede do torneio.
Outro caso que ganhou as manchetes foi o da seleção iraniana, que, por determinação da Casa Branca, poderia ingressar nos Estados Unidos apenas na véspera de suas partidas, mas teria de retornar a Tijuana, no México, onde está concentrada, logo após seus jogos.
De acordo com informações locais, no retorno da delegação iraniana ao México, logo após a estreia do Irã na última segunda-feira, dois membros, incluindo o capitão da equipe, Mehdi Taremi, enfrentaram problemas com a documentação, o que retardou o embarque.
Taremi afirmou que as condições impostas aos iranianos eram um “desastre” e pediu auxílio da FIFA.
Para além dos rígidos controles de fronteira, a segurança dos estádios também tem sido amplamente reforçada. Em um vídeo que viralizou nesta terça (16), agentes de segurança submeteram jogadores do Uruguai a uma revista rigorosa. Com os jogadores em fila e com o auxílio de cães farejadores os pertences dos sul-americanos, como mochilas e casacos foram minuciosamente revistados. Nas imagens que viralizaram foi possível ver o descontentamento dos atletas.
EUA disputaram primeira Copa da História
A relação entre Copa do Mundo e Estados Unidos é de longa data: os americanos disputaram o primeiro torneio, em 1930, realizado no Uruguai, e nele obtiveram sua melhor colocação da história, chegando às semifinais.
A partir daí, os Estados Unidos chegaram a se classificar para outras 11 edições (1934, 1950, 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2022 e 2026) mas a sorte não foi mais a mesma.
A melhor colocação americana, depois da primeira Copa da história, foi apenas em 2002, quando se classificaram para as quartas de final mas amargaram uma derrota de 1 a 0 para a Alemanha.
A imprensa local vê a atual seleção com bons olhos, principalmente após a goleada na estreia da Copa.
O New York Times opinou que no triunfo contra o Paraguai, a seleção americana teve os “melhores 45 minutos da história da Copas do Mundo”, referindo-se ao primeiro tempo, em que o time americano marcou três gols.
“Durante anos, os torcedores e jogadores de futebol dos EUA sonharam com este momento: uma estreia glamorosa na Copa do Mundo em casa, um palco sem precedentes para o seu esporte. Eles sonharam em vivenciá-lo, em inflamar a América, em elevar o futebol a um novo patamar”, destaca o jornal.
Mas, ainda assim, o time dos Estados Unidos ainda é considerado um “azarão”.
Em casas de apostas, a seleção americana ainda figura abaixo de equipes tradicionais como a França, Espanha, Inglaterra, Argentina e o Brasil.
noticia por : Gazeta do Povo




