Início VARIEDADES Sem falar de aborto, PT organiza encontro católico para atrair eleitor religioso

Sem falar de aborto, PT organiza encontro católico para atrair eleitor religioso

Faltam três meses para as eleições — o período em que o índice de religiosidade atinge o ápice entre os políticos.

O Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, decidiu organizar o seu 1º Encontro Nacional de Católicas e Católicos. O objetivo foi reforçar o diálogo com esse eleitorado e tentar atrair o público religioso para o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Durante o evento, realizado em Brasília na terça-feira (30), decidiu pela publicação de uma “Carta aos Católicos” para servir como um manifesto de compromissos para a disputa eleitoral de 2026, seguindo o modelo de iniciativa já realizada com o segmento evangélico.

O texto repete platitudes sobre “soberania nacional” e a “dignidade da classe trabalhadora”, além de criticar “parlamentares que transformam igrejas em palanques”.

Justiça social e interpretações do Evangelho

O encontro reuniu integrantes do governo, parlamentares e lideranças religiosas ligadas aos chamados setores progressistas da Igreja. 

O painel de palestrantes incluiu a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja; o presidente nacional do PT, Edinho Silva; o ex-ministro Gilberto Carvalho; e o coordenador do Setorial Inter-religioso, Gutierres Barbosa. 

Também participaram os parlamentares Reimont, Patrus Ananias, Jilmar Tatto e Leninha, além de militantes ligados ao programa de formação política do PT.

Entre os convidados para as mesas temáticas estiveram a religiosa Ivone Gebara — freira da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora e teóloga reconhecida por sua atuação na Teologia da Libertação e na defesa de perspectivas feministas no campo religioso — e Frei Betto, religioso que participou da fundação do PT.Os discursos proferidos durante o evento buscaram estabelecer uma convergência entre as políticas públicas do atual governo e os princípios cristãos.

Edinho Silva afirmou que os valores do Evangelho encontram expressão em programas como o Bolsa Família e em ações de combate à desigualdade. Segundo o dirigente, a defesa da vida e da justiça social estaria no centro das ações do partido.

Janja mencionou, em mensagem de vídeo, a relação histórica entre a fundação do PT e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), afirmando que o trabalho do governo é guiado pela busca por um país livre da fome e da pobreza. 

O coordenador Gutierres Barbosa defendeu que a maior parte dos filiados do partido (86%) se declara cristã, o que justificaria a necessidade de um trabalho permanente para combater o que ele classificou como “desinformação” no campo religioso.

O debate sobre o aborto e o silêncio estratégico

A questão do aborto foi um dos temas ausentes da pauta oficial do encontro e, segundo os organizadores, não será abordada no manifesto destinado aos católicos. 

O coordenador Gutierres Barbosa declarou que o assunto está “superado dentro do PT”, optando por focar a “defesa da vida” em temas como o combate à fome e à violência.

Essa omissão tem sido interpretada como uma estratégia eleitoral para evitar confrontos diretos com a posição da Igreja Católica, que defende a vida desde a concepção.

Embora o tema tenha sido omitido no diálogo com os católicos, não se pode apagar o papel do PT e de lideranças do partido no avanço da agenda abortista no Brasil. 

Fora do ambiente religioso, o presidente Lula já classificou o aborto como uma “questão de saúde pública”, tese que encontra respaldo em resoluções de congressos nacionais do partido que defendem a descriminalização e legalização da prática. 

Além disso, durante a gestão atual, o Ministério da Saúde revogou normas que dificultavam o acesso ao aborto em casos previstos em lei e o partido apoia projetos que visam flexibilizar as punições para a interrupção da gravidez.

Criação de rede nacional e articulação permanente

Ao final do encontro, os participantes decidiram pela criação da Rede Nacional de Católicas e Católicos Progressistas. Essa articulação contará com o apoio de entidades como o Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), a Cáritas Brasileira e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). 

O objetivo desta rede é estabelecer uma agenda de formação política e teológica constante, além de produzir materiais para o debate eleitoral e fortalecer a comunicação do PT com o público católico nas paróquias e comunidades de base.

Histórico de corrupção contradiz discurso religioso

O discurso de caridade e justiça social apresentado pelo partido é frequentemente contraposto ao histórico de escândalos de corrupção que marcaram a trajetória de lideranças do PT nas últimas décadas. 

O caso do Mensalão, revelado em 2005, tornou-se um dos episódios mais conhecidos desse período, envolvendo um esquema de pagamento de vantagens indevidas em troca de apoio parlamentar no Congresso Nacional, com condenações proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos anos seguintes, a Operação Lava Jato aprofundou investigações sobre esquemas de corrupção envolvendo contratos da Petrobras e outras estatais, com relatos de pagamento sistemático de propinas a agentes públicos e partidos políticos. 

Nesse contexto, os casos do tríplex no Guarujá e do sítio em Atibaia resultaram em condenações do presidente Lula em diferentes instâncias, posteriormente anuladas pelo STF por questões processuais. 

Mais recentemente, investigações e denúncias envolvendo fraudes no sistema de benefícios previdenciários passaram a apontar irregularidades em descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, atribuídos a entidades e intermediários financeiros ligados ao PT.

Além disso, operações e investigações relacionadas ao crédito consignado voltado a aposentados também passaram a ser alvo de questionamentos no setor financeiro, incluindo menções ao Banco Master e ao ex-empresário Daniel Vorcaro em procedimentos parlamentares e apurações sobre possíveis irregularidades em operações de crédito.

Esses casos passaram a ser mencionados no debate político por envolverem, em diferentes níveis de proximidade, pessoas com histórico de atuação política ligado ao PT ou a governos petistas.

Incompatibilidade doutrinária e condenações da Igreja 

Apesar do tom de diálogo adotado pelos palestrantes, existe uma evidente incompatibilidade entre a adesão ao projeto político do PT e as normas da Igreja Católica.

Documentos históricos da Igreja estabelecem restrições severas à colaboração com ideologias de matriz socialista ou comunista. 

O Papa Leão XIII, na encíclica Quod Apostolici Muneris, descreveu o socialismo como uma “seita” que ameaça os alicerces da sociedade civil. 

Já o decreto promulgado pelo Papa Pio XII, em 1º de julho de 1949, proíbe católicos de prestarem ajuda ou darem seu nome a partidos de doutrina materialista e anticristã. Segundo o decreto de 1949, fiéis que defendem ou divulgam tais ideologias podem incorrer em excomunhão. 

O Papa Pio XI, na encíclica Quadragesimo Anno, afirmou que “ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista”. A tentativa de aproximação do PT com os católicos ignora essas diretrizes doutrinárias.

noticia por : Gazeta do Povo

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