Empresa dos EUA lidera ranking de crescimento com aposta em IA para saúde mental

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Os escritórios da Grow Therapy em Nova York podem ter vista para o famoso cemitério da Trinity Church em Wall Street, mas a empresa goza de excelente saúde.

Fundada em 2020, a Grow Therapy —que lidera o ranking das Empresas de Crescimento Mais Rápido das Américas 2026— está lucrando com um mercado em expansão de serviços de saúde mental, especialmente aqueles que utilizam IA (inteligência artificial).

Agora a empresa, cuja plataforma conecta pessoas a terapeutas, e suas concorrentes estão apostando em chats com IA para oferecer serviços de terapia especializados.

O sucesso do ChatGPT da OpenAI se deve em parte à disposição das pessoas em interagir intimamente com a tecnologia. No ano passado, um relatório da Harvard Business Review observou que terapia e companhia têm sido os principais casos de uso para aplicações de IA generativa.

O CEO Jake Cooper relembra os primórdios da Grow Therapy. “Vimos que o sistema de saúde mental realmente não estava funcionando”, diz ele. “Eu vi isso diretamente como paciente —tentei encontrar um terapeuta.”

Essa busca, observa Cooper, costuma ser difícil porque os terapeutas podem não estar aceitando novos pacientes, ou as seguradoras podem não estar dispostas a cobrir esse tratamento. “Foi uma experiência incrivelmente frustrante”, afirma.

A empresa ganha dinheiro com acordos de compartilhamento de receita com seguradoras de saúde. Por exemplo, ela oferece aos funcionários da Amazon seis sessões de terapia por ano sem custo. A Grow Therapy conecta funcionários da Amazon com terapeutas, que estão listados em seu site. A Grow paga os terapeutas e, por sua vez, é paga pelas seguradoras.

Os pacientes pagam em média US$ 21 por sessão, enquanto cerca de um terço não paga nada, segundo a empresa. Atualmente, a empresa mantém parceria com mais de 125 seguradoras de saúde, e não vende assinaturas diretamente aos pacientes. “Só ganhamos dinheiro quando nossos parceiros vão bem”, diz Cooper.

A taxa de crescimento anual composta de 455,6% elevou as receitas da Grow Therapy de US$ 3,6 milhões em 2021 para US$ 617,4 milhões em 2024, impulsionando-a ao topo do ranking de 2026 compilado pelo Financial Times e pela empresa de dados Statista. Em março, a empresa anunciou que havia levantado mais US$ 150 milhões, principalmente de capital de risco, elevando sua avaliação para US$ 3 bilhões.

A Grow Therapy está competindo em um setor concorrido onde empresas promissoras sofreram reveses.

O mercado de terapia à distância disparou durante a pandemia de Covid-19 em 2020. A Teladoc, sediada em Nova York, que oferece consultas online com médicos, viu o preço de suas ações dobrar naquele ano. A empresa, que adquiriu a provedora de aconselhamento online BetterHelp em 2015, tornou-se a queridinha do fundo de índice focado em crescimento da investidora Cathie Wood. Mas à medida que a Covid diminuiu, a Teladoc teve dificuldades para manter seu crescimento, e suas ações caíram 97% nos últimos cinco anos.

A rival Talkspace, também de Nova York, abriu capital em 2021 durante a febre das empresas de aquisição de propósito específico (Spacs, na sigla em inglês). Suas ações despencaram até ser comprada em março pela provedora de hospitais e serviços de saúde UHS.

Há também outras startups privadas competindo com a Grow Therapy. A Spring Health, que vende a empregadores uma plataforma que oferece serviços personalizados de comportamento e bem-estar mental, é uma delas. Também sediada em Nova York, a empresa foi avaliada em US$ 3,3 bilhões em 2024 e este ano adquiriu a rival de saúde Alma.

Headway, em Nova York, e Rula, na Califórnia, são outras que buscam conectar pacientes a terapeutas. A Headspace, também na Califórnia e cofundada por um especialista britânico em meditação e ex-monge budista tibetano, expandiu-se para oferecer serviços de terapia e coaching.

Algumas dessas empresas estão atendendo a uma necessidade urgente das seguradoras de saúde de reduzir seus custos, diz Ryan MacDonald, analista que cobre esse setor na Needham.

A saúde mental não oferece indicadores de sucesso tão fáceis de observar quanto a perda de peso, por exemplo. Se as startups conseguirem provar que estão economizando dinheiro para as seguradoras, “então essa é a grande virada ao longo do tempo, para realmente ver as seguradoras se engajarem mais proativamente na assistência à saúde mental em vez de apenas oferecê-la como uma opção”, diz MacDonald.

Ao mesmo tempo, a Grow Therapy enfrenta riscos se as seguradoras reduzirem taxas de reembolso. “Se uma empresa de saúde mental não está gerando valor suficiente em termos de melhores resultados, então sempre há o risco de as taxas de reembolso serem pressionadas na renegociação”, afirma.

A IA, portanto, é fundamental para o sucesso dessas empresas. Através da Grow Therapy, pacientes podem conversar com uma ferramenta de IA entre uma sessão e outra. Esses chats com IA podem ser compartilhados com a permissão dos usuários para ajudar na compreensão da vida da pessoa.

Mas a rápida adoção da IA para saúde mental trouxe consequências. Chatbots de IA tendem a validar as crenças dos usuários de maneiras que reforçam pensamentos não saudáveis, disseram pesquisadores da Universidade Stanford em março. No ano passado, os pais de um adolescente que morreu por suicídio processaram a OpenAI.

Após o processo, a OpenAI disse que “temos salvaguardas em vigor para ajudar as pessoas, especialmente adolescentes, quando as conversas se tornam sensíveis” e expressou suas “mais profundas condolências” à família. O caso está em andamento.

Esses riscos e a potencial regulamentação da IA representam uma ameaça para a ampla gama de empresas de saúde mental, diz Jagpreet Chhatwal, diretor do Instituto de Avaliação de Tecnologia do Massachusetts General Hospital e professor da Harvard Medical School.

Outro risco é que os provedores de saúde mental com IA podem estar superestimando seus produtos, acrescenta. Essas empresas “definitivamente têm conflito de interesse para mostrar o melhor do aplicativo”, diz Chhatwal.

Mas há sinais de que os chatbots de IA estão melhorando a saúde mental. Chhatwal apontou para um relatório de 2025 do New England Journal of Medicine que descobriu que o chatbot de terapia Therabot demonstrou eficácia no tratamento de depressão, ansiedade e até transtornos alimentares.

noticia por : UOL