ANA ADÉLIA JÁCOMO
VANESSA MORENO
DO REPÓRTERMT
O Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), por meio da 27ª Promotoria de Justiça Criminal de Cuiabá, protocolou os memoriais finais da ação penal que investiga quatro policiais militares da Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Móveis) acusados de simular um confronto armado no Contorno Leste.
Na manifestação assinada pelo promotor de Justiça Rinaldo Ribeiro de Almeida Segundo, publicada naa quarta-feira (19), o órgão reforça o pedido para que os réus Jorge Rodrigo Martins, Wailson Alessandro Medeiros Ramos, Wekcerlley Benevides de Oliveira e Leandro Cardoso sejam pronunciados e submetidos a julgamento perante o Tribunal do Júri.
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De acordo com a peça acusatória, a investigação desconstruiu a tese de legítima defesa sustentada pela defesa dos militares. A materialidade e a dinâmica do crime foram atestadas por laudos periciais que comprovaram que todos os estojos e projéteis recolhidos no local partiram exclusivamente das armas regulamentares da guarnição (uma pistola Glock e um fuzil Taurus T4), sem qualquer vestígio de disparo por parte das vítimas.
O laudo necroscópico da vítima fatal, Walteir Lima Cabral, apontou que ele foi atingido nas costas enquanto tentava fugir, e não em um confronto frontal.
O Elo com a execução do advogado Renato Nery
O ponto central detalhado pelo Ministério Público no documento é a conexão balística de extrema gravidade entre a ocorrência simulada e o assassinato do advogado Renato Gomes Nery, executado a tiros em frente ao seu escritório em Cuiabá em julho de 2024.
Reprodução
Renato Nery, de 72 anos, foi morto a tiros em frente ao escritório dele, em Cuiabá, em julho de 2024
A perícia técnica confirmou que a pistola Glock (calibre 9mm, número de série VPL 521), apresentada pelos policiais como se pertencesse aos ocupantes do veículo abordado, era, na verdade, a exata arma utilizada na morte de Renato Nery apenas sete dias antes.
Além disso, munições encontradas no homicídio do jurista pertenciam a lotes institucionais adquiridos pelo Estado de Mato Grosso e fornecidos especificamente ao Batalhão da Rotam.
Para a promotoria, a intervenção policial foi forçada com o objetivo claro de “legalizar” e introduzir formalmente a pistola Glock no mundo jurídico após uma suposta quebra deliberada da cadeia de custódia, quando os policiais retiraram as armas do local antes da perícia técnica. O intuito seria ocultar e assegurar a impunidade dos verdadeiros executores e mandantes da morte do advogado.
O Grupo “Gol Branco”
Os documentos também trazem trechos de investigações telemáticas extraídas dos celulares dos policiais, que revelaram a criação de um grupo no WhatsApp denominado “Gol Branco” logo após os fatos. Nas mensagens anexadas ao processo, o comando e os policiais combinavam versões para manter o boletim de ocorrência original.
O MPMT aponta que os réus incorreram nos crimes de homicídio qualificado consumado, homicídios qualificados tentados, abuso de autoridade, falsidade ideológica e fraude processual, com qualificadoras de motivo torpe, recurso que dificultou a defesa das vítimas e a tentativa de assegurar a impunidade de outro crime.
Com o encerramento da fase de instrução e a apresentação dos memoriais, o processo segue concluso para que o juiz da 14ª Vara Criminal decida sobre a pronúncia dos policiais para o Tribunal do Júri.
FONTE : ReporterMT
