Donald Trump diz ver o degelo do Ártico como uma ameaça séria, já que ele permite que russos e chineses expandam cada vez mais sua influência. Ao mesmo tempo, não faz nada para combater o aquecimento global e frear esse grande degelo.
Há quem ache, contudo, que estamos num estágio que requer mais do que simplesmente cortar emissões de gases de efeito estufa. Em 2023, a Operaatio Arktis, um grupo de jovens ativistas climáticos finlandeses, publicou um manifesto pelo que chamaram de “reparação climática”: pesquisas voltadas a encontrar maneiras de estabilizar geleiras, remover dióxido de carbono da atmosfera e resfriar a superfície terrestre reduzindo a incidência de luz solar.
Entre aqueles que se reuniram em Helsinque para discutir o assunto estava Matthew Henry, da Universidade de Exeter. Ele notou que, quando o assunto era geoengenharia solar —a redução da incidência de luz solar na superfície—, o foco era a ideia de pulverizar dióxido de enxofre, um gás, na estratosfera, onde ele forma pequenas partículas reflexivas.
Ele também observou que muitas pessoas tinham reservas fortes e compreensíveis a chamada injeção de aerossóis estratosféricos (IAE), que cria ácido sulfúrico, que eventualmente retornará à superfície.
Há outra forma de geoengenharia solar que parece mais benigna: o clareamento de nuvens (CN). Neste método, minúsculas partículas de sal marinho seriam adicionadas à parte inferior da atmosfera —a troposfera— usando aeronaves ou, mais provavelmente, navios ou barcaças.
Essas partículas formariam névoas reflexivas e diminuiriam as gotículas de água nas nuvens, além de multiplicá-las. Isso faria com que essas nuvens durassem mais e fossem mais reflexivas, diminuindo a incidência de luz solar no mar.
Ainda não foram criados equipamentos capazes de tirar o método do papel, mas ele já é usado em simulações de computador.
Inspirados pela reunião em Helsinque, o Henry e seus colegas perguntaram a três modelos dos sistemas naturais da Terra se o clareamento poderia, em princípio, preservar o gelo marinho do Ártico.
Na simulação, aerossóis de sal marinho foram pulverizados acima de toda superfície marinha do Ártico ao mesmo tempo em que os níveis de gases de efeito estufa aumentavam de forma razoavelmente realista. Nos três cenários estudados, o método funcionou e as geleiras resistiram.
Além disso, os efeitos fora da região que recebeu os aerossóis foram mínimos. Uma desvantagem do CN em nível planetário é que resfriar um pouco a temperatura global significa resfriar muito os lugares que já são mais frios. Mas quando se trata de limitar os efeitos colaterais associados a um resfriamento do Ártico, essa regionalidade parece uma vantagem.
Impactos indesejados da geoengenharia climática
Os resultados do CN contrastam fortemente com as mudanças drásticas sugeridas por modelos que simulam o resfriamento do Ártico por meio de IAE.
Pulverizar dióxido de enxofre na estratosfera em altas latitudes também reduz as temperaturas do Ártico. Mas, ao mesmo tempo, danifica a camada de ozônio —provavelmente não de forma catastrófica, mas quase certamente significativa— e deposita uma quantidade considerável de sulfato sobre pessoas e ecossistemas em latitudes altas e médias.
Também resfria o hemisfério norte o suficiente para mover a zona de convergência intertropical (ZCIT), a fronteira entre o clima do hemisfério norte e o do hemisfério sul. Isso altera os padrões de chuva e seca em todos os trópicos.
Os modelos oferecem uma solução para isso: resfriar o sul também, usando injeções compensatórias de enxofre no círculo polar Antártico.
Mas isso tem implicações geopolítica. Afinal, a posição da ZCIT deixa de ser apenas uma característica natural do planeta e passa a ser algo pelo qual alguém, em algum lugar, é responsável.
Diante de tudo isso, por que sequer considerar a injeção de aerossóis estratosféricos nas zonas polares? Uma resposta é que, diferentemente do CN, para o qual ainda não há equipamentos, do ponto de vista técnico injetar aerossóis na atmosfera parece viável. Em altas latitudes, é possível colocar enxofre na estratosfera usando aviões comuns.
Quão realistas são essas ideias?
Nos trópicos, a fronteira entre troposfera e estratosfera —a tropopausa— fica a cerca de 20 km, muito acima do teto de qualquer aeronave normal. Mas sua altura diminui à medida que você se afasta da linha do equador. Nas regiões polares, ela é baixa o suficiente para que aviões comerciais voem acima dela.
No entanto, cobrir o planeta de maneira mais ou menos uniforme exigiria aviões que pudessem transportar dióxido de enxofre a altitudes atualmente inalcançáveis. Projetar e construir mesmo algumas dessas aeronaves custaria centenas de milhões de dólares, talvez bilhões. E elas não teriam outros usos além de explorar essa técnica de geoengenharia.
Na ausência delas, a IAE apenas polar seria melhor do que nada? Provavelmente salvaria o gelo marinho e poderia reduzir o risco de que o aquecimento adicional enfraqueça uma parte crucial da circulação oceânica.
Ao mesmo tempo, o uso da técnica seria vigorosamente combatida por países e empresas com interesse nas novas áreas de pesca, rotas comerciais e acesso a matérias-primas que o degelo do Ártico poderia proporcionar.
Além disso, também parece ilegal. Todos os países dentro e perto do Ártico assinaram a Convenção sobre Poluição Atmosférica Transfronteiriça de Longa Distância, que, entre outras coisas, limita as emissões de enxofre de seus territórios a níveis muito abaixo do que a IAE exige.
E quanto ao mundo além dos polos? Também haveria uma diminuição da temperatura global, o que seria um benefício potencial.
Estudos recentes sugerem que, usando jatos que voem a 13 km de altura, seria possível injetar 12 milhões de toneladas de dióxido de enxofre por ano na estratosfera, metade em cada polo, o que poderia reduzir a temperatura média global em 0,6°C.
Mas seria possível obter o mesmo efeito com metade dessa quantidade —e, portanto, menos poluição e risco à camada de ozônio— se houvesse meios de aplicar o enxofre apenas em latitudes extremas, bem mais próximas dos polos norte e sul geográficos. Isso também resultaria em mais resfriamento dos trópicos, lar das pessoas mais vulneráveis ao aquecimento.
A geoengenharia solar não está na agenda de curto prazo de ninguém. Para isso, seria preciso não apenas aeronaves específicas, mas uma mudança generalizada em direção à postura da Operaatio Arktis.
Porém, mesmo se isso acontecer, parece que o objetivo deveria ser resfriar o mundo como um todo, não apenas uma parte dele, por mais especial que essa região seja.
noticia por : UOL
