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O que é a rebelião das “baratas”, que pode transformar a política da Índia

Quando, no final de agosto, uma viúva de 47 anos completou descalça uma corrida de três quilômetros no oeste da Índia e ganhou o prêmio de 3.000 rúpias (cerca de 30 dólares), a imprensa informou que a mulher pretendia usá-las para comprar livros e material de estudo para suas duas filhas (uma queria passar nos exames de admissão da polícia e a outra obter um cargo na administração pública). Ao saber do caso, o presidente do Supremo Tribunal, Surya Kant, ordenou que lhe fossem entregues outras 50.000 rúpias, enquanto nas redes sociais o caso levantava controvérsias: “Isso é motivo de orgulho ou de vergonha para nós como sociedade?”, comentou um usuário.
Talvez valesse a pena optar pela vergonha. Certamente, sob o governo do primeiro-ministro Narendra Modi – do Bharatiya Janata Party (Partido Popular Indiano), BJP –, o país mais populoso do mundo empreendeu uma cruzada modernizadora para facilitar a vida de muita gente, com programas que vão desde a abertura de contas bancárias até a instalação de sanitários em zonas rurais onde não havia o costume de usá-los.

Também se continuou ampliando o acesso à educação. Os 25% de menores fora da escola em 1990 reduziram-se a quase zero atualmente, mas – segundo explica uma reportagem da The Economist sobre o tema – a má qualidade do ensino, o absenteísmo dos professores (uma ausência a cada oito dias) e as carências materiais continuam prejudicando enormemente a formação dos estudantes. Os pais que não se conformam com essa situação, como a viúva atleta, tentam suprir por conta própria o déficit formativo resultante; porém, quando chega a hora dos exames de acesso ao ensino superior, já gastaram todo o seu capital em aulas particulares e outros reforços educativos.

Se, além disso, os exames vazam – e nesta década estouraram vários escândalos desse tipo –, entende-se que milhões de jovens, fartos da corrupção, das injustiças e dos problemas desse elevador social que deveria ser a educação, saiam às ruas para cobrar respostas do Governo.

Primeiro, a repressão; depois, o “policial bom”

Aconteceu meses atrás: após o vazamento das perguntas da prova de acesso ao curso de Medicina ter sido compartilhado seletivamente pelo WhatsApp, o exame previsto para 12 de maio foi cancelado, afetando mais de dois milhões de candidatos. As autoridades acabaram demitindo sumariamente 47 funcionários da Agência Nacional de Exames.

Mas o assunto trouxe mais desdobramentos: 21 jovens candidatos cometeram suicídio, o que jogou gasolina no fogo do mal-estar geral e provocou distúrbios em várias cidades. Da esfera política e judicial, a resposta foi errática: o Governo, longe de tentar acalmar os ânimos, prendeu Sonam Wangchuk, um ativista que há mais de 15 anos denuncia fraudes no sistema educacional e que, nesta ocasião, havia entrado em greve de fome até que Modi demitisse o ministro da Educação, Dharmendra Pradhan. Por sua vez, o presidente do ST, Surya Kant – o mesmo que ordenou ajudar a viúva corredora –, referiu-se aos jovens manifestantes como “baratas que não conseguem emprego e não têm lugar em nenhuma profissão”.

Abhijeet Dipke, um indiano de 30 anos recém-graduado e radicado em Boston, pegou a frase rapidamente e a usou a seu favor. “O que aconteceria se todas as baratas nos uníssemos?”, perguntou em um tuit. A partir daí começou um movimento que reuniu, em apenas cinco dias, 10 milhões de seguidores, que continuou se expandindo e adotou como marca registrada o apelido injurioso que o juiz lhes dirigiu: autodenominaram-se satiricamente de Partido Popular das Baratas.

O que eles querem? Por acaso derrubar o Governo de Modi? A lembrança recente das massas de jovens que saíram às ruas em outros países do Sul da Ásia – Sri Lanka em 2022, Bangladesh em 2024 e Nepal em 2025 – fez crer que a indignação massiva obteria o mesmo resultado em Délhi. Mas não.
Em primeiro lugar, esse não era o objetivo. Chietigj Bajpaee, pesquisador sênior da Chatham House para o Sul da Ásia, afirmou que, embora os protestos do verão tenham sido de grande alcance, não ameaçavam realmente a estabilidade do regime como fizeram as revoltas nos países mencionados. Entre as razões para sua negativa, apontou que o CJP “não é (ainda) um partido político, embora vários políticos da oposição o apoiem”; que seu objetivo – a reforma radical do sistema educacional – está bem delimitado; e que o BJP não é exatamente fraco, pois governa em 22 dos 36 estados e territórios que compõem o país.

Segundo o especialista, “não existe uma oposição política forte e unificada” capaz de tirar Modi do poder e, além disso, o mandatário demonstrou uma notável capacidade de adaptação para evitar que os focos de rebelião ganhem força. Desta vez, vendo que a repressão policial não conseguiu tirar as “baratas” das ruas, ele usou a máscara de “policial bom” e se reuniu com representantes do CJP para ouvir suas demandas.

Estas incluem fazer com que o Governo tome medidas efetivas para mitigar o galopante desemprego que afeta os jovens instruídos (com uma taxa de desemprego de 42%); que dê passos para restaurar a confiança no sistema de exames estatais; que os membros do Executivo – incluindo Modi – se submetam mensalmente a coletivas de imprensa reais e sem roteiro; que haja maior transparência na gestão do dinheiro público; e, por fim, que o juiz Kant se desculpe por chamar os jovens desempregados de insetos.
Por enquanto, sabe-se que Modi criticou duramente os supostos responsáveis pelo vazamento dos exames, prometeu aplicar-lhes a lei com severidade e aceitou a renúncia do ministro da Educação. Vê-se que a “praga” deve ter incomodado bastante.

Uma desigualdade enraizada

“Neste país tudo está podre. O sistema educacional está obsoleto. Os estudantes não veem um raio de esperança. As pessoas estão esmagadas sob o peso dos preços exorbitantes. Há corrupção e propinas por toda parte. O desemprego continua aumentando.”

São afirmações sobre a situação na Índia… em 1975. Foram feitas, em plena turbulência civil, por um líder da oposição ao Governo da então primeira-ministra Indira Gandhi, e citadas em um artigo recente pelo Dr. Sadanand Dhume, pesquisador sênior do think tank americano Council on Foreign Relations e colunista quinzenal do Wall Street Journal. Sua tese: não se deve buscar precedentes na “Primavera Árabe” nem nos levantes mais recentes, pois, na Índia, nihil novum sub sole (nada de novo sob o sol).

Questionado pela Aceprensa sobre o atual cenário em seu país de origem e sobre a dificuldade de transformar a educação em um motor de mobilidade social, Dhume comentou: “O sistema educacional impõe ao país dois desafios principais, nenhum dos quais tem solução fácil. Em primeiro lugar, a qualidade da educação é extremamente desigual: a Índia tem ilhas de excelência no meio de um oceano de mediocridade. Em segundo lugar, para estudantes demais não existe um caminho confiável entre a educação e o emprego. O movimento das ‘baratas’ resume precisamente as ansiedades desses jovens que, em tese, têm melhor educação que seus pais, mas que também estão profundamente inseguros sobre o futuro.”

O especialista não prevê o CJP se transformando em um partido político, mas, ao contrário de outros analistas, não descarta que sua força possa fazer estremecer os círculos governantes. “O CJP é melhor compreendido como um grupo de pressão que representa uma profunda realidade social: a ansiedade em relação ao futuro entre a enorme população jovem. No passado, movimentos de protesto semelhantes levaram primeiros-ministros poderosos a perder o poder, como os que esbocei em meu artigo sobre os movimentos de protesto em outros países na década de 1970.”

Subjaz, por fim, a absurda realidade de que um país que alcançou sua independência há quase 80 anos e que hoje envia milhares de engenheiros para o Vale do Silício e outros polos tecnológicos seja, ao mesmo tempo, o lar de tantos milhões de pessoas que sofrem níveis de pobreza inimagináveis no século XXI e que veem muito distante a transformação de uma sociedade tão desigual em uma de bem-estar e prosperidade para a maioria; empreitada na qual, apesar da falta de liberdades civis, a vizinha China se empenhou com maior sucesso.

“Não há dúvida de que a Índia está se saindo muito melhor hoje do que durante as primeiras quatro décadas e meia após sua independência em 1947 – assegura Dhume –. Fez avanços profundos no combate à extrema pobreza e desenvolveu uma considerável capacidade interna em engenharia, ciência e tecnologia. Por exemplo, a Índia fabrica tanto aço quanto os EUA e a Rússia juntos.”

“Ao mesmo tempo, no entanto, a modernização do país continua sendo em grande parte um trabalho em andamento. A maioria dos avanços dos últimos 35 anos, desde a liberalização econômica, beneficiou os 10% das famílias mais ricas. A ideia de que a Índia estava em um caminho de desenvolvimento semelhante ao da China revelou-se um mito.”

E isso a viúva atleta e os jovens “baratas” têm perfeitamente claro.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: La rebelión de las “cucarachas” en la India.

noticia por : Gazeta do Povo

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