Início VARIEDADES Qual é o melhor livro brasileiro de ficção? A redação Gazeta do Povo decide

Qual é o melhor livro brasileiro de ficção? A redação Gazeta do Povo decide

Há perguntas que parecem simples até o momento em que alguém precisa respondê-las. Qual é o melhor livro brasileiro de ficção? Não o mais vendido, não o mais conhecido, não necessariamente aquele que aparece primeiro nas listas de vestibular ou nas vitrines das livrarias. O melhor, de todos os tempos. 

A pergunta foi feita à redação da Gazeta do Povo. Cada jornalista pôde recorrer à própria memória, às preferências pessoais e, sobretudo, às leituras que deixaram alguma marca. Não havia fórmula, critério objetivo ou comissão de especialistas para desempatar os votos. Apenas uma escolha diante de uma das literaturas mais vastas do mundo. 

Os resultados, como seria de esperar, não foram unânimes. Machado de Assis apareceu. Jorge Amado também. Outros autores e outros livros também receberam votos. Houve espaço para diferentes épocas, estilos e maneiras de contar o Brasil — literatura regionalista, realismo e experimentação. 

Mas um livro se destacou dos demais. 

Publicado em 1956, “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, foi a obra mais citada pelos jornalistas. Mais de sete décadas depois de seu nascimento, o romance continua ocupando um lugar peculiar na literatura brasileira: é ao mesmo tempo uma história de jagunços, uma investigação sobre o bem e o mal, um romance de amor e uma experiência radical com a linguagem. 

Seu protagonista, Riobaldo, passa boa parte das mais de 600 páginas tentando entender aquilo que viveu. Entre guerras, pactos, traições, paisagens e sentimentos que não cabem facilmente em palavras, ele conta sua história a um interlocutor que quase não fala. O resultado é um livro que pode parecer impenetrável em algumas páginas e absolutamente preciso em outras. 

Talvez esteja aí uma das razões para sua permanência. “Grande Sertão: Veredas” não é um livro que se deixa resumir com facilidade — e nem parece interessado nisso. Seu sertão é geográfico, mas também moral, psicológico e linguístico. “O sertão está em toda parte”, escreve Rosa. E talvez esteja também no leitor, que precisa atravessá-lo por conta própria. 

O editor de Ideias Omar Godoy reconhece essa aparente dificuldade de aproximação da obra, mas aponta que basta entrar no ritmo da escrita de Guimarães Rosa para que “Grande Sertão: Veredas” ganhe uma musicalidade quase hipnótica. 

“O sertão deixa de ser apenas uma paisagem e vira um cenário para discutir o mal, a dúvida, a liberdade e o destino. E ainda há a intensidade do personagem Riobaldo, um narrador que afirma uma coisa, volta atrás, corrige o próprio raciocínio, muda de ideia. Poucos romances conseguem reunir filosofia, poesia e humanidade sem perder a força narrativa”, ponderou. 

Para o colunista Paulo Polzonoff Jr, que também indicou a obra de Guimarães Rosa, a justificativa é curta e com uma pitada de humor. “[Grande Sertão: Veredas é uma] mistura perfeita de estilo inventivo, prosa cativadora e um subtexto extremamente profundo. Não tem igual, e quem disser o contrário está errado”, decretou. 

“Capitães da Areia”, de Jorge Amado 

O regionalismo também recebeu indicações de jornalistas da Gazeta do Povo. “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, foi outra obra citada nas respostas. Publicado em 1937, o livro conta uma história passada em uma região pobre da Salvador da época. Nas ruas, becos e casarões abandonados, um grupo de meninos sobrevive sem família, dinheiro ou qualquer perspectiva de futuro.

São crianças que roubam, brigam e desafiam a polícia — mas que, antes de qualquer coisa, aprenderam cedo demais que a infância também pode ser um privilégio. Elas não são retratadas como santos ou simples delinquentes. Pedro Bala, Professor, Sem-Pernas, Gato e os demais integrantes do bando carregam brutalidade, solidariedade, medo, desejo e sonhos. 

O romance acompanha esses meninos com uma proximidade que torna difícil enxergá-los apenas como uma ameaça à ordem. Por trás dos furtos e das fugas, há uma pergunta importante: o que uma sociedade faz com aqueles a quem ela própria abandonou? 

Hermano Freitas, editor da Gazeta do Povo, lembrou que “Capitães da Areia” chegou a ser censurado na Era Vargas, com direito a apreensão de mais de 800 exemplares, que foram queimados em praça pública na capital baiana. “Uma cena que parece saída de um filme sobre os anos do nazismo”, citou o jornalista.

“É um livro que traz ao mesmo tempo uma história de romance adolescente e denúncia social do menor abandonado, um problema atual até os dias de hoje. Pedro Bala é o primeiro protagonista delinquente infantil da ficção. Não se passa pano às suas atitudes, ele faz e paga, sem julgamentos morais excessivos. Tecnicamente, não tem o realismo mágico que muitos consideram irritante no restante da obra de Jorge Amado”, completou. 

“Tudo é Rio”, de Carla Madeira 

A literatura contemporânea também aparece na lista de indicações da redação da Gazeta. “Tudo é Rio”, da escritora mineira Carla Madeira, constrói uma história em que amor, desejo, violência e culpa parecem correr pelo mesmo leito de um rio. Publicado em 2014, o romance acompanha um triângulo de relações marcado por perdas e feridas que nenhum dos personagens consegue simplesmente abandonar.

Mais do que preto no branco, a obra é repleta de áreas cinzentas. Carla Madeira conduz a narrativa por zonas desconfortáveis, nas quais afeto e crueldade podem aparecer lado a lado, e o leitor é obrigado a lidar com sentimentos contraditórios em vez de receber respostas fáceis. 

O romance não pede ao leitor que goste de seus personagens, mas que tente compreendê-los. E compreender, neste caso, significa atravessar um território moral em que ninguém sai completamente ileso. 

O editor da equipe de Brasil Bruno Maffi reconheceu essa característica de “Tudo é Rio”, ao apontar que a obra consegue falar de emoções humanas profundas de uma forma “avassaladora”. 

“A escrita corre solta como o próprio rio do título, puxando o leitor para dentro de uma história intensa sobre amor, dor, ciúme e perdão. A autora constrói personagens tão reais que é impossível não se envolver com as escolhas e os dilemas de cada um. No fim, a obra não entrega apenas um ótimo enredo, mas sim uma experiência emocionante que marca quem lê para sempre”, avaliou. 

Veja a lista de indicações da redação da Gazeta do Povo para melhor livro brasileiro de ficção: 

  • “Grande Sertão: Veredas” – Guimarães Rosa 
  • “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – Machado de Assis 
  • “Tudo é Rio” – Carla Madeira 
  • “Capitães da Areia” – Jorge Amado 
  • “Auto da Compadecida” – Ariano Suassuna 
  • “Memória de um Sargento de Milícias” – Manuel Antônio de Almeida 
  • “O Tempo e o Vento” – Érico Veríssimo 
  • “Vidas Secas” – Graciliano Ramos 
  • “A Grande Arte” – Rubem Fonseca
  • “O Alienista” – Machado de Assis 

noticia por : Gazeta do Povo

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