Que 2026 traga coragem para conquistar mais autonomia

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Entrei em 2026 com a casa repleta de amigos e comida na sala, comemorando enquanto caixas de mudança abarrotavam os quartos. Logo no dia 2 de janeiro começa a desmontagem dos móveis para que no dia seguinte possamos dormir em um novo endereço.

Pela primeira vez visitei apartamentos para escolher onde eu gostaria de viver, caminhei pelo entorno para entender como seria morar no novo bairro, negociei com proprietários e corretores, li contratos, fui atrás de concessionárias de energia, gás e internet para que tudo estivesse funcionando. Ações que parecem corriqueiras, mas que, para pessoas com deficiência visual, são um marco importante na obtenção de autonomia que muitas vezes demora mais tempo para chegar, se é que um dia chega mesmo.

Foram 36 anos para eu alugar meu primeiro imóvel. Não que eu não estivesse acostumado a esperar. Foram 18 anos até eu sair de casa sozinho na rua pela primeira vez, 21 até o primeiro beijo, uns 30 até ir ao supermercado, e por aí vai. Só o primeiro emprego não chegou a ser precoce, mas também não demorou tanto, veio aos 22 anos, graças ao Programa de Treinamento da Folha.

São muitos os fatores que fazem nossa caminhada ser por vezes mais lenta. Com frequência a gente precisa antes de tudo aprender a aceitar nossa condição sem nos envergonharmos de usar bengala, ler em braille e pedir apoio quando precisamos. Por vezes não temos todas as informações necessárias ou não sabemos como vamos ser recebidos em diferents contextos, por conta do capacitismo. Depois, há a superproteção de familiares que muitas vezes acham mais confortável cuidar de nós do que ensinar a correr riscos controlados. E, admito, o conforto que há em deixar que pessoas prestativas e amorosas façam por nós, o que em excesso é um veneno para nossa autonomia.

Terminei o ano ouvindo histórias de pessoas cegas que não saem de casa sozinhas, no máximo dão uma volta de Uber com alguém esperando para encontrá-las no destino. Motivos vários. Nunca aprenderam a fazer diferente, medo de encarar as ruas, falta de treino e às vezes preguiça mesmo.

Eu me sinto mais confortável em dizer o quanto sou atrapalhado na hora de usar a cafeteira eletrônica, por vezes preciso de ajuda para coisas banais, como achar a saída do condomínio, ou preciso de um assistente de inteligência artificial para limpar os calçados. Afinal, é lidando com nossas imperfeições que surgem aprendizados e transformações.

Mas, fiquei pensando enquanto rascunhava metas de Ano Novo, não é que no fim está dando tudo certo? Inexperiente que era, de repente parece que consegui fazer quase de tudo? Trabalhei, viajei sem companhia de ninguém que enxergasse, casei, corri cinco meias-maratonas e toquei uma Balada de Chopin ao piano. Até já plantei uma árvore na Amazônia. Falta o filho e o livro, nada que não corra o risco de aparecer qualquer dia de 2026.

Sair do conforto e se aventurar mais pela vida não é fácil, mas é possível e absolutamente recompensador. Por isso, em 2026, torço que tenha coragem para que você inicie todas as mudanças que deseje.

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noticia por : UOL