Os Estados Unidos completam 250 anos neste sábado. É difícil apontar outro país que decida tanto sobre o destino do Ocidente. É a potência que prende o ditador vizinho, define quem é terrorista, abre e encerra guerras e é, desde o ano passado, a terra natal do papa. No meio disso tudo, a nação ainda encontra tempo e ânimo para esta grande celebração.
O semiquincentenário, como os americanos chamam o marco, culmina neste fim de semana com shows de fogos em todo país e o enterro de uma cápsula do tempo sob o Monumento a Washington, com reabertura marcada para 2276, quando o país completa 500 anos. Nenhum humano que vive hoje estará lá para abrir, mas o legado deve seguir firme.
A lista abaixo percorre os 250 anos que já passaram por meio de 25 frases ditas ou escritas por norte-americanos. Lidas em sequência, elas atravessam a fundação, a escravidão, duas guerras mundiais, a Lua e a queda de um presidente. O país fala por si.
1. “Consideramos estas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, e que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.”
Thomas Jefferson, em 4 de julho de 1776. Jefferson redigiu a Declaração de Independência em 17 dias; Benjamin Franklin e John Adams o revisaram. A frase abre o segundo parágrafo do documento.
2. “Um governo de leis, e não de homens.”
John Adams, em 1780. Adams redigiu a Constituição de Massachusetts, a cláusula pétrea escrita mais antiga do mundo ainda em vigor, e gravou no artigo 30 a fórmula que tomou da tradição republicana inglesa. Ela reapareceria em decisões da Suprema Corte pelos dois séculos seguintes.
3. “Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário.”
James Madison, em fevereiro de 1788. Publicada sob o pseudônimo Publius nos jornais de Nova York, a frase integrava um artigo que defendia a separação de poderes e a fórmula de fazer “a ambição conter a ambição”.
4. “É nossa verdadeira política evitar alianças permanentes com qualquer parte do mundo estrangeiro.”
George Washington, em 1796. Nunca foi proferido: saiu impresso no jornal American Daily Advertiser, da Filadélfia. Orientou a política externa americana por mais de um século.
5. “É enfaticamente da competência e do dever do Poder Judiciário dizer o que é a lei.”
John Marshall, presidente da Suprema Corte, na decisão Marbury v. Madison, 24 de fevereiro de 1803. A sentença criou a revisão judicial, o poder de anular leis inconstitucionais, que a Constituição não previa expressamente.
6. “Quem quiser ser um homem deve ser um inconformista.”
Ralph Waldo Emerson, em 1841. Trecho do ensaio Autoconfiança, texto que fundou a vertente americana do individualismo intelectual e formou gerações de leitores, de Thoreau a Nietzsche.
7. “O que é, para o escravo americano, o vosso Quatro de Julho?”
Frederick Douglass, em julho de 1852. Ex-escravizado, convidado a discursar nas celebrações da independência, Douglass recusou-se a celebrá-la diante de uma plateia majoritariamente branca e abolicionista.
8. “Que esta nação, sob Deus, tenha um novo nascimento de liberdade, e que o governo do povo, pelo povo, para o povo, não desapareça da Terra.”
Abraham Lincoln, discurso de Gettysburg, 19 de novembro de 1863, na dedicação do cemitério dos mortos da batalha. Lincoln falou por pouco mais de dois minutos: 272 palavras. O orador principal do evento, Edward Everett, falou por duas horas, e escreveu ao presidente no dia seguinte admitindo que Lincoln chegara mais perto do sentido da ocasião em dois minutos do que ele em duas.
9. “Fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe.”
Theodore Roosevelt, em 1901. Roosevelt atribuiu a fórmula a um provérbio africano. Doze dias depois, com a morte do presidente William McKinley, baleado por um anarquista, o porrete passou às suas mãos, assumindo a gestão da nação.
10. “O mundo precisa se tornar seguro para a democracia.”
Woodrow Wilson, em 1917, pedindo a declaração de guerra à Alemanha. Wilson havia sido reeleito meses antes com o slogan “ele nos manteve fora da guerra”.
11. “A única coisa que temos a temer é o próprio medo.”
Franklin D. Roosevelt, em 1933. Um quarto da força de trabalho americana estava desempregada e milhares de bancos haviam quebrado.
12. “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos.”
J. Robert Oppenheimer, em 1945. O criador da bomba atômica parafraseia um verso do Bhagavad Gita; Oppenheimer contou diante das câmeras, em documentário da NBC de 1965, que ele lhe veio à mente ao ver a primeira explosão nuclear da história.
13. “A responsabilidade termina aqui.”
Harry Truman, em 1945. A frase ficava em uma placa sobre sua mesa no Salão Oval. Truman, que decidiu sozinho lançar a bomba sobre Hiroshima, repetiu a fórmula em seu discurso de despedida, reforçando que o peso de suas decisões era totalmente seu.
14. “Devemos nos precaver contra a aquisição de influência injustificada pelo complexo militar-industrial.”
Dwight D. Eisenhower, em 1961. O general que comandara o Dia D encerrou oito anos de presidência alertando contra o poder combinado das Forças Armadas e da indústria de armamentos que ele próprio ajudara a construir.
15. “Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país.”
John F. Kennedy, em 1961. Aos 43 anos, Kennedy era o mais jovem presidente eleito da história do país e o primeiro católico.
16. “Eu tenho um sonho.”
Martin Luther King Jr., em 1963. O trecho mais famoso de seu discurso em Washington não estava no texto preparado: a cantora Mahalia Jackson, atrás dele, gritou “conte a eles sobre o sonho, Martin”, e King abandonou o papel.
17. “Eu sou o maior! Eu sacudi o mundo!”
Cassius Clay, em 1964, minutos depois de destronar Sonny Liston no campeonato mundial dos pesos-pesados. Dias depois, o campeão de box, com apenas 22 anos, anunciou sua conversão ao islamismo e o novo nome: Muhammad Ali.
18. “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.”
Neil Armstrong, em 1969, na Lua. Armstrong sustentou pelo resto da vida ter dito “a man” (um homem); o artigo não aparece na gravação transmitida a 600 milhões de pessoas.
19. “Não sou um bandido.”
Richard Nixon, em 1973, no auge das investigações do caso Watergate. Nove meses depois, renunciou. Continua sendo o único presidente americano a fazê-lo.
20. “Uma sociedade que põe a igualdade à frente da liberdade não terá nenhuma das duas.”
Milton Friedman, em 1980. O economista da Universidade de Chicago, Nobel de 1976, tornou-se o rosto público da crítica ao Estado intervencionista e a principal referência intelectual da era que começava.
21. “Sr. Gorbachev, derrube este muro!”
Ronald Reagan, em 1987. O Departamento de Estado e o Conselho de Segurança Nacional tentaram remover a frase dos rascunhos, temendo provocar Moscou no auge da Guerra Fria. Reagan a manteve. O muro de Berlim caiu dois anos depois.
22. “Eu posso ouvir vocês. O resto do mundo ouve vocês. E as pessoas que derrubaram essas torres vão ouvir a nós todos em breve”
George W. Bush, em 2001. De improviso, em uma visita aos escombros do atentado de 11 de setembro, Bush respondia a um socorrista que gritara da multidão que não conseguia ouvi-lo.
23. “Continuem famintos. Continuem tolos.”
Steve Jobs, em 2005. O fundador da Apple, que nunca se formou, usou a frase do Whole Earth Catalog em uma colação de grau, dando ao mundo um credo do Vale do Silício. Morreu seis anos depois.
24. “Sim, nós podemos.”
Barack Obama, em 2008. A fala ocorreu na noite em que se tornou o primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos. O refrão, que ele repetiu ao fim de cada estrofe do discurso, nasceu na campanha das primárias e ecoava o “sí se puede” dos trabalhadores rurais de César Chávez e Dolores Huerta nos anos 1970.
25. “Lutem! Lutem! Lutem!”
Donald Trump, em 2024, segundos depois de uma bala raspar sua orelha num comício, com o punho erguido diante da bandeira. Quatro meses depois, venceu a eleição que o devolveu à Casa Branca.
noticia por : Gazeta do Povo
