Por 20 anos, os palestinos na Faixa de Gaza suportaram bombardeios israelenses, deslocamentos e uma ditadura brutal. Sob tais condições, a realização de eleições parecia uma perspectiva distante.
Agora, autoridades palestinas estão fazendo preparativos para eleições municipais neste fim de semana em uma única cidade de Gaza, Deir al-Balah, um dos poucos lugares onde o Exército israelense não conduziu uma invasão terrestre em larga escala durante dois anos de guerra, embora ainda apresente muitos sinais de bombardeio.
“Toda a minha geração esperou por essa oportunidade”, disse Abd al-Rahman al-Masri, 27, um médico que nunca votou. Ele disse querer que o próximo conselho municipal encontre soluções para os problemas de Deir al-Balah, desde água e esgoto até a falta de espaço nos cemitérios.
Cerca de 70 mil pessoas estão aptas a votar na eleição deste sábado (25), disseram os organizadores. Para muitos, é uma chance há muito esperada de ter voz em como a cidade é administrada.
A eleição está sendo organizada pela Autoridade Palestina, que governa a Cisjordânia ocupada por Israel, e seu envolvimento é notável, dado que a organização foi removida do poder em Gaza à força pelo Hamas, em 2007. Desde então, o Hamas controla a nomeação de prefeitos e integrantes de conselhos municipais em todo o território.
Meses após um cessar-fogo ter sido acordado com Israel, em outubro, o Hamas ainda controla grande parte de Gaza. O grupo disse estar preparado para abrir mão da administração do território, mas tem resistido aos apelos para entregar suas armas.
Um porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, disse que o grupo apoia a realização das eleições municipais em Deir al-Balah e prometeu não interferir nelas. “O Hamas já decidiu entregar todas as responsabilidades e poderes aos vencedores logo após a divulgação dos resultados”, disse ele por telefone.
Alguns candidatos enfrentaram acusações de ter ligações com o grupo, mas Qassem disse que o Hamas não está participando das eleições “em nenhum nível”. Não ficou claro se algum dos candidatos era membro do Hamas.
A eleição também parece representar um esforço da Autoridade Palestina para se afirmar em Gaza. Desde o ataque liderado pelo Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, o governo israelense tem buscado impedir que a Autoridade Palestina desempenhe qualquer papel no território.
Com a maior parte do território em ruínas desde a guerra, e pouca indicação de que a reconstrução começará em breve, muitos moradores de Deir al-Balah disseram esperar que seus votos levem a uma melhoria nos serviços locais.
Dezenas de candidatos se reuniram em quatro listas eleitorais separadas. Eles lançaram campanhas em Deir al-Balah, colocando cartazes pela cidade e se reunindo com eleitores para apresentar suas plataformas políticas, em grande parte focadas em melhorar o acesso a serviços como água e energia.
Analistas palestinos questionaram se as eleições podem trazer mudanças significativas, dado que Israel restringe severamente a entrada de mercadorias em Gaza necessárias para reparar a infraestrutura.
“Para os palestinos, essas eleições são uma afirmação de vida apesar de toda a morte que testemunharam durante a guerra”, disse Akram Atallah, palestino originário de Gaza que vive em Londres. “Mas o próximo conselho municipal não será capaz de entregar resultados substanciais enquanto não tiver os recursos necessários.”
Autoridades israelenses disseram que as restrições à entrada de certos produtos são necessárias para impedir que o Hamas obtenha materiais para produção de armas.
Até a tarde de quinta-feira (23), a Autoridade Palestina ainda aguardava permissão de Israel para enviar urnas e outros materiais para a eleição em Gaza, de acordo com Fareed Taamallah, porta-voz da Comissão Central de Eleições da autoridade. Ele disse que havia preocupações de que os materiais não seriam entregues a tempo, mas sugeriu que a comissão tinha alternativas, sem dar detalhes.
A agência israelense responsável pela ligação com os palestinos, conhecida como Cogat, recusou-se a comentar. Procurado, o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, não respondeu a pedidos de comentário.
Taamallah disse que as eleições em Deir al-Balah eram um programa-piloto e, se fossem bem-sucedidas, mais eleições poderiam acontecer em outros municípios do território. As seções eleitorais em Deir al-Balah, acrescentou, seriam operadas por 700 trabalhadores e protegidas por uma empresa de segurança e logística. Não ficou claro até que ponto o Hamas estaria presente nas ruas durante a eleição.
As quatro listas de candidatos são, oficialmente, independentes, mas muitos dos que concorrem por uma lista chamada Renascimento de Deir al-Balah foram associados ao Fatah, o partido governante da Autoridade Palestina.
Em um evento na terça-feira (21), Sharif al-Buheisi, o coordenador de campanha do Renascimento, falou a membros de uma família local proeminente sobre planos para ajudar jovens a desenvolver habilidades e aumentar suas perspectivas de emprego.
“Estamos aqui para representá-los e defender seus serviços”, disse al-Buheisi ao grupo de cerca de 25 pessoas, que estavam sentadas em fileiras de cadeiras de plástico. “O município tem recursos que podem fazer uma diferença real.”
Raed Abu Asad, 49, agricultor e candidato em outra lista, chamada Futuro de Deir al-Balah, disse que as principais prioridades eram “saneamento e controle de preços nos mercados”. “O bom desses temas é que não precisamos de muitas ferramentas ou maquinário pesado”, acrescentou.
O jornal The New York Times conversou com 26 moradores de Deir al-Balah sobre as próximas eleições, e 16 deles disseram que pretendiam votar.
Osama al-Louh, 49, engenheiro civil, disse que queria que seu voto contribuísse para maior transparência e igualdade na forma como a água é distribuída pela cidade. “Algumas áreas recebem água todos os dias, enquanto outras recebem uma vez por semana”, disse ele. “Isso não é profissionalismo, é favoritismo.”
Outros moradores disseram que boicotariam completamente a votação, desesperados com a escala dos problemas que Deir al-Balah enfrenta.
“Esta cidade precisa de cerca de US$ 1 bilhão para funcionar adequadamente”, disse Nader Obaid, 50, engenheiro arquiteto. “Não existem soluções mágicas.”
noticia por : UOL




