Mart’nália subiu a um palco pela primeira vez quando ainda nem tinha ideia de que seguiria uma carreira na música. “Meu pai nunca criou a gente para ser artista”, diz a cantora, filha do sambista histórico Martinho da Vila. “Até porque artista não era profissão antigamente, não era algo bem visto.”
Acontece que Martinho começou a botar Mart’nália vez ou outra em seus shows —fosse para arriscar um backing vocal, fosse para assumir a voz enquanto ele fazia uma pausa para ir ao banheiro ou fumar um cigarro. Ela já tinha contato íntimo com a música dentro de casa, mas passou a ter também na frente do público.
Hoje uma respeitada cantora de samba e MPB, Mart’nália vai fazer uma turnê com o pai pela primeira vez na vida. E ele, que viu a filha estrear no palco, agora a terá como testemunha de sua última vez. Isso porque os shows da dupla marcarão a despedida de Martinho da Vila dos grandes palcos e das excursões extensas Brasil afora.
Intitulada “Pai e Filha”, a turnê pretende passar por 30 cidades, a começar pelo Rio de Janeiro, em 30 de maio. Por enquanto, há shows agendados em Campina Grande e Brasília, em julho, em Belo Horizonte, em setembro, e em Fortaleza, Recife e Salvador, em outubro, além de outras duas datas no Rio em novembro. Eles passam por São Paulo em 25 de julho, no Espaço Unimed.
“É a última turnê longa”, diz Martinho. “Não vou fazer mais turnês gigantes. Eu já nem ia fazer essa. Só vou porque estou com a Mart’nália. É a saideira, a última volta pelo Brasil. Depois disso, só vou aceitar show no Rio, em São Paulo, Belo Horizonte… no máximo no Espírito Santo.”
Aos 88 anos, o sambista diz que não se trata de um esgotamento, mas de saber a hora de parar —ou, mais especificamente neste caso, de diminuir o ritmo. “Não tem negócio de cansaço. É que já andei muito. Chega, né? Saber parar é uma virtude. Às vezes você está no auge e quer ir mais longe ainda, mas o infinito não se dá para alcançar. Aí acaba caindo. Uma hora as pessoas não querem mais você, já não te chamam mais. Aí não é legal. É melhor falar, ‘olha, parei’.”
Um dos maiores ícones do samba desde os anos 1960, Martinho talvez não esteja no auge criativo —que ele alcançou entre as décadas de 1970 e 1990—, mas também nunca parou de compor e lançar novos trabalhos. Foram quatro álbuns lançados nos últimos seis anos, incluindo colaborações com rappers das novas gerações e um elogiado disco inspirado nas óperas, o “Negra Opera”.
Quando o assunto é palco, ele afirma que nunca foi tão requisitado. Diz que geralmente um artista, depois de já ter cantado em muitos lugares, deixa de ser uma novidade e recebe menos convites. Passa a fazer “coisas mais miúdas e específicas”. “Comigo acontece o contrário. Sou mais solicitado hoje do que antigamente. É incrível”, diz aos risos.
Mart’nália conta que a ideia de se apresentar com o pai vem de 20 ou 30 anos, mas só agora as agendas se alinharam. Vai ser um reencontro dela com a própria origem musical, que está intimamente ligada à relação que tem com Martinho.
“Sempre fui grudada ao meu pai, então eu ia aos lugares com ele. Ia fazer música com os amigos e eu estava lá”, ela afirma. “Só que eu não estava ali por causa da música —era por causa dele”. As rodas de samba, diz, eram corriqueiras, mas não era lugar de criança.
Ainda jovem, Mart’nália se lembra de alguns embates com Martinho por causa da febre do soul e dos bailes black no Rio de Janeiro. A turma do sambista, Beth Carvalho incluída, era defensora ferrenha da música brasileira contra o que achavam ser uma invasão americana.
“Eu, como não tinha nada com isso, gostava de curtir meu James Brown, ir aos bailes”, diz. “No meio dessas conversas, ele me mandava uma Miriam Makeba. Dizia, ‘você não quer música de preto? Então venha aqui para a África’. Isso era muito legal também.”
A carreira da cantora começou na década de 1980 como backing vocal na banda do pai, função que também desempenhou em álbuns de gente como Alcione e Fundo de Quintal, entre outros. Seu primeiro álbum saiu em 1987, mas ela não fez uma carreira solo a partir dele, e preferiu ficar fazendo voz de apoio na banda de Martinho.
Entre 1992 e 1993, o sambista botou a filha em uma fogueira. Ele tinha um show marcado no dia da disputa final do samba enredo da Vila Isabel daquele ano. Os puxadores que defenderiam a música com a qual concorria não conseguiam cantar como Martinho gostaria. A solução foi escalar Mart’nália junto a outros dois vocalistas para cantar na disputa.
“O que aconteceu? Ganharam! E ganharam bonito”, diz Martinho. A partir dali, Mart’nália também assinou sambas vencedores na Vila Isabel, sendo que pai e filha inclusive competiram entre si para ver sua composição na avenida.
Na década de 1990, a cantora participava do Batacotô, formado por músicos das bandas de Martinho e de Ivan Lins. As faixas que ela gravou com o grupo, que acabou desfeito, foram lançadas como seu segundo disco solo, em 1997. Mas não antes de ser convencida pelo pai.
“Nosso sustento era tocar com Ivan, com Martinho. A gente estava ganhando dinheiro com ‘Devagar, Devagarinho’, com ‘Mulheres’. E a banda acabou porque a gente ia ficar pobre”, ela diz. “Meu pai disse para eu terminar o álbum para ter um cartão de visitas. Mas eu não queria me tornar cantora.”
Cantora que nunca gravou não é cantora, diz Martinho, recordando-se do diálogo na época. “É alguém que canta por aí, como qualquer um”. Mart’nália afirma aos risos que só finalizou aquele disco porque ficou com medo de perder o emprego.
Se o álbum não foi exatamente um sucesso de vendas, ele abriu caminho para a carreira de intérprete de Mart’nália, que floresceu na década de 2000. Caetano Veloso produziu “Pé do Meu Samba”, disco de 2002, e Maria Bethânia fez o mesmo com “Menino do Rio”, lançado três anos depois. Essas obras fincaram o nome da cantora dentro do círculo da MPB —e fora da banda de Martinho.
Desde então, pai e filha pouco se encontraram no palco. Uma exceção é o disco “Mart’nália – Em Samba! Ao Vivo”, de 2014, com direção de Martinho, em que os dois também cantaram juntos. Outra é a participação do sambista no álbum “Pé do Meu Samba (Ao Vivo)”, que saiu dez anos antes.
Nessa ocasião, a dupla cantou as canções “De Amor e Paz” e “Tudo Menos Amor”. Mart’nália escolheu a primeira delas, uma composição de Carlos Paraná e Adauto Santos, porque achava que Martinho a havia escrito. “Meu pai assobiava muito essa música de madrugada, subindo e descendo escada”, ela diz. “Depois, ouvindo ele cantar a letra, eu achava ainda mais parecida com o estilo dele.”
Essa é uma das músicas que podem aparecer no repertório do show, que pai e filha dizem ainda não ter bolado. As apresentações serão divididas em três blocos —um para cada e outro com os dois juntos. Ainda que haja um roteiro, os dois gostam de improvisar.
Afinal, a sintonia de Martinho e Mart’nália vem de antes e vai até depois da música. “Gosto quando ela está no palco, e eu na plateia. Fico lá só lambendo a cria”, ele diz. Ela completa: “Já nasci puxando tudo dele. Pintei até o cabelo amarelo, fiz de tudo para não ficar muito parecida, mas não teve jeito.”
noticia por : UOL
