Machado de Assis viveu o ano de 1888, da abolição, e escreveu a respeito em crônicas de jornal. O registro é precioso e consta do livro “Crônicas Escolhidas”, publicado pela Penguin e Companhia das Letras. Em 21 de maio de 1888, escreveu: “Bem diz o Eclesiastes: Algumas vezes tem o homem domínio sobre outro homem para desgraça sua. O melhor de tudo, acrescento eu, é possuir-se a gente a si mesmo”. Nessa crônica, Machado emprega uma linguagem de versículos bíblicos a fim de zombar dos falsos profetas da abolição.
Com seu estilo ferino, ele se vale do sarcasmo para compreender os fatos em curso. Trata com desdém a falsa benevolência de quem libertou escravos para mantê-los sob jugo de salários paupérrimos, a escala 7×0 da época. “O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente”, escreveu em 19 de maio de 1888. A minha metáfora favorita veio em outra crônica, oito dias depois.
“Cumpre não perder de vista o meteorólito de Bendegó.” A referência é ao meteorito que caiu no sertão baiano no século 18 e o governo imperial decidiu trazer, com a ajuda de 40 juntas de bois, até o Rio de Janeiro para ser exibido no Museu Nacional. “Enquanto toda a nação bailava e cantava, delirante de prazer pela grande lei da abolição, o meteorólito de Bendegó vinha andando, vagaroso, silencioso e científico”, escreveu Machado em 27 de maio daquele ano, para nos lembrar que a história caminha a passos lentos de bois levando um meteorito.
Passados 138 anos desde a abolição, temos alforria, mas nos falta liberdade; temos voto, mas nos falta poder; temos cortes, mas nos faltam juízes como nós; temos racismo, mas sobra quem duvide que ele ainda existe.
Seja pela ausência de uma mulher preta no STF, seja pelo atraso em aprovar a PEC da Reparação, percebemos, 138 anos depois, que temos abolição, mas nos falta reparação.
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noticia por : UOL
