Está entendido que Donald Trump fará o que estiver ao seu alcance para tirar Lula do Palácio do Planalto e está entendido também que Flávio Bolsonaro fará de tudo para apresentar-se como o homem de Trump em Pindorama. Fora desse circo, pelo menos em tese, a diplomacia comercial americana promete negociar e promover audiências públicas até o dia 15 de julho, antes de baixar um tarifaço sugerido para a faixa de 25%.
Passada a barulheira da semana passada, entrarão em campo os profissionais, com argumentos e números.
O documento que prenuncia o tarifaço, produzido pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA, é uma salada de exemplos conflitantes e até mesmo de afirmações absurdas. Ao falar do desmatamento cita números do governo Bolsonaro, reconhece que a situação melhorou mas em seguida roga uma praga: “Mesmo assim, como indicam os dados históricos, esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem aumentar novamente”. (Sobretudo com um Bolsonaro no Planalto.)
A certa altura o relatório diz:
“É mais fácil e menos dispendioso produzir produtos agrícolas em pastagens degradadas e previamente desmatadas. Isso contribui para que mais produtos agrícolas brasileiros concorram nos mercados globais, o que leva à queda dos preços desses produtos.”
Ora, se um cultivo se dá numa terra desmatada há 20 anos e se a soja plantada pelo novo fazendeiro sai mais barata, qual é o problema? A “queda dos preços” pode ser uma boa notícia.
A argumentação dos americanos tem momentos de fragilidade, mas tem também argumentos robustos que mais uma vez obrigam o Brasil a olhar para o prejuízo causado pelos agrotrogloditas.
O relatório cita a saída da Moratória da Soja de grandes empresas exportadoras. Pouco conhecida fora do mundo do agro, essa moratória é um pacto firmado pelas grandes tradings, há quase 20 anos, pelo qual elas se comprometem a não comprar soja plantada em área de desmate. Em troca recebiam benefícios fiscais.
Aos poucos o pacto foi sendo comido pelas beiradas e incentivos foram retirados. Resultado: grandes tradings saíram do pacto e agora o governo americano usa esse caso para exemplificar a capacidade do Brasil de andar para trás.
O mau humor americano deriva também do fato de o Brasil saber andar para a frente.
Johanna Döbereiner, a madrinha da soja
Em 1970, com a ajuda americana, o agrônomo Norman Borlaug ganhou o prêmio Nobel da Paz, numa disputa com dom Hélder Câmara. Seu mérito foi ter criado uma nova variedade de trigo, resistente a pragas.
No Brasil, Johanna Döbereiner (1924-2000) revolucionou o plantio de soja e foi indicada para o Prêmio Nobel de Química, mas não levou. Tendo passado quase toda a vida em Seropédica (RJ) e considerando-se uma “camponesa de laboratório”, ela hoje é pouco conhecida fora do mundo científico ou do agro mais ilustrado.
Nos anos 70, quando ir contra a adubação química era um sacrilégio, suas descobertas permitiram a entrada da soja no cerrado e tornaram o Brasil, à época, o segundo maior produtor de soja, atrás dos Estados Unidos. (Döbereiner descobriu uma forma de fixar o nitrogênio nas plantas por meio de bactérias.)
Já em 1973 a Central Intelligence Agency produzia um relatório intitulado “Soja do Brasil: uma ameaça emergente para as exportações dos EUA”.
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noticia por : UOL
