Recomendo um livro recém-lançado a todos os que quiserem ir mais fundo no pensamento sobre a nossa língua, ultrapassando o senso comum e o estágio cata-erro em busca de uma compreensão mais alargada do que é, como funciona e para que serve uma língua.
Em “O Linguista e sua Caixa de Ferramentas” (Parábola), Carlos Alberto Faraco reúne textos que, publicados anteriormente de modo esparso, ele reviu e em alguns casos reescreveu, a fim de declaradamente prestar contas de sua trajetória como professor e pesquisador.
Em conjunto, os textos do ex-reitor da Universidade Federal do Paraná desenham um painel impressionante das múltiplas vertentes do pensamento de quem, aos 74 anos, é o maior intelectual do país no campo da língua.
Se o número de brasileiros que sabe disso é restrito –mesmo que não o comparemos com o dos seguidores de Virginia Fonseca, pois aí seria covardia–, pior para os brasileiros.
Caetano Galindo, um dos muitos discípulos de Faraco na academia, destaca no prefácio o alcance do livro, que vai da linguística histórica à educação, da retórica clássica à variação linguística. O autor de “Latim em Pó” resume: “Nesta seleção de capítulos, atravessamos dois mil anos de pensamento gramatical, linguístico, humanístico”.
Não é livro para ler na praia, e dificilmente dele tratarão os booktokers. Acadêmico que sabe escrever, Faraco é claro feito água, de uma sobriedade que não exclui discretas ênfases implacáveis, mas aqui está falando em primeiro lugar com seus pares.
Acompanhar debates epistemológicos sobre até que ponto a linguística é ciência ou se instruir sobre política linguística no âmbito da lusofonia exige interesse e algum repertório prévio –nem falo do fôlego de leitura cada dia mais raro, pois isso afeta os livros como um todo.
Dá para entrar no jogo sem ser linguista ou estudante de letras? Claro que dá. Isso eu posso garantir porque, escritor com formação de jornalista, nunca tendo sido professor, entrei.
Em 2001, no Jornal do Brasil, Flávio Pinheiro me ofereceu minha primeira coluna e eu decidi fugir do impressionismo qualquer-nota, doença que acometia muitos colegas na época, dando ao espaço uma pegada metalinguística.
O problema com a decisão de escrever sobre língua e linguagem é que eu não enxergava muito além do horizonte normativo que era —e em parte ainda é— o teto do discurso jornalístico sobre o tema. Todo jornal tinha então um professor de português no elenco.
O livro que deu início ao meu processo de desasno foi “Estrangeirismos: Guerras em Torno da Língua” (Parábola), de diversos linguistas.
Discutia-se em 2001 um projeto de lei do deputado Aldo Rebelo que previa multa a quem usasse estrangeirismos. Horrorizado com a ideia, busquei argumentos para combatê-la e achei o livrinho de bolso, aquele que abriria a porta para um monte de outros.
Seu organizador era Carlos Alberto Faraco. Se ainda estou aqui um quarto de século depois, tentando falar da língua do modo mais arejado que consigo, é porque, como o Caetano, também sou discípulo do Faraco.
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noticia por : UOL
