Primeira noite de Poesia no Centro tem mesa adiada e poesia 'bem literal'

0

A segunda edição do festival Poesia no Centro começou muito antes desta sexta (15). O evento se espalhou pela cidade de São Paulo levando poemas e poetas a lugares como o Museu da Língua Portuguesa e a Biblioteca Mário de Andrade antes de chegar a seu desfecho esta noite no Teatro Cultura Artística.

O encontro foi iniciado quando muitas pessoas ainda se acomodavam nas cadeiras do teatro. Indicativo de como a chuva na capital paulista interferiu no primeiro dia de festival, mas não o atrapalhou. Com ingressos esgotados pela internet, o saldo do primeiro dia foi um cheio, mas não lotado.

A abertura ficou por conta de uma homenagem ao poeta, tradutor e editor Aníbal Cristobo, morto no último 17 de março. Sheila Miranda, Marília Garcia e Heitor Ferraz Mello falaram de sua admiração pelo profissional argentino e também compartilharam episódios pessoais com ele.

“Ele sempre dava um jeito de falar algo inesperado e transformar o ponto de vista”, contou Garcia, que lembrou que o colega escreveu o posfácio de seu primeiro livro, “20 Poemas para o seu Walkman”.

Já a mesa de Alice Sant’Anna e Sylvio Fraga foi promovida à inaugural depois que o nome internacional de maior peso de todo o evento, Eileen Myles, teve seu voo dos Estados Unidos atrasado, adiando sua mesa para o domingo (17), último dia do festival, às 12h30.

Os poetas Sant’Anna e Fraga falaram sobre os lugares comuns de onde tiram inspiração para escrever. Muitas vezes “fisgadas no cotidiano” como disse a mediadora Luiza Leite.

Sant’Anna costuma dizer que precisa que as coisas aconteçam para escrever, mas parece se sair como uma ótima curadora da própria vida. A história por trás de seu poema “Acrobata”, narrada de maneira bastante fiel no texto, arrancou risadas da plateia.

“Sou bem literal. Acho que faço um pouco de crônica”, afirmou ela.

Leite diz que eles imaginam a partir da concretude e Fraga questionou: “Mas qual seria o contrário?” Segundo ele, é difícil imaginar uma inspiração que “brota do nada” e não de uma observação.

Pai e mãe, Fraga e Sant’Anna escrevem bastante sobre suas experiências com os filhos. Apesar de Fraga, por vezes, evitar narrá-las: como quando escolheu não poetizar a primeira queda de dente do filho porque seria emocionante demais –ou “ia dar ruim”, nas palavras deles.

Sant’Anna, detentora de um “banco mental de situações que podem virar um poema” contou que se impressiona ao observar os filhos construindo seus próprios repertórios. Isso a faz compreender melhor como o acúmulo de experiências influencia o caminho que percorre das observações aos poemas.

Ao reler seu “Sabiá”, Sant’Anna revelou a inspiração mais inusitada do encontro, afirmando que, pela similaridade, teria ela própria plagiado o colega de mesa. “Você me desculpa. Podemos chamar de correspondências”, ela brincou com Fraga.

Em seguida, o teatro recebeu leituras de poemas. As afirmações certeiras do “Nadine” de Luiza Romão deram início ao momento, seguidas pelas incertezas calculadas de Buhr, que performou “Mainá”. A primeira se muniu de efeitos luminosos e sonoros, intercalando falas gravadas com enunciadas ao vivo. Já a segunda fez uso da percussão, marca de suas apresentações.

Saindo do auditório, a atenção de todos foi sequestrada pela performance breve de Celsim, guiada pela abertura de um rolo de papel impresso. Ecoando “ó palavra” em um megafone ele abriu a sequência de declamações que leva o nome do instrumento.

Até o fim da noite, passaram pelo palco externo Daniel Minchoni, Leo Nunes, Flora Sandyá, Nina Horikawa, João Ricardo Dias, Jailma Paixão, Leo Gaede, Renata Iacovino e Izabela Costa.

noticia por : UOL